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Líderes do Khmer Vermelho são julgados por planejar genocídio no Camboja

Laura Villadiego.

Phnom Penh, 21 nov (EFE).- O trio de dirigentes do Khmer Vermelho, que fez parte da cúpula do regime imposto no Camboja há 36 anos, foi acusado nesta segunda-feira de planejar a campanha de aniquilação na qual morreram até 2,2 milhões de pessoas em apenas 45 meses.

O tribunal internacional patrocinado pela Organização das Nações Unidas começou com esta acusação o julgamento do antigo chefe de Estado do regime do Khmer Vermelho, Khieu Samphan; do ideólogo e número dois da organização, Nuon Chea; e do então ministro de Relações Exteriores, Ieng Sary.

Os três, todos octogenários e presos desde 2007, se sentarão no banco dos réus durante os próximos meses para responder às acusações de genocídio, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra cometidos entre abril de 1975 a janeiro de 1979, o período do chamado Holocausto do Camboja.

‘Estes crimes ordenados e orquestrados pelos acusados estão entre os piores horrores infligidos em qualquer nação na história moderna,’, disse a promotora Chea Leang, que durante seu discurso lembrou que aproximadamente um quarto da população do Camboja morreu durante o regime.

A quarta acusada, Ieng Thirith, esposa de Ieng Sary e ministra de Assuntos Sociais do regime, se ausentou da sessão depois que o tribunal lhe declarou incapacitada para ser julgada por sofrer de Alzheimer.

A Promotoria recorreu da ordem de libertação da ex-ministra, que continuará nas dependências do tribunal até que a Sala Suprema decida sobre seu caso nas próximas semanas.

O julgamento começou com os comentários iniciais da acusação, que lembrou casos concretos sobre os casamentos forçados, as torturas e assassinatos cometidos em cerca de 200 centros de segurança.

A promotoria também atribuiu aos três membros da cúpula da organização de inspiração maoísta o planejamento de uma sistemática campanha para eliminar as minorias de origem vietnamita e de religião muçulmana.

‘O Partido Comunista de Kampuchea transformou o Camboja em um campo de concentração em massa, produzindo assim uma nação inteira de prisioneiros vivendo sob um sistema de brutalidade’, disse a promotora.

Além disso, a promotoria assegurou que os três dirigentes da cúpula liderada por Pol Pot, morto em 1998, tinham informações sobre as mortes maciças e que os assassinatos obedeciam ‘estritamente às ordens e políticas dos acusados’, algo que os réus negaram desde o início do processo judicial.

‘Os acusados conheciam perfeitamente as consequências (…) e devem ser responsáveis por isso’, disse Leang.

Em seu discurso, o promotor internacional Andrew Cayley afirmou que os três acusados representam um ‘legado catastrófico’ e tem ‘sangue nas mãos’.

Esta sessão começou formalmente em junho, com as deliberações sobre os aspectos legais e foi posteriormente segmentada em pequenos processos para tornar o julgamento menos complexo no tribunal estabelecido em 2006, após quase nove anos de discussões.

A primeira fase julgará exclusivamente as deportações maciças das cidades para o campo, que causaram a morte de milhares de pessoas por exaustão, crise de fome e doenças, assim como os crimes contra a Humanidade relacionados com estes.

Já foi julgado Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, que dirigiu o centro de detenção e torturas S-21, no qual cerca de 16 mil pessoas morreram na prisão ou nos campos de extermínio de Choeung Ek, nos arredores de Phnom Penh.

Duch foi condenado a 35 anos de prisão em julho de 2010, mas sua sentença definitiva será conhecida em fevereiro.

O chefe do Khmer Vermelho, Pol Pot, morreu na selva cambojana em 1998, prisioneiro de seus próprios correligionários. EFE