Líder da ultradireita britânica, Farage vence eleição contra humorista ‘cara de lata de lixo’
Pleito local foi convocado quando o próprio extremista renunciou à sua cadeira de deputado, em manobra denunciada como cortina de fumaça contra escândalo
O líder da extrema direita britânica Nigel Farage, conhecido como arquiteto do Brexit, que retirou o Reino Unido da União Europeia (UE) em meio ao crescimento do sentimento anti-imigração, foi reeleito com tranquilidade como deputado em uma eleição suplementar, segundo resultados divulgados nesta sexta-feira, 14. Ainda assim, seu principal adversário — um candidato satírico que usa uma lixeira na cabeça — teve um resultado melhor do que o esperado.
Farage provocou a eleição de propósito. No mês passado, renunciou à cadeira parlamentar de Clacton, que ele ocupava desde 2024, devido a uma investigação sobre suas finanças, em uma manobra para reforçar a sua base em meio ao escândalo. Na quinta-feira 14, o líder do partido de extrema direita Reform UK recebeu 63% dos votos no distrito inglês.
O principal rival de Farage foi o misterioso “Count Binface” (em tradução livre, Conde Cara de Lata de Lixo). O candidato, um alter ego do comediante Jon Harvey, superou as expectativas ao receber 9.455 votos, o equivalente a 27% do total.
Antes do fim da apuração, Farage já havia declarado seu triunfo. “O veredito foi dado e é uma vitória convincente e avassaladora”, afirmou em um evento em Essex.
Eleição polêmica
Analistas previram a vitória de Farage, mas subestimaram o desempenho do autodenominado “guerreiro espacial intergaláctico”, que fez campanha usando uma lata de lixo como capacete, e previram uma participação eleitoral muito elevada.
Os principais partidos políticos britânicos, incluindo o primeiro-ministro do Partido Trabalhista, rejeitaram a votação, que consideram uma manobra do líder do movimento de extrema direita Reform UK para evitar o escrutínio de suas atividades.
A situação permitiu que dezenas de candidatos pequenos, entre eles o tal conde, se destacassem durante a campanha.
“A vitória moral já é minha”, disse à agência de notícias AFP o comediante no centro de apuração durante a madrugada de sexta-feira, antes do anúncio do resultado final.
Farage não acompanhou a contagem dos votos, momento em que os candidatos tradicionalmente se reúnem para a proclamação dos resultados, alegando que a polícia o advertiu sobre o planejamento de uma “campanha organizada para interromper e deslegitimar o resultado”.
A taxa de participação foi de 44%, abaixo dos 59% registrados nas eleições gerais de 2024, mas isso é comum em eleições suplementares.
No distrito de Clacton, muitos eleitores mostraram pouco entusiasmo com a disputa eleitoral e até alguns voluntários do Reform UK descreveram a eleição como uma piada.
“É um pouco ridículo”, disse à AFP a ativista do partido Jane Embelton. “Basicamente, tudo isso é para fazer Nigel Farage parecer um idiota. Mas nem eu nem seus apoiadores o consideramos um idiota”.
Escândalo
Quase 80 mil pessoas estavam aptas a votar na eleição, da qual participaram 34 candidatos, nenhum deles dos principais movimentos políticos, que consideram o evento uma cortina de fumaça de Farage, cujo partido liderou as pesquisas nacionais por 18 meses, antes de perder espaço recentemente. Ele surpreendeu os eleitores no mês passado, ao renunciar à sua cadeira.
Uma investigação do órgão parlamentar de controle da corrupção analisa as acusações de que Farage e o vice-líder do Reform, Richard Tice, não declararam doações, uma delas de mais de US$ 6 milhões. Ambos negam ter cometido qualquer irregularidade.
Farage apresentou a votação de quinta-feira como uma batalha do “povo de Clacton contra ‘o establishment'”, com o objetivo de frustrar o que chamou de “armadilha” envolvendo suas finanças.
As polêmicas coincidiram com uma queda, segundo pesquisas, no apoio ao Reform e na popularidade de Farage, uma figura que divide a opinião pública. Entre seus oponentes já não estão mais apenas os tradicionais partidos Trabalhisa e Conservador, mas também o Restore, uma nova sigla de extrema direita que também usa como plataforma alegações sobre uma “invasão” de imigrantes ao Reino Unido.







