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Itália diz estar sozinha em luta contra imigração clandestina

Em cinco dias, 5.000 tunisianos chegaram ilegalmente à ilha de Lampedusa

“A Europa está enfrentando uma situação igual a que enfrentou em 1989, estamos assistindo à queda de um novo Muro de Berlim. O continente europeu precisa ter uma estratégia conjunta de governos”

Roberto Maroni, ministro do Interior da Itália

A chegada em massa de imigrantes tunisianos à ilha italiana de Lampedusa, ao sul da Sicília, deixou o governo italiano isolado para enfrentar o fenômeno, em meio à recusa dos países menos afetados da União Europeia (UE) em apoiá-lo. Por meio de seu porta-voz, o ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, o país pediu nesta segunda-feira que a Europa “passe das palavras aos atos.”

Nos últimos cinco dias, cerca de 5.000 imigrantes clandestinos procedentes da Tunísia desembarcaram na pequena ilha italiana, muitos dos quais fugiram do país na região do Magreb após a revolta popular que derrubou o governo de Zine El Abidine Ben Ali, em 14 de janeiro. Maroni comparou a situação com as revoluções que derrubaram os regimes comunistas no Leste Europeu entre 1989 e 1991, e levaram milhares de cidadãos do extinto bloco comunista à Europa Ocidental. Segundo ele, o continente europeu pode estar enfrentando uma situação “igual a que enfrentou em 1989, porque estamos assistindo agora à queda de um novo Muro de Berlim”. E completou: “A Europa precisa ter uma estratégia conjunta de chefes de estado e de governos.”

A Organização Internacional para as Migrações, que conta com 132 estados membros, anunciou nesta segunda-feira que a chegada de imigrantes começava a diminuir, mas a polêmica entre Roma e a Comissão Europeia já estava criada. O ministro italiano havia acusado Bruxelas de “ter deixado a Itália sozinha, como sempre”. A comissária de Assuntos Interiores da UE, Cecília Malmstrom, rejeitou as críticas, assegurando ter oferecido ajuda em vão. “Estou muito surpresa de a Itália ter denunciado uma resposta lenta e burocrática da comissão a seu pedido de ajuda”, disse Cecilia. “Estive em contato com as autoridades italianas desde o sábado e quando lhes ofereci ajuda me disseram: ‘não, obrigado, não pedimos assistência da comissão nestes momentos’.”

TunísiaMaroni propôs nesta segunda-feira enviar contingentes e barcos italianos para patrulhar a costa da Tunísia. O governo do país respondeu dizendo que está pronto para cooperar com outros países a fim de bloquear o fluxo de milhares de imigrantes clandestinos que estão partindo para a Europa, mas afirmou que não irá tolerar a interferência estrangeira nos seus assuntos internos.

Falta de recursos Paralelamente às trocas de acusações, o fato de as autoridades italianas não terem à disposição ajuda imediata de seus parceiros europeus é uma mostra clara da falta de recursos para lutar contra a imigração ilegal dentro da UE. A Comissão Europeia, lado executivo do bloco, vem pedindo, até agora sem êxito, mais recursos para adquirir barcos, helicópteros e aviões para realizar as missões da Frontex, agência encarregada da vigilância das fronteiras externas.

Com um orçamento anual de cerca de 90 milhões de euros (em torno de 120 milhões de dólares), a Frontex apenas consegue organizar operações piloto e preparar estudos, lamentam fontes diplomáticas em Bruxelas. Com falta de efetivos permanentes e de recursos suficientes, a agência enfrenta dificuldades para cumprir suas metas de vigiar as fronteiras externas da União Europeia, apoiar operações de retorno dos ilegais e mobilizar forças de reação.

Resistência – Os países europeus também rejeitaram que a participação nas operações da agência, atualmente voluntária, passasse a ser obrigatória, mesmo com os gastos ficando a cargo do orçamento da União Européia. Paralelamente, a Grã-Bretanha e os países escandinavos opõem-se a toda política de solidariedade com os outros membros, especialmente mediterrâneos, confrontados com a chegada em massa de imigrantes e pedidos de asilo.

Fontes diplomáticas disseram que “em vez de criticar a comissão, mais valeria à Itália denunciar seus parceiros que bloqueiam as propostas para reforçar a cooperação”. Os ministros europeus do Interior preveem abordar a luta contra a imigração ilegal em sua próxima reunião, de 24 de fevereiro em Bruxelas.

(Com agências France-Presse e Estado)