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Islamita entrincheirado em Toulouse morreu resistindo ao ataque da polícia

Por Por Rémy Bellon e Alexandre Peyrille 22 mar 2012, 15h24

O islamita Mohamed Merah, que reivindicou a autoria de sete assassinatos de cidadãos franceses e judeus, foi morto nesta quinta-feira ao tentar resistir ao cerco da polícia em meio a um intenso tiroteio com as forças de elite da polícia francesa no ataque contra o prédio em que permaneceu entrincheirado 32 horas.

Merah, francês de origem argelina, de 23 anos, morreu com um tiro na cabeça ao tentar abrir caminho com uma pistola Colt .45 até uma janela pela qual tentou pular, informou o procurador de Paris, François Molins.

“Mas, quando caiu, estava morto”, acrescentou uma fonte policial, segundo a qual o “jihadista” usava um colete à prova de balas.

Um policial ficou ferido no tiroteio, que durou cinco minutos. Outros dois policiais ficaram feridos em trocas de tiros anteriores.

No ataque final, trezentos cartuchos foram disparados dos dois lados, segundo fontes policiais.

A operação teve início às 11h30 locais, quando policiais, precedidos por uma equipe de vídeo, entraram no apartamento, avançando “passo a passo” para evitar eventuais explosivos que pudessem ter sido colocados por Merah.

O jovem abriu fogo a partir do banheiro e tentou fugir saltando por uma janela, havia informado mais cedo o ministro francês do Interior, Claude Guéant.

“Ele saltou por uma janela com uma arma na mão e continuou atirando”, disse.

Um membro da Raid, a unidade de elite da polícia francesa, afirmou que nunca tinha visto uma ação tão violenta, destacou o ministro.

Os homens da Raid haviam recebido ordens de fazer todo o possível para prender Merah vivo e disparar apenas em caso de legítima defesa.

Guéant tinha dito um pouco antes do desfecho que Merah havia manifestado o desejo de morrer “com armas na mão”, mas estranhara a falta de reação de Merah às fortes explosões efetuadas pela polícia durante a noite nas proximidades do apartamento, como parte de uma estratégia de desgaste psicológico.

Além das explosões, a polícia cortou a luz do bairro durante a noite. Uma tentativa de mediação com parentes de Merah não teve êxito durante a noite de quarta-feira.

Merah reivindicou a autoria dos assassinatos de três militares e de quatro membros da comunidade judaica, incluindo três crianças, em ataques executados em Toulouse e na cidade vizinha de Montauban entre 11 e 19 de março.

Os crimes espalharam pavor e sacudiram o panorama político da França, que em 22 de abril terá o primeiro turno da eleição presidencial, na qual o presidente Nicolas Sarkozy espera obter um segundo mandato.

O islamita não expressava pesar algum, exceto por não ter provocado mais vítimas e celebrava o fato de ter “colocado a França de joelhos”, disse o ministro. Merah tinha planos de matar dois policiais de Toulouse e um militar na quarta-feira, segundo o governo.

François Molins revelou que Merah havia filmado todos os atentados que cometeu e que a polícia está analisando as imagens.

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“Nós o vimos durante sua entrevista com o vendedor de motos (sua primeira vítima, 11 de março);ele pergunta se é militar e o mata com dois tiros, enquanto dizia: ‘Você mata meus irmãos, eu mato você'”, contou.

“Também o vimos matar (em 15 de março) os militares de Montauban, durante uma cena muito violenta. Ele foge em sua moto gritando ‘Alá Akbar'”, acrescentou. Um outro vídeo também mostra a matança na escola judaica de Toulouse.

Molins contou que Merah foi condenado 15 vezes por diversos crimes quando era menor de idade e já tinha um “perfil violento e problemas de comportamento”.

Ele também confirmou duas viagens ao Afeganistão e ao Paquistão de Merah, que apresentava “um perfil de autorradicalização salafista atípico”.

“Foi ao Afeganistão sem passar pelos canais conhