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Joshua Wong: “Não seremos silenciados pela ameaça” da China

Em entrevista a VEJA antes de sua prisão, ativista de Hong Kong diz que objetivo dos protestos é conquistar o direito a eleições livres

Joshua Wong, ativista político de 22 anos, é um dos mais conhecidos representantes dos movimentos pró-democracia em Hong Kong, que perduram desde o início de junho. Wong e sua parceira de militância, Agnes Chow Ting, também de 22 anos, foram detidos pela polícia da ilha na manhã desta sexta-feira, 30. Os dois foram liberados ainda no mesmo dia. As prisões ocorreram na véspera de uma manifestação proibida pelas autoridades locais.
 
Esta não foi a primeira vez em que Wong foi detido por protestar contra o governo central da China, atualmente centralizado na figura do presidente Xi Jinping. Wong foi preso por dois meses devido à sua participação no Umbrella Movement, uma série de protestos semelhantes aos deste ano, em 2014. Wong tinha apenas 17 anos na época. A pena só foi cumprida em 17 de junho de 2019, oito dias após a atual onda de manifestações ter estourado, quando cerca de um milhão de pessoas se mobilizaram pelas ruas.
 
VEJA entrevistou Wong antes de sua prisão.

Por que a repressão policial tem se agravado em Hong Kong? O governo da atual chefe executiva de Hong Kong, Carrie Lam, não é capaz de perceber a sua responsabilidade nesta crise, que é política. Assim, a repressão das tropas de choque de Hong Kong acaba tornando os protestos mais violentos. Mas os manifestantes não cessarão de lutar enquanto não tiverem os seus direitos fundamentais garantidos.

O que são esses “direitos fundamentais”? Basicamente, nós queremos eleições livres, como é definido na declaração que concretizou a transferência da soberania sobre Hong Kong dos britânicos à República Popular da China, em 1997. Essa é a nossa principal demanda. Embora eleições livres devessem ser um direito inalienável, atualmente, o chefe executivo e grande parte dos representantes legislativos não são eleitos democraticamente. Eu acredito que, de fato, a principal demanda dos manifestantes no geral é mais o estabelecimento das eleições livres do que a renúncia de Carrie Lam. E continuaremos a lutar por aquilo.  

Quais são os próximos planos para os protestos? Nós estamos planejando uma greve estudantil para o dia 2 de setembro, quando o ano escolar começa em Hong Kong. A ideia é envolver os alunos dos ensinos médio e superior. Nós também pensamos em uma greve geral, mas ainda não a marcamos em uma data específica. Há um ponto importante nessa mobilização estudantil. Pois, essa greve pode servir de exemplo como um protesto pacífico. Se esse tipo de manifestação for efetiva, não haveria mais conflitos entre policiais e manifestantes todo o final de semana.

O que te chama a atenção ao se deparar com o aumento da violência, como as cenas de tumultos que culminaram os últimos protestos? Eu não chamaria de tumultos, mas sim protestos. Veja por exemplo o que ocorreu no dia 13 de agosto, quando estávamos nos mobilizando no Aeroporto Internacional de Hong Kong. Antes, eu preciso lembrar que eu não estava mais na mobilização quando os conflitos com a polícia começaram — naquele dia, eu saí do aeroporto por volta das 19h. Mas, esse incidente deixou claro que o governo de Hong Kong se apoia cegamente na polícia, e não faz nada além disso. 

Como a ameaça de intervenção militar do governo central chinês, que se esboça há quase três semanas, tem afetado o espírito dos manifestantes? Não seremos silenciados por essa ameaça direta e nossos protestos continuarão enquanto não tivermos nossos direitos garantidos. É difícil prever se ou quando a China intervirá militarmente em Hong Kong. O Dia Nacional da República Popular da China, que acontece em 1º de outubro, é uma data crítica e simbólica para o regime comunista. Então, todos em todo o mundo estarão muito atentos à situação, caso os protestos continuem até aquele dia e a China ainda não tenha intervindo em Hong Kong. Mas, eu ressalto que é muito difícil prever como Xi agirá de agora em diante.

“O importante é que este conflito entre Hong Kong e a China seja visto pelas pessoas ao redor do mundo como a luta entre Davi e Golias”

Por que a China não usou suas Forças Armadas como ameaça aos manifestantes de Hong Kong antes? A China só está reagindo à incapacidade do governo de Hong Kong em lidar com a crise política. O governo de Xi Jinping pode ter acreditado antes que Carrie Lam conseguiria acalmar a situação. As autoridades chinesas precisaram de dez semanas para mudar de ideia e mandar suas tropas para a cidade de Shenzhen, que fica na fronteira entre a República Popular da China e a Região Administrativa Especial de Hong Kong. Além de intimidar os manifestantes, Pequim também pretende afetar os mercados internacionais. Afinal, o presidente Xi sabe que outros líderes mundiais estão prestando atenção em Hong Kong.  

O presidente americano Donald Trump sugeriu que Xi Jinping se encontrasse pessoalmente com vocês. Qual é a sua opinião sobre isso? O governo de Hong Kong, sob o sistema atual, no qual o chefe executivo e grande parte dos representantes legislativos não são eleitos democraticamente, é apenas um fantoche para a China. Então, é o presidente Xi e seus aliados que realmente tomam as decisões. Nós definitivamente receberíamos Trump em Hong Kong. Conheço muitos manifestantes que o cumprimentariam e que gostariam de lhe expressar suas demandas.

Você esteve preso por cerca de dois meses quando os protestos deste ano eclodiram em junho. Por que você estava preso? Eu fui preso por causa do Movimento Umbrella. Desde 2014, na verdade, tenho sido alvo de autoridades chinesas em uma perseguição política. Mas, me prender de novo, só me deixará mais forte e determinado a continuar protestando em nome do povo de Hong Kong.

Quem você enxerga como as principais lideranças das manifestações desde junho? Os protestos em Hong Kong não têm nenhum líder.

Você ficou reconhecido mundialmente em 2014, durante o Umbrella Movement. Como você se tornou tão popular naquela época, com apenas 17 anos? Foi o Umbrella Movement que esteve nos holofotes de todo o mundo em 2014, não eu. Naquele ano, e assim como ainda é hoje, o importante é que esse conflito entre Hong Kong e a China seja visto pelas pessoas ao redor do mundo como a luta entre Davi e Golias. Os protestos não devem se restringir a pessoas específicas nas quais a mídia presta atenção, seja eu mesmo ou não. É por isso que as manifestações dos últimos dois meses e meio não têm lideranças.

Como você foi encorajado a se tornar um ativista político? Eu nasci e vivo em Hong Kong. E eu amo a minha região. Então, essa é a razão pela qual eu me juntei à luta. Nunca houve uma pessoa específica que tenha me encorajado a me tornar um ativista. Minha família, até onde eu sei, não tem nenhum conjunto específico de valores políticos, por isso não me incentivou nem me desincentivou de maneira decisiva. É uma questão cultural: eu tenho um sentimento de “lealdade” a Hong Kong, que independe da figura do modelo inspirador.