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Líbios vão às urnas pela primeira vez em mais de 40 anos

Cerca de 2,7 milhões de eleitores vão escolher assembleia que deverá nomear um novo governo e um comitê de especialistas encarregado de redigir

A Líbia vai às urnas neste sábado para eleger o primeiro Congresso Geral Nacional da era pós-Muamar Kadafi. É a primeira eleição no país em mais de 40 anos.

As sessões eleitorais abriram cedo e fecharão às 20h do horário local (15h de Brasília). Alguns eleitores em Trípoli foram votar com as bandeiras negras, vermelhas e verdes da revolução, e as mesquitas repetiam a todo volume seu “Alá Akbar” (Deus é grande).

Os líbios elegerão os 200 membros do primeiro Congresso Geral Nacional que deverá nomear um novo governo e um comitê de especialistas encarregado de redigir um projeto de Constituição, que depois será submetido a referendo.

Os assentos são divididos entre candidatos independentes (120) e movimentos políticos (80), uma maneira de evitar, segundo as autoridades, que apenas um partido político domine a futura Assembleia Constituinte. Isto não impede, no entanto, que alguns partidos apoiem candidatos individuais, o que poderia levar os islamitas ao poder na Líbia, como já aconteceu na Tunísia e no Egito, dois países que também viveram a onda de protestos da chamada “Primavera Árabe”.

Os resultados da votação serão anunciados a partir de segunda, segundo a Comissão Eleitoral.

Entenda o caso

  1. • A revolta teve início no dia 15 de fevereiro, quando 2.000 pessoas organizaram um protesto em Bengasi, cidade que viria a se tornar reduto da oposição.
  2. • No dia 27 de março, a Otan passa a controlar as operações no país, servindo de apoio às tropas insurgentes no confronto com as forças de segurança do ditador, que está no poder há 42 anos.
  3. • Após conquistar outras cidades estratégicas, de leste a oeste do país, os rebeldes conseguem tomar Trípoli, em 21 de agosto, e, dois dias depois, festejam a invasão ao quartel-general de Kadafi.
  4. • A caçada pelo coronel terminou em 20 de outubro, quando ele foi morto por rebeldes em sua cidade-natal, Sirte. Um mês depois, seu filho e herdeiro político Saif al Islam foi capturado durante tentativa de fuga.

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Mesmo que ainda não haja uma data para o anúncio dos resultados, assim que a nova assembleia fizer sua primeira sessão, o Conselho Nacional de Transição (CNT), que dirige a Líbia desde a queda do regime Kadafi, terá que renunciar.

Votação – A votação, prevista inicialmente para 19 de junho, segundo o calendário do CNT, foi adiada por razões técnicas e logísticas, segundo a comissão eleitoral. Num total de seis milhões de habitantes, 2,7 milhões de líbios estão inscritos nas listas eleitorais.

Embora mais de 4.000 candidatos individuais ou inscritos nas listas de movimentos políticos tenham se apresentado, a comissão eleitoral só declarou elegíveis 2.501 independentes e 1.206 de grupos políticos.

No total, 620 mulheres apresentaram suas candidaturas e estão bem representadas nas listas dos partidos, embora entre os candidatos individuais só representem 3,4%.

Disputa – Durante a campanha eleitoral, que terminou na quinta-feira, principalmente três partidos se destacaram. Dois deles são islamitas: o Partido da Justiça e da Construção (PJC), um braço da Irmandade Muçulmana, e o Al-Watan, do polêmico ex-chefe militar de Trípoli Abdelhakim Belhaj.

O terceiro grupo político de destaque é o dos liberais, reunidos em uma coalizão lançada por Mahmud Jibril, o ex-primeiro-ministro do CNT durante a revolta contra Kadafi.

A repartição geográfica dos assentos da assembleia foi muito discutida, sobretudo no leste do país, onde os partidários do federalismo pediam mais deputados. O Conselho Nacional de Transição decidiu finalmente distribuir assentos de acordo com considerações demográficas, de modo que 100 serão eleitos no oeste do país, onde há o maior número de habitantes, 60 no leste e 40 no sul.

O CNT também decidiu sob pressão que o sistema de votação da futura Assembleia Constituinte seja por maioria de dois terços, de modo que o oeste do país não possa tomar uma decisão sem a aprovação das outras regiões.

Mas os federalistas exigem uma “repartição equitativa” dos assentos e ameaçam boicotar e até sabotar o processo eleitoral se suas reivindicações não forem levadas em conta. Nos últimos dias houve até saques nos centros de votação no leste da Líbia, sobretudo na cidade de Benghazi.

Tensão – Diante dessas ameaças, existem dúvidas sobre a capacidade das autoridades de garantir a segurança das eleições, em um país onde milícias com armas pesadas circulam impunemente .

Nesta semana, os partidários de uma maior autonomia para o país convocaram, no leste do país, o boicote da votação e ameaçaram sabotar as eleições para denunciar a divisão de cadeiras da futura assembleia. Estas tensões terminaram na morte, na sexta-feira, de um funcionário da Comissão Eleitoral devido a um disparo de arma leve contra um helicóptero que transportava material para as eleições na região de Hauari, sul de Benghazi, a principal cidade do leste.

Além disso, o terminal petroleiro de Ras Lanouf foi fechado na quinta-feira por partidários do federalismo.

(Com Agência France-Press)