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Maduro cria condições para favorecer suspensão de eleições, diz especialista

Historiadora da Universidade Central da Venezuela cobra mais ação dos países vizinhos para conter a crise na Venezuela: 'A situação é muito grave'

Por Claudia Andrade - 7 mar 2015, 13h34

‘Vizinhos se sentem temerosos porque o discurso de Maduro é o mesmo discurso desses países. Sentem que, se interferirem muito na Venezuela, isso pode ser prejudicial para eles também’

Os catorze anos da Presidência de Hugo Chávez impuseram danos consideráveis à Venezuela: perseguição de opositores, criação de milícias, submissão de instituições, expropriação de empresas, uma economia em ruínas. Bastaram dois anos, no entanto, para o sucessor do coronel piorar o quadro. Nicolás Maduro enfrentou uma onda de protestos no ano passado e agora, com a aproximação de eleições parlamentares e o resultado de pesquisas mostrando vantagem para opositores, ele aperta o cerco contra vozes dissidentes e reforça o discurso desacreditado de que está sob a ameaça de um golpe – com a participação de onipresente inimigo externo, os Estados Unidos.

A historiadora Margarita López Maia aponta como maior diferença entre criador e criatura o fato de que Hugo Chávez encontrava legitimidade em seu carisma, enquanto Maduro está fazendo “um governo muito mais autoritário, apoiado no setor militar”. “Essa crise vai afetar as eleições. O governo está com 20% de popularidade e 70% acham que ele deve renunciar”, afirma a professora do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela.

O problema, também já diagnosticado pela oposição, é Maduro manobrar para suspender a votação. “O jogo é muito duro. Eles sabem que não podem vencer essas eleições, então estão tratando de desestimular o voto na oposição, tentando estigmatizá-la”, diz a historiadora. Confira a entrevista concedida ao site de VEJA.com:

A grave crise na Venezuela vai afetar as eleições para a Assembleia Nacional?

O presidente maduro está jogando muito forte com uma radicalização da oposição e está criando condições que podem favorecer a suspensão dessas eleições. Todas as pesquisas apontam que é muito difícil que o governo ganhe maioria na Assembleia Nacional nessas eleições. E é difícil acreditar que o partido do governo e o governo vão deixar que a oposição ganhe as eleições parlamentares, porque eles não acreditam em pluralismo político e subordinam a Assembleia aos ditames do Executivo. Faz parte, sim, de uma estratégia do governo criar condições para uma radicalização das bases opositoras e desestabilização dos principais partidos.

Isso pode ocorrer em um cenário em que as forças opositoras se descontrolem pela ausência de seus líderes e se dividam integralmente – o que não parece que vai acontecer – ou então se radicalizem, porque, como eu disse, há dirigentes pedindo que Maduro saia já. Isso coloca muita tensão sobre a Mesa da Unidade Democrática [a coalizão opositora MUD], porque a maioria dos partidos quer é que ele saia a partir das eleições parlamentares até um referendo revogatório [que pode ser realizado a partir de 2016]. Essa situação poderia trazer uma desesperança para as fileiras opositoras, não um radicalismo ou uma fragmentação, uma divisão, mas sim poderia estimular uma desesperança, o que faria aumentar a abstenção eleitoral. Outra coisa que pode acontecer é mais violência nas ruas em todos os Estados, o que seria o argumento perfeito para suspender essas eleições. Eu acho que o presidente Maduro está trabalhando com um desses cenários.

O jogo é muito duro. Eles sabem que não podem vencer essas eleições, então tentam desestimular o voto na oposição, estigmatiza-la para que a parte do eleitorado que se separou do chavismo e que não está contente não possa votar na oposição. E também buscam algum tipo de comoção social que justifique a suspensão das eleições.

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Há alguma base nas muitas histórias de golpe que o presidente Maduro levanta em seus discursos?

O presidente Maduro é politicamente frágil, a situação na Venezuela é muito grave, não descarto que haja descontentes nas fileiras militares. Também não descarto que haja setores civis que assustam os militares e que estão buscando uma saída de Maduro de uma maneira não constitucional ou violenta, mas essa não é a maioria das forças opositoras que nesse momento fazem política na Venezuela. A maioria, incluindo os mais radicais, como Leopoldo López, que está preso, como María Corina Machado, que está pedindo a renúncia de Maduro, todos eles disseram mais de uma vez que estão buscando uma saída constitucional. E a Constituição não prevê como crime pedir a um presidente que renuncie. Isso faz parte do jogo democrático.

