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Louvre se mexe para espantar problemas agravados pelo excesso de turistas

Que o museu siga ensinando tantos mestres como Cézanne, mas consiga também aprender com os próprios erros

Por Sara Salbert Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 jul 2026, 08h00
Louvre se mexe para espantar problemas agravados pelo excesso de turistas Priorizar nos meus resultados Google

Por mais de oito séculos, o Louvre atravessou intensas convulsões e twists da história francesa. Erguido no fim do século XII como fortaleza em uma época de invasores sempre à espreita, transformou-se em um belo palácio renascentista habitado por duas dezenas de monarcas e sobreviveu intacto à Revolução Francesa. Foi justamente aí que se transformou em museu, no ano de 1793, abarrotado então de obras confiscadas da realeza e da Igreja, que os insurgentes combatiam. Hoje, ocupa a posição de maior e mais visitado museu de arte do planeta, posto que faz estufar o orgulho francês, e oferece uma vitrine completa de diferentes civilizações. Todos esses superlativos, porém, não foram suficientes para preparar a tão nobre instituição para a fatídica manhã de 19 de outubro de 2025, quando quatro ladrões se infiltraram em uma de suas mais requisitadas salas, a bordo de uma escada elevatória instalada em um caminhão, e surrupiaram joias da coroa na casa de meio bilhão de reais em um estalo de sete minutos.

O assalto à luz do dia, executado com espantosa facilidade, expôs algo já sabido, mas pouco falado: o cartão-postal parisiense que tanta cultura concentra vem envelhecendo mal, fruto de décadas de gestão ineficiente aliadas às consequências de um turismo em massa que faz do valioso patrimônio um caso emblemático de overtourism. Depois do roubo que mexeu com os brios locais, houve troca de comando, e o vistoso cargo de diretor foi passado ao prestigiado historiador da arte Christophe Leribault, que recentemente deu contornos à crise sem paralelos no Louvre: “O museu está no limite”, disse ele, lembrando que serão necessários aportes vultosos para renovar estruturas que datam de outras eras.

SÓ DÁ ELA - Mona Lisa: 80% têm como objetivo número 1 ver a tela de Da Vinci
SÓ DÁ ELA - Mona Lisa: 80% têm como objetivo número 1 ver a tela de Da Vinci (Eric Feferberg/AFP)

E o assunto acabou virando alvo de uma CPI na polarizada Assembleia Nacional, que acaba de concluir: o museu negligenciou fragilidades que teriam evitado tão triste capítulo, “relegan­do-as a segundo plano”. Para sustentar o que diz, o relatório elenca os gastos ali entre 2018 e 2024: entre todos os investimentos, “manutenção e adequação às normas de segurança” aparecem em último lugar, atrás da expansão do acervo e de renovações pontuais — bem-vindas iniciativas, é verdade, mas que se desviam do mais básico e essencial. “O Louvre anda à deriva há anos por focar no prestígio em vez de colocar os esforços em uma urgente restauração”, avalia o historiador da arte francês Didier Rykner.

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Os sinais de degradação, nem sempre visíveis ao visitante desavisado, espalham-se pelos 73 000 metros quadrados do antigo palácio. A vulnerabilidade de velhas vigas forçou o fechamento de galerias por risco de desabamento, e vazamentos de água danificaram centenas de livros insubstituíveis no departamento de antiguidades egípcias. Nestes tempos de termômetros batendo recorde após recorde, o sistema de climatização é hoje incapaz de manter temperatura e umidade estáveis, o que traz risco a pinturas, esculturas e antiguidades particularmente sensíveis às oscilações climáticas. A guia turística brasileira Priscilla Achcar, que há quase uma década atua no Louvre e conhece aqueles corredores de cor, relata que, para quem vive o dia a dia do museu, os problemas são bastante perceptíveis. “Além do desconfortável empurra-empurra causado pelo excesso de pessoas, vemos goteiras com frequência, os banheiros são uma catástrofe e o cheiro de esgoto toma conta de certas galerias”, conta.

À LUZ DO DIA - Roubo de joias da coroa: falha básica na segurança
À LUZ DO DIA - Roubo de joias da coroa: falha básica na segurança (Dimitar Dilkoff/AFP)
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A última grande reforma no Louvre foi nos anos 1980, quando o ex-presidente François Mitterrand encomendou ao badalado arquiteto chinês I.M. Pei a icônica pirâmide de metal e vidro que serve de entrada ao museu, causando uma daquelas polêmicas que põem em lados opostos do ringue os mais conservadores e a turma com afã para inovar. A obra dobrou a área de exposição, permitindo que o prédio recebesse 4 milhões de visitantes ao ano — quantidade já extraordinária, mas muito aquém da multidão atual, de 9 milhões de pessoas que se espremem no mesmo espaço de meio século atrás. O Louvre acabou virando assim vítima do próprio sucesso, convivendo com um formigueiro de gente que faz fila para entrar e enfrenta dificuldade de ir de um canto ao outro na imensidão do museu. No entra e sai de 30 000 visitantes diários, 80% cruzam as catracas com uma ideia fixa: querem ver a Mona Lisa e, para isso, têm de lutar por uma brecha para ficar frente a frente com a enigmática figura que encara o visitante tendo ao fundo o sfumato, a esfumaçada técnica que Leonardo da Vinci elevou a outro patamar. O resultado é uma experiência exaustiva, tanto para o público quanto para os funcionários, que a toda hora engatam uma greve por falta de pessoal, sobrecarga de trabalho e dificuldade para administrar tamanho fluxo de turistas.

A resposta do Estado francês, dono do museu, começou a tomar forma uns meses atrás, quando o presidente Emmanuel Macron apresentou o ambicioso projeto batizado de Novo Renascimento, estimado em cerca de 6 bilhões de reais. Até 2031, o complexo ganhará uma nova entrada para desafogar a congestionada pirâmide, galerias subterrâneas, redes de climatização, segurança repaginada, além de uma sala exclusiva para acomodar a concorrida Mona Lisa, com acesso independente — tentativa de minimizar os implacáveis efeitos do overtourism. Segundo especialistas, adiar a intervenção, que conta também com euros provenientes de doações e ingressos, significaria ampliar riscos considerados inaceitáveis para uma joia como o Louvre. Desde o nascedouro, artistas de todos os tempos e estilos ficavam por lá imersos, como Paul Cézanne (1839-1906), que ajudou a fincar a ponte rumo à arte moderna sorvendo inspiração daquelas galerias. Ele dizia: “O Louvre é o livro onde se aprende a ler”. Que o museu siga ensinando tantos mestres como Cézanne, mas consiga também aprender com os próprios erros. A humanidade agradece.

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Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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