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Kamal Ganzuri, um veterano do regime Mubarak à frente do novo governo egípcio

Laura Millan Lombraña.

Cairo, 7 dez (EFE).- O novo primeiro-ministro do Egito, Kamal Ganzuri, já exerceu este cargo durante o regime do ex-presidente Hosni Mubarak e agora, aos 78 anos, se transformou no último recurso da Junta Militar para formar um governo de coalizão.

Apesar da avançada idade, Ganzuri aparenta ser muito mais jovem do que é e costuma aparecer em público com o cabelo tingido de preto e penteado para trás, um dos traços mais característicos de Mubarak e de vários membros do antigo regime.

Treze anos após abandonar seu cargo à frente do Executivo egípcio, Ganzuri assume agora a responsabilidade de formar um ‘governo de salvação nacional’ que aplaque os manifestantes que exigiam a queda da Junta Militar, depois que o cargo foi rejeitado por vários candidatos presidenciais.

Nesta ocasião, Ganzuri ostentará todas as responsabilidades do presidente da República, exceto as judiciais e as relacionadas com as Forças Armadas, convertendo-se assim no primeiro-ministro que concentra mais responsabilidade em décadas.

Sua nomeação foi divulgada no dia 25 de novembro e despertou a indignação dos ativistas egípcios por seus vínculos com o regime de Mubarak, no qual exerceu os cargos de ministro e chefe de governo.

Mesmo assim, após a revolução que derrubou Mubarak em 11 de fevereiro, Ganzuri se mostrou publicamente e em várias ocasiões a favor dos jovens, que, após sua designação, inundaram as redes sociais de comentários jocosos sobre sua idade e sua capacidade de governar.

Em entrevista concedida no dia 14 de fevereiro ao jornal ‘Al-Masri Al-Youm’, declarou que ‘o regime demorou muito para abordar a crise, e se Mubarak tivesse dissolvido o governo, designado um vice-presidente e anunciado uma emenda constitucional já no dia 25 de janeiro, a situação não teria chegado mais longe’.

Desde que jurou seu cargo, Ganzuri multiplicou os discursos conciliadores na busca de um consenso nacional que até agora se mostrou mais bem esquivo, a julgar pelas duas semanas que demorou para formar seu gabinete.

Ganzuri centrou seus discursos na importância de formar um governo coalizão nacional que restaure a segurança no país. ‘O povo deve sentir que há algo novo; o turismo e a produção devem ser reativados’.

Apesar de anunciar sua intenção de que o novo Executivo contasse com a presença de jovens e mulheres, por fim haverá apenas três ministras e nenhum representante dos jovens, mas 12 ministros do regime Mubarak.

Esta não é a primeira vez que Ganzuri lidera o governo. Ele exerceu o cargo entre 1996 e 1999 com o objetivo de concluir o programa de reforma econômica que contemplava a privatização do setor público do país.

Após este período, tanto ele como membros de sua equipe foram acusados de corrupção por ter vendido 120 mil hectares de terreno público ao príncipe saudita Alwaleed bin Talal.

Como primeiro-ministro, Ganzuri impulsionou o faraônico projeto hídrico do Canal de Toshka, que pretendia bombear água do lago Nasser, desviando parte do Nilo, para alimentar um canal de 30 quilômetros de comprimento perfurado no deserto sudoeste que permitiria irrigar milhares de hectares de terreno do deserto.

O Canal de Toshka acabou sendo um fracasso, já que o governo egípcio gastou mais de 7 bilhões de libras egípcias (US$ 1,1 bilhão) no projeto, uma quantia que ainda não foi recuperada, já que poucos investidores mostraram interesse pela iniciativa.

Também foi ministro de Planejamento e Cooperação Internacional e ficou conhecido pelo papel nas negociações para aplicar o único programa de reforma econômica jamais completado entre Egito e o Banco Mundial desde 1961, depois do fracasso de outros 13 projetos.

Ganzuri, nascido na província de Manufiya, no Delta do Nilo, é graduado em Agricultura em 1952, doutorado em Economia nos Estados Unidos e seus partidários o apelidaram de ‘ministro dos pobres’ por sua luta contra a pobreza.

Agora, este veterano político enfrenta o desafio de liderar um gabinete rejeitado pelas massas da praça Tahrir, em um momento-chave da transição egípcia, marcada pelas primeiras eleições parlamentares após Mubarak. EFE