No entanto, toda tentativa de dissidência, toda queixa, toda crítica a Maduro é interpretada pelo governo como se fosse parte de um golpe subversivo. Nesse sentido, toda dissidência é perseguida, criminalizada e, em alguns casos, levada à prisão e torturada. Foi o que aconteceu com o prefeito de San Cristóbal, Daniel Ceballos, com o prefeito de San Diego, no Estado de Carabobo [Enzo Scarano], com o dirigente Leopoldo López, com Julio Borges, do partido Primero Justicia, que está perdendo a imunidade. Isso tudo com alegações de golpe de Estado que são bastante descabidas, e sobre as quais, até agora, não vimos nenhuma prova efetiva.

Como a senhora avalia o momento atual das relações com os Estados Unidos, com a renovação das provocações do governo venezuelano?

A relação com os Estados Unidos é uma relação de confronto há muito tempo. Teve seus altos e baixos, mas no campo político é uma relação de confrontação. A Venezuela segue dependendo da venda de petróleo aos Estados Unidos, mais que para outros países – embora tenha diminuído, mas os Estados Unidos seguem sendo o cliente mais importante de Venezuela. É uma situação paradoxal. Um discurso de tanto enfrentamento verbal com aquele que, do ponto de vista comercial segue sendo o principal cliente da Venezuela. Há muito teatro nos discursos.

Os Estados Unidos e países vizinhos da Venezuela podem fazer mais para tentar conter a crise?

Mais do que os Estados Unidos, os vizinhos de Venezuela podiam fazer mais, porque até agora têm se mantido à margem, têm olhado para o lado. Há uma chantagem com o discurso de esquerda que manteve tanto o governo Chávez como o governo Maduro. Os outros não se atrevem a defender nada porque acreditam que então isso vai leva-los mais para a direita. Na Venezuela, Maduro conseguiu criminalizar a direita, e fazer a oposição parecer como extrema direta, o que não é correto, porque há um mundo de partidos de muitas tendências ideológicas.

Mas governos da América Latina que se identificam com modelo de esquerda compraram o discurso de Maduro, de um governo crescentemente autoritário e repressor, que não escuta, que não abre espaço para o diálogo, que submeteu os poderes públicos à sua vontade e os colocou a serviço de seu projeto político. Mesmo assim, a América Latina não se atreve a fazer nada. Em particular o Brasil poderia ser um ator muito importante, por tem bastante ascendência sobre a Venezuela. Deveria se atrever a, pelo menos, ser mais ativo, porque a verdade é que a situação na Venezuela é muito grave. Sobretudo do ponto de vista da Unasul, porque lá se encontram uma quantidade de governos que têm alianças comerciais e ideológicas com o governo da Venezuela e poderiam fazer mais.

O que falta para que mudem de atitude?

Eles creem que Maduro representa um discurso de esquerda democrática quando a prática é de um governo militar e autoritário. Acho que se sentem um pouco temerosos porque não veem claramente alternativas na Venezuela e porque, de alguma maneira, o discurso de Maduro é o mesmo discurso desses países, de não intromissão nos problemas de soberania, não intromissão na política interna. Muitos têm problemas de violação de direitos humanos, então sentem que, se interferirem muito na Venezuela, isso pode resultar prejudicial para eles também.

Acredita que também falte, então, mais coesão do lado opositor?

O governo estigmatizou, desqualificou, canalizou recursos para desprestigiar as forças opositoras, e envia às suas embaixadas em toda a América Latina informação sobre um complô internacional, sobre magnicídio e golpe de Estado, como propaganda para ser difundida nesses países. Mas as forças opositoras também são um conjunto de partidos pequenos com lideranças que competem entre si e que se projetam com uma plataforma onde há muitas tensões. Quando se tem um governo tão autoritário, não é fácil saber qual a melhor forma de enfrentar a situação. Isso faz com que os governos de América Latina desconfiem e não saibam se seria pior o remédio do que a enfermidade.

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