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Jornal ultraortodoxo de Israel apaga mulheres de foto de líderes em Paris

Publicação ainda esqueceu luva de premiê dinamarquesa na imagem alterada

Por Da Redação 14 jan 2015, 16h50

A foto de líderes mundiais caminhando lado a lado na histórica marcha contra o terrorismo realizada no último domingo em Paris foi publicada por vários jornais no mundo todo. Em um jornal ultraortodoxo israelense, no entanto, algo está faltando na imagem. Mais precisamente, a chanceler alemã, Angela Merkel, a premiê dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, a chefe de relações exteriores e segurança da União Europeia, Frederica Mogherini, e Anne Hidalgo, primeira prefeita de Paris. A publicação simplesmente apagou as mulheres da foto.

Ao alterar a imagem, o jornal HaMevaser deixou alguns “rastros”, como uma mão com luva, que pertence à premiê da Dinamarca. Publicações ultraortodoxas geralmente evitam fotos com mulheres por questões ligadas ao recato, apontou o diário The New York Times – o público alvo desses jornais é conhecido por riscar rostos femininos de propagandas em meios de transporte. Mas a restrição inclui impedir mulheres de concorrerem a cargos públicos. A omissão na foto histórica foi apontada inicialmente pelo site de notícias israelenses Walla.com.

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Não foi a primeira vez que um jornal ultraortodoxo foi criticado por alterar fotos com mulheres. Em 2011, o Di Tzeitung, baseado em Nova York, pediu desculpas por remover a então secretária de Estado Hillary Clinton de uma fotografia mostrando o presidente Barack Obama e assessores aguardando notícias sobre a missão para matar Osama bin Laden. A diretora de contraterrorismo Audrey Tomason também foi apagada da imagem.

Na época, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, a publicação citou sua linha editorial, segundo a qual as mulheres devem ser admiradas pelo que são e pelo que fazem, e não pela aparência. Acrescentou que as leis judaicas de recato são uma expressão de respeito pelas mulheres, não o contrário.

Ao NYT, a cineasta ultraortodoxa Rama Burshtein disse que a alteração na foto dos líderes na França faria todo o sentido para os leitores do jornal. “É muito, muito, muito, muito, muito difícil para uma pessoa não religiosa entender a pureza do olhar. Para nós, homens não olham para mulheres, ponto. Se você não sabe disso, então isso soa ridículo, ou uma mudança na história dos fatos. Mas não estamos aqui para receber os eventos como eles são, estamos aqui para manter o olhar”.

Em um artigo publicado no jornal Haaretz, Allison Kaplan Sommer considerou “constrangedor que, em um momento em que o mundo ocidental se une contra manifestações de extremismo religioso, nossos extremistas consigam atrair os holofotes”. Para ela, a foto alterada “nega o fato de que, além da comunidade judaica ultraortodoxa, as mulheres fazem parte do mundo e moldam acontecimentos”.

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