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Libéria: Nobel da Paz deve ser ‘empurrão’ que faltava a Ellen

Atual presidente não cumpriu tudo o que prometeu, mas é favorita nas eleições, cujos resultados parciais estão previstos para serem divulgados ainda nesta 4ª

Por Gabriela Loureiro 12 out 2011, 08h54

“O anúncio do Nobel da Paz não é ingênuo. É claro que um acontecimento desses em véspera de uma eleição favorece Ellen, que agora é vista como a mãe da pátria liberiana em um momento em que é necessário se caminhar em direção à paz”

Leila Hernandez, professora de História da África contemporânea da USP

Até o fim da tarde desta quarta-feira, os liberianos esperam ter em mãos os resultados parciais da eleição presidencial – a segunda da história do país. No dia anterior, a população foi às urnas decidir o futuro de uma campanha marcada por forte polarização. Eram, ao todo, 16 candidatos, mas a disputa ficou focada apenas entre a atual presidente, Ellen Johnson Sirleaf, e seu principal opositor, Winston Tubman. E apesar de Tubman ter ganho força política nos últimos anos, por consequência da decepção geral com um governo que prometeu mais do que cumpriu, é Ellen quem tem uma grande vantagem a seu favor: o Prêmio Nobel da Paz, entregue quatro dias antes do pleito a ela e outras duas mulheres pela “contribuição para a paz e a dignidade humana”. Analistas afirmam que a condecoração é o “empurrão” que faltava à popularidade dela e deve mesmo influenciar o resultado da votação.

“O anúncio do Nobel da Paz não é ingênuo. É claro que um acontecimento desses na véspera de uma eleição favorece Ellen, que agora é vista como a mãe da pátria liberiana em um momento em que é necessário se caminhar em direção à paz”, destaca ao site de VEJA a professora de História da África contemporânea da USP, Leila Hernandez. A atual presidente nasceu na capital do país, Monróvia, em 1938, e estudou Ciências Econômicas na Universidade de Harvard. Conhecida como “Dama de Ferro”, foi a primeira mulher eleita para o cargo no continente africano. “Por um lado, o prêmio coroa o esforço de uma líder que tem dado importantes passos na estabilização da Libéria e demonstra o crescimento do papel de mulheres africanas em processos de paz”, pondera Gustavo de Carvalho, analista do Centro Africano para a Resolução Construtiva de Disputas (ACCORD, na sigla em inglês). “Por outro, o Nobel da Paz coroa uma personalidade política que tem recebido duras críticas por sua inoperância ao combater casos de corrupção, por lentas respostas no processo de reconciliação nacional e pela dificuldade de diminuir as discrepâncias entre a pequena elite liberiana e o resto da população.”

Ellen é descendente de escravos libero-americanos, uma elite que dominou a política na país de 1878 até 1980, quando se tornou independente dos Estados Unidos, a partir de um golpe de estado que derrubou o presidente William Tolbert. O sargento das Forças Armadas Samuel Do, que liderou o movimento, instaurou uma ditadura que não dava abertura a uma oposição política. Por isso, Ellen, que foi ministra de Finanças durante dois anos no governo anterior, foi presa várias vezes. Quando o regime de Doe também caiu, em 1989, grupos armados se enfrentaram em violentos confrontos para tomar o poder. A guerra civil se estendeu até 2003 e terminou com um saldo de 250.000 mortos e uma nação praticamente destruída. No final de 2005, a “Dama de Ferro” foi eleita presidente, após um acirrado segundo turno contra George Weah, ex-astro de futebol que agora concorre a vice na chapa de Tubman. Na época, ela prometeu que não se candidataria de novo, mas mudou de ideia neste ano, levantando uma polêmica. Ela alega que o processo de reconstrução do país está mais lento do que o previsto e pede aos liberianos que a deixem terminar seu trabalho. Já o slogan da oposição, “Velha demais para continuar”, sintetiza a tese de seus críticos de que ela não teve fôlego suficiente para enfrentar os inúmeros problemas do país.

Onde fica: Libéria

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País da África Subsaariana, tem cerca de 4 milhões de habitantes, que vivem traumatizados por guerras civis que, de 1989 a 2003, deixaram 250.000 mortos, destruindo infraestruturas e a economia.

Ellen, a atual presidente e Nobel da Paz 2011 foi a primeira mulher eleita para o cargo na África, em 2005.

Desafios – Em 2010, a Libéria ficou em 162º lugar entre os 169 países no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, e em primeiro lugar no ranking de países mais corruptos da África Subsaariana, apesar das promessas de combate à corrupção feitas por Ellen. Além disso, os liberianos sofrem com uma alta taxa de desemprego – que atinge 80% da população economicamente ativa -, falta de serviços básicos, preços dos alimentos e criminalidade desenfreada. A ineficiência do atual governo em lidar com todos esses desafios é apontada como sua principal falha. “É adequado reconhecer o trabalho de Ellen no combate à pobreza e ao analfabetismo, mas isso é muito pouco em relação ao que se tem para fazer em um país que sofreu 14 anos de guerra”, enfatiza Leila.

Ainda assim, a presidente é reconhecida pelo crescente investimento em minas de ferro e ouro, e também por ter conseguido cortar dívidas de mais de 4 bilhões de dólares. Ellen aproveitou seu prestígio internacional para convencer empresas estrangeiras a investir no país africano, como a siderúrgica ArcelorMittal e a petrolífera Chevron, que extrai petróleo da costa. “No sentido das trajetórias de vida politica, a legitimidade dela é ainda maior, internamente e, sobretudo, externamente”, destaca a professora da USP. E a boa imagem reforçada a partir da entrega do Nobel da Paz, parece lhe conferir fôlego bastante para a almejada reeleição.

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