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Lideranças do Xingu criticam presença de indígena pró-Bolsonaro na ONU

Caciques afirmam em carta aberta que inclusão de Ysani Kalapalo na delegação brasileira indica desrespeito do governo

Representantes dos dezesseis povos indígenas habitantes do Território Indígena do Xingu denunciaram em uma carta aberta a inclusão da indígena Ysani Kalapalo na delegação do Brasil que participará da Assembleia-Geral das Nações Unidas em Nova York.

Segundo os líderes, Kalapalo “vem atuando constantemente em redes sociais com objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil”.

“O governo brasileiro mais uma vez demonstra com essa atitude o desrespeito com os povos e lideranças indígenas renomados do Xingu e outras lideranças a nível nacional, desrespeitando a autonomia própria das organizações dos povos indígenas de decisão e indicação de seus representantes em eventos nacionais e internacionais”, diz a carta.

“Não aceitamos e nunca aceitaremos que o governo brasileiro indique por conta própria nossa representação indígena sem nos consultar através de nossas organizações e lideranças reconhecidos e respaldados por nós”.

A mensagem é assinada pelos caciques dos povos Kalapalo, Yawalapiti, Kuikuro, Kamaiurá, Wauja, Nafukua, Matipu, Aweti, Mehinako, Trumai, Ikpeng, Kisedje, Yudjae e Kawaiwete, e pela Associação Terra Indígena Xingu (Atix).

Kalapalo, moradora de uma aldeia no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, é simpatizante das ações do governo na Amazônia – ao contrário de outros representantes indígenas, como o cacique Raoni.

A indígena, que tem um canal no YouTube, é defensora do discurso do governo de que “fake news” distorcem informações sobre as queimadas na Amazônia.

Na semana passada, Jair Bolsonaro compartilhou nas redes sociais um vídeo em que Ysani Kalapalo aparece em sua aldeia e afirma: “Existe muito fake news sobre as queimadas, que é culpa do governo Bolsonaro. Não existe isso aí”.

Em outros vídeos em seu canal, a jovem fala sobre o Xingu, afirma que faz parte da cultura indígena usar fogo para limpar a terra para plantações e rejeita a liderança do cacique Raoni.

Bolsonaro viajou nesta segunda-feira, 23, para Nova York para participar do evento da ONU. A questão ambiental deve ser o centro do discurso do presidente.

Mesmo em recuperação após cirurgia para retirada de uma hérnia abdominal – provocada pela facada que sofreu na campanha eleitoral de 2018 – o presidente teve liberação médica para embarcar. De acordo com sua agenda oficial, Bolsonaro partiu de Brasília com destino a Nova York às 7h e desembarca durante a tarde na cidade americana.

Em live nas redes sociais na última semana, Bolsonaro prometeu promete fazer uma apresentação “bastante objetiva, diferente de outros presidentes” que o antecederam. “Ninguém vai brigar com ninguém lá, podem ficar tranquilos”, disse.

“Tá na cara que eu vou ser cobrado, porque alguns países me atacam, de uma maneira bastante virulenta, dizem que eu sou o responsável pelas queimadas aí pelo Brasil. Nós sabemos, pelos dados oficiais, que queimada tem todo o ano, infelizmente. Quer que faça o que? Tem”, disse o presidente.

De acordo com o Itamaraty, ainda não está na agenda oficial um jantar com o presidente americano, Donald Trump, anunciado por Bolsonaro. O americano receberá chefes de Estado em um jantar na noite desta segunda.