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Maduro é uma grande decepção e seu governo está acabando, afirma ex-mentor de Chávez

O sociólogo alemão Heinz Dieterich era amigo e conselheiro político do ex-presidente venezuelano. Segundo ele, os truques populistas de Nicolás Maduro estão quase no fim

Por Jean-Philip Struck, de Berlim - 12 abr 2015, 14h48

Ideólogo do “socialismo do Século XXI”, o sociólogo alemão Heinz Dieterich atuou como mentor e conselheiro informal do ex-presidente Hugo Chávez, com quem se reuniu regularmente entre 1999 e 2007. Chávez chegou a propagandear a obra de Dieterich no Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre, e promoveu a distribuição de livros do sociólogo na Venezuela. Só que a partir deste ano o relacionamento entre o venezuelano e o alemão começou a se deteriorar após Dieterich começar a apontar que o bolivarianismo de Chávez não estava seguindo as diretrizes da sua teoria – uma mescla de democracia participativa e sistema econômico com preços não regulados pelas forças do mercado que deve ser implementada de maneira gradual.

A gota d´água para o rompimento ocorreu em 2007, quando o general Raúl Isaías Baduel, um amigo de Dieterich, caiu em desgraça no governo chavista, que passou a ser acusado de “contrarrevolucionário”. Baduel, que foi um dos responsáveis por desarticular o golpe contra Chavéz em 2002, hoje cumpre pena após ser acusado de corrupção.

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Apesar do rompimento, Dieterich afirma que considerou Chávez um amigo até a morte do ex-presidente venezuelano em 2013. Com a ascensão de Nicolás Maduro em 2013, o sociólogo, que hoje é professor da Universidade Autônoma Metropolitana da Cidade do México , passou a atacar abertamente o governo venezuelano. Segundo Dieterich, o sucessor de Chávez é uma enorme decepção, e a crise econômica e política deve levar ao fim do seu governo nos próximos meses. Segundo ele, a única dúvida é se Maduro vai ser derrotado pela oposição nas urnas ou se vai ser derrubado pelos militares.

O governo de Nicolás Maduro já completou dois anos. Como o senhor avalia a gestão dele até agora?

É uma grande decepção. Os problemas estruturais que brotaram nos últimos anos do governo de Hugo Chávez não foram seriamente abordados. Com o colapso do preço do petróleo, a crise econômica do sistema se agravou de maneira dramática e se tornou uma crise política.

Qual é o grau de insatisfação dos venezuelanos com o governo? As medidas que Maduro costuma lançar para aumentar a popularidade – como forçar a queda de alguns preços- estão esgotadas?

A situação econômica não pode ser corrigida com medidas táticas, e não há nenhum sinal de qualquer intervenção estratégica do Executivo. O governo agora se concentra apenas em bombardear os venezuelanos com a propaganda de uma possível intervenção militar dos Estados Unidos, demonstrando que o estoque de truques está quase no fim.

Quais setores ainda apoiam o governo na Venezuela?

Os militares, os funcionários da nova classe política bolivariana, banqueiros que se beneficiam do sistema, alguns poucos cartéis empresariais e todos que tiram proveito do sistema corrupto. E, finalmente, cerca de 20% da população.

Esse grau de insatisfação entre os venezuelanos demonstra que o chavismo está acabado?

O modelo de Hugo Chavéz evoca memórias de tempos melhores, como o primeiro governo de Juan Domingo Peron na Argentina, mas ele não vai voltar. E hoje essa caricatura do modelo original de liberalização social e soberania nacional só perde credibilidade. O futuro imediato da Venezuela depende de um Estado de bem-estar social com uma liderança esclarecida.

O que o senhor achou do anúncio de Maduro de que ele agora pretende governar por decreto?

Essa medida simplificou o funcionamento do processo político, mas não tem maior importância na situação atual. O Parlamento não vinha sendo um fator de atraso para o Executivo, então não há nenhum ganho de eficiência. A questão fundamental seria implementar um programa de mudança, mas não há iniciativas nesse sentido.

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Em um texto publicado há algumas semanas, o senhor afirmou que 2015 deve ser o último ano do governo Maduro é que só uma questão de tempo até que ele caia. De que maneira o governo dele vai chegar ao fim?

O primeiro cenário: o governo provavelmente vai perder as eleições em dezembro. Com isso, a oposição vai poder convocar um referendo revogatório em 2016 que o governo também vai sair perdedor. O segundo cenário: Se a erosão da popularidade do presidente caminhar muito rápido, os militares vão forçar uma mudança de governo.

Como seria uma eventual intervenção dos militares?

A maioria dos governadores é formada por militares. Esses devem se juntar com os militares da ativa para forçar uma mudança.

Maduro deve temer mais os membros do seu governo que estão insatisfeitos do que a oposição?

A dissidência dentro do partido de Maduro por enquanto está controlada graças a um sistema de complexo de espionagem e pela dependência econômica. No entanto, essas duas ferramentas constituem uma fundação frágil para um governo.

O que Maduro pretende com a prisão de opositores?

Ela força os setores da oposição a agir dentro dos limites constitucionais, e a deixar de lado as manifestações de rua. Para sua própria força, ele quer mostrar liderança. Para os setores políticos dissidentes, ele traça uma linha vermelha que não pode ser cruzada.

Quais podem ser as consequências das medidas de Barack Obama que impuseram sanções contra alguns membros do governo Maduro acusados de violar direitos humanos?

As sanções fortalecem Maduro porque mostram uma intrusão de Washington em assuntos internos de um Estado soberano. É o tipo de coisa de propaganda intervencionista que permite a Maduro aumentar a repressão interna. Mas isso é indiferente para a Casa Branca, já que os americanos acham que, de qualquer forma, o governo não vai sobreviver.

Que medidas o governo poderia tomar para tentar atenuar os efeitos da crise econômica?

Uma profunda liberação do sistema de restrição de troca de divisas; reforma nas bases dos sistemas de importação e distribuição de importações de bens; combater a corrupção; eliminação da fuga de capitais; repatriação de 200 bilhões de dólares [600 bilhões de reais] que estão no exterior. Tudo isso junto com um programa de proteção social para os mais pobres e um ‘Plano Marshall’ financiado pela China e pelos Brics.

E o que o senhor acha das recentes medidas econômicas anunciadas por Maduro, como a criação de uma nova banda de cambio flutuante?

Muito pouco e muito tarde. O volume é muito baixo e só é acessível para os mais ricos e mais poderosos. A Venezuela precisa de uma combinação realista de medidas fiscais, monetárias e sociais para resolver a crise. Não deve ser neoliberal, deve proteger os mais fracos, mas de uma maneira realista para prevenir a destruição da economia nacional. Existem vários modelos históricos que podem ser aplicados. Um deles é a reforma monetária adotada na Alemanha Ocidental depois da II Guerra Mundial [que estabeleceu as bases para o funcionamento do marco alemão e relaxou o controle das potências aliadas sobre a economia alemã].

O futuro da Venezuela é sombrio?

Não é sombrio como o da Ucrânia, mas é muito preocupante.

Como fica a relação entre Cuba e Venezuela, agora que os cubanos demonstram estar se aproximando dos EUA e o governo venezuelano está sem dinheiro?

Se o chavismo continuar no governo, as relações vão continuar a ser amigáveis, mas não no nível que foi sob Chávez. Se a oposição tomar o poder na Venezuela, é certo que as relações vão ser apenas normais e seguir a linha dos EUA.

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