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Mais afetada entre os vizinhos, Suécia impõe medidas contra a Covid-19

O governo sueco ficou conhecido pelo modelo de quarentenas voluntárias, mas o país se tornou o mais afetados entre os países nórdicos

Por Vinicius Novelli Atualizado em 11 dez 2020, 19h23 - Publicado em 11 dez 2020, 18h52

Quando a pandemia tomou de assalto o Ocidente em meados de março, os países europeus tentaram procurar uma forma de conter a Covid-19 em seus territórios. Enquanto a maioria das nações optou pela quarentena total – ruas vazias e comércio de portas fechadas com o simples objetivo de frear o vírus –, a Suécia apostou em uma quarentena voluntária, apelando para o bom senso da população.

O chamado “modelo sueco” opôs gregos e troianos. Enquanto especialistas mais conservadores consideraram a estratégia muito ousada, líderes como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o americano Donald Trump e até o premiê britânico, Boris Johnson, chegaram a usar o país como exemplo para justificar suas medidas tardias de controle.

Logo, porém, os planos elaborados pela Suécia começaram a ruir. Até esta sexta-feira, 11, o país é a nação nórdica que mais sofre com a pandemia e a que mais perdeu pessoas para a doença. Diante de tal realidade, pela primeira vez em quase 10 meses, anunciou as primeiras restrições contra o coronavírus.

Segundo os dados mais recentes da Universidade Johns Hopkins, a Suécia tem 297.732 casos confirmados e 7.200 mortes desde o início da pandemia. A taxa de mortalidade do país está em 2,4%, e a cada 100.000 habitantes, 70,7 morrem em decorrência da doença. O valor é próximo ao dos países mais afetados, como os Estados Unidos, onde morrem 87,49 a cada 100.000 pessoas.

Comparado com os vizinhos, a Suécia demonstra ser a nação que mais sofre. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos sete dias, a Suécia registrou um aumento em 14,64% no número de casos, um valor considerado estável, porém também muito acima dos países vizinhos. Somadas, Dinamarca, Noruega e Finlândia não chegam nem perto de qualquer indicador sueco – os dinamarqueses estão em segundo lugar, com 95.332 casos e 901 mortes.

Apesar de ser o país nórdico mais afetado, a linha oficial do governo vinha defendendo a estratégia de quarentena leve e voluntária a unhas e dentes. “Nós teremos que contar os mortos aos milhares. Nós teremos que nos preparar para isso”, disse o primeiro-ministro, Stefan Lofven, em abril. Já Anders Tegnell, o principal epidemiologista do país e responsável pela resposta nacional, afirmou posteriormente que o aumento na contagem de mortos “não significa que a estratégia está errada”.

A estratégia consistia publicamente em apenas recomendações à população, sem anunciar sanções legais a quem não respeitasse esses conselhos. Até mesmo o uso da máscara, vital para diminuir a circulação do vírus, não era incentivado. O trabalho remoto pouco foi mencionado pelo governo, mas as empresas colocaram mesmo assim a maior parte dos funcionários para trabalharem de casa. Contudo, trocas de e-mails obtidas pela revista Time, por meio da lei de acesso à informação do país, mostram que o objetivo principal do governo era o de alcançar a imunidade de rebanho na Suécia.

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Os e-mails datam do início da pandemia. Em março, uma mensagem de um epidemiologista aposentado recomenda a Tegnell a infecção de pessoas em ambientes controlados para combater o vírus. O responsável pela resposta nacional, por sua vez, responde o e-mail concordando com a proposta, e sugerindo que um meio de fazer isso seria “deixar as escolas abertas para alcançarmos a imunidade de rebanho mais rapidamente”.

A conversa fora também encaminhada à contraparte finlandesa de Tengell, Mika Salminen. Ao contrário da Suécia, que manteve o ensino presencial, a Finlândia fechou as escolas.

Um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana, no entanto, mostrou que somente a Suécia e os Estados Unidos falharam em reduzir a mortalidade da doença à medida que a pandemia progredia.

Com a piora da situação, as principais autoridades começaram a voltar atrás em suas declarações. O primeiro-ministro anunciou medidas “sem precedentes” em outubro para conter a doença. E Tegnell fez uma mea culpa e chegou a afirmar que “se nós encontrássemos a mesma doença, com exatamente o que nós sabemos hoje, acredito que ficaríamos em um meio termo entre o que a Suécia fez e o que o resto do mundo fez”.

Entre as restrições em vigor na Suécia estão a proibição de reuniões em espaços públicos com mais de oito pessoas em eventos como shows, palestras e apresentações de teatro. A regra ainda não se aplica a reuniões privadas.

O uso de transporte público também é desencorajado. Bares e restaurantes devem fechar até às 22h30 e a venda de álcool deve ser interrompida às 22h. As últimas medidas anunciadas foram a instauração do ensino à distância em escolas de ensino médio até o fim de 2020.

“Cada vez mais pessoas estão sendo infectadas. Mais e mais leitos de UTI estão sendo usados para tratar pacientes em quadros graves de Covid-19. Mais pessoas estão morrendo”, disse o primeiro-ministro em 25 de novembro. “Não vá a academias, não vá a bibliotecas, não faça jantares. Cancele”, pediu.

“Irá demorar um pouco até que tudo isso acabe. Até lá, esse será o ‘novo’ normal para toda a sociedade, para toda a Suécia”, afirmou no quarto pronunciamento televisionado de um primeiro-ministro sueco na história.

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