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Langlois ficou horas escondido durante combates antes de ser sequestrado

Esther Rebollo.

Bogotá, 31 mai (EFE).- O jornalista francês Roméo Langlois, libertado na quarta-feira após passar 33 dias como refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), permaneceu escondido durante horas de combates entre militares e guerrilheiros até ser ferido e sequestrado pelo grupo.

Os fatos ocorreram quando Langlois, acompanhado de homens do Exército e da polícia, fazia uma reportagem sobre a luta das autoridades contra o narcotráfico no sul da Colômbia, ressaltou o jornalista nesta quinta-feira em entrevista coletiva antes de viajar a Paris com uma carta das Farc para o presidente francês, François Hollande.

Langlois tinha convivido vários dias com esses policiais e militares antes de partir em 28 de abril rumo a uma área rural do departamento de Caquetá.

‘Decidi colocar capacete e colete só depois de pensar muito. Eu estava vestido de civil, mas senti que a coisa poderia ficar feia. Pensei em identificar o capacete como imprensa, com um lenço branco. O Exército não me obrigou’, esclareceu Langlois sobre um dos assuntos mais polêmicos durante seu cativeiro.

O jornalista contou que o primeiro alvo da investida dos militares foi a casa de um camponês, que, segundo ele, tinha um hectare de coca. ‘Queimaram o cultivo, filmei, entrevistei o camponês e fomos para o segundo (alvo), que era supostamente um laboratório (de cocaína)’.

Mas, quando os membros da operação desceram do helicóptero, ouviram disparos. Foi o início de uma longa jornada de combates que terminaram com a morte de três militares e um policial, e com o sequestro do francês. Mesmo assim, decidiram prosseguir: ‘não sabiam se eram três ou quatro rapazes atrás de um matagal’, indicou Langlois.

‘Chegamos a uma casa, tinha uma estrada, passavam carros. Os militares os abordaram, buscaram o suposto laboratório, se comunicaram com a base, disseram que houve disparos, que havia guerrilheiros (na área)’, relatou.

Estavam havia mais de uma hora no local quando começaram a atacar mais forte, enquanto o repórter, mesmo já caído no chão, continuava gravando o combate com sua câmera.

E após suportar um intenso combate, contou Langlois, ‘o capitão Gómez disse ao sargento: ‘localize-o e, assim que o helicóptero descer, resgate-o”, referindo-se ao jornalista.

A decisão de salvar Langlois da batalha teve consequências negativas, já que, ao ser descoberto e por uma estrada descoberta, se dirigiram rumo a uma pequena colina, onde ‘a coisa se complicou muitíssimo’.

Aparentemente, estavam rodeados quando o helicóptero e um avião começaram a disparar do ar. Essa situação se estendeu por mais de duas horas, explicou Langlois, que a essas alturas já tinha pensado em fugir, sobretudo quando ouviu alguém dizer que havia ‘dezenas, centenas’ de guerrilheiros e estavam ‘por todas partes’.

‘Foi aterrorizante. A pessoa pensa na morte, na mãe, na família. Aí senti muito medo’, confessou. ‘Nesse momento vem uma rajada, estou me arrastando, sinto como uma martelada no braço, ‘estou ferido?’. Começo a mover os dedos e não sei o que fazer, com o choque a câmera tinha caído, vejo a câmera e vejo o sargento mortalmente ferido’.

Com essas palavras, Langlois descreve o momento em que tomou a decisão de sair do esconderijo, especialmente quando outro soldado lhe diz: ”tire o fuzil deste homem e defenda-se’, e eu lhe respondo ‘não, sou um civil’.

Conforme sua descrição dos fatos, o repórter tirou a camisa, o colete e o capacete, recuperou a memória, deixou a câmera e correu, seminu, mas não rumo à guerrilha, como se disse durante seu cativeiro.

‘Eu nunca corri em direção à guerrilha, se fizesse isso seria baleado. Mas eu tinha claro que, se me pegassem, me salvariam da mesma forma’, argumentou Langlois para defender sua opção.

Se escondeu atrás de um matagal e se deu conta de que tinha deixado o documento de imprensa na camisa. ‘O que faço?’, perguntou-se, sem tempo para resposta, pois já estava rodeado por vários guerrilheiros.

‘Lhes digo não sou militar, sou civil, sou jornalista. Não tenho armas, não atirem, não atirem. ‘Ele está limpo’, diz um guerrilheiro. Foi quando me levaram’, lembrou Langlois, que também lhes pediu assistência médica para seu braço ferido.

A resposta foi: ”tranquilo, pois nós respeitamos os prisioneiros”, frase que assustou o jornalista porque, nesse momento, ele se deu conta de que era um refém das Farc.

Assim começou um cativeiro de 33 dias nos quais Langlois se sentiu usado pela guerrilha porque buscou chamar a atenção internacional e, além disso, pediu um debate nacional sobre a liberdade de imprensa na Colômbia, que classificou como ‘descaramento’ e ‘provocação’.

Foi um cativeiro que Langlois chamou de ‘light’ ao compará-lo com o vivido por outros reféns que passaram anos em poder da guerrilha nas selvas colombianas.

Mas, ao tempo, foi para ele uma experiência que não lhe tirou a vontade de seguir trabalhando na Colômbia. Langlois viajou nesta quinta-feira à França para se encontrar com sua família e descansar, mas garantiu que voltará para continuar contando o conflito armado. EFE

erm/sa