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Macron piscou primeiro

O presidente da França não se pronunciou, mas seu governo adiou o aumento da gasolina, combustível para os furiosos protestos no país

Novato nos meandros da vida pública, o presidente da França, Emmanuel Macron, ex-banqueiro de 40 anos que ganhou a Presidência em 2017 justamente por não ser da panelinha política tradicional, aprendeu a duras penas o que todos os governos antes dele já sabiam: franceses, quando vão às ruas em massa para protestar ou reivindicar, só arredam pé ao ser atendidos. Por três sábados seguidos, a França estremeceu sob os passos, os gritos e a raiva de uma mobilização popular que teve como ponto de partida um cronograma de elevação gradual do preço dos combustíveis. Na quarta-feira 5, Macron capitulou: os aumentos, cujo início estava previsto para janeiro, serão suspensos por um ano. “Os eleitores votaram em Macron achando que ele iria mudar as coisas, e isso não aconteceu. Pelo contrário, ele ganhou fama de presidente dos ricos. Agora, com a popularidade muito baixa, seguiu a tradição de fazer concessões antes de a situação ficar insustentável”, analisa o historiador Robert Gildea, da Universidade de Oxford.

Embora evidentemente tenha aprovado o recuo, Macron continuou como esteve desde o começo dos protestos: calado e distante da grita popular. Quem anunciou o adiamento do cronograma de aumentos foi o primeiro-­ministro, Édouard Philippe. “Nenhum imposto é mais importante que a unidade da nação. Teríamos de ser cegos e surdos para não ver e ouvir a insatisfação”, disse ele ao término de uma sessão a portas fechadas do Parlamento. Na reunião, viu-se posto contra a parede pela oposição à direita e à esquerda, que, atiçada pela perspectiva de ganhar eleitores, não para de questionar a reação do governo ao movimento popular.

Sempre mudo, o presidente limitou-se a percorrer, de cara fechada e cercado de seguranças, pontos de Paris afetados pela marcha do dia 1º, a mais violenta até agora. Sob a fumaça de gás lacrimogêneo e jatos de água lançados pela polícia, manifestantes — e vândalos que sempre tiram partido dessas situações — puseram fogo em carros, quebraram vitrines de lojas de luxo e depredaram monumentos. Quando a poeira baixou em volta do Arco do Triunfo, uma pichação dizia: “Cortamos cabeças por menos do que isso”. Pois bem. Como se sabe, a guilhotina é uma invenção francesa.

Há dúvidas se o adiamento da alta de preços, que também se aplica à implantação de inspeção mais rigorosa de veículos e à elevação do custo da eletricidade, vai contentar os insatisfeitos — gente do interior e dos subúrbios franceses que vê sua renda estagnada (os reajustes têm sido de 1% ou menos), a economia desacelerada (a taxa de crescimento anual é de 1,8%) e o desemprego alto (na faixa dos 9%, embora tenha caído 1 ponto no governo Macron). Para piorar a indignação das classes média e baixa, uma das primeiras medidas do presidente para estimular os negócios foi cortar impostos dos mais ricos e das grandes indústrias. “O imposto da gasolina é só o começo”, fulminou Tony Roussel, que, em Marselha, fala pelo movimento nascido e criado nas redes sociais e sem líderes conhecidos.

Philippe tentou marcar uma reunião — a primeira iniciativa do gênero — com integrantes mais moderados dos “coletes amarelos”, assim chamados por usarem o equipamento de segurança obrigatório nos carros. Acabou cancelando o encontro depois que dois dos que haviam aceitado o convite disseram ter recebido ameaças de morte. Não se sabe até que ponto Macron está disposto a sacrificar reformas que considera essenciais para estimular uma economia em marcha lenta e, ao mesmo tempo, fazer avançar uma causa pela qual tem especial apreço: reduzir as emissões poluentes (daí a alta dos combustíveis) e promover formas de energia limpa.

Analistas colocam a revolta na França no mesmo campo minado de descontentamento popular que varre boa parte da Europa e os Estados Unidos, fomentado por camadas da população alijadas dos grandes centros (e ressentidas de sua pujança), preocupadas com a queda de seu poder aquisitivo e decepcionadas com os políticos tradicionais. “Esta angústia social pode ser notada em toda parte”, observa o historiador Marc Lazar, do Sciences Po, instituto de ciências sociais em Paris.

Unida no descontentamento, a revolta francesa difere, porém, das demais pelo que ela não tem: relação com a direita, aversão a imigrantes e agenda nacionalista, entre outros fatores. Sua força vem da raiva e da decepção, que não dão sinais de se abater. “Não queremos migalhas. Queremos a baguete inteira”, desafiou na TV outro porta-­voz dos protestos, Benjamin Cauchy. No meio da semana passada foram os estudantes que saíram às ruas e queimaram carros em vários pontos da França. O sábado 8 dirá se o movimento dos “coletes amarelos” tem combustível para seguir nas ruas.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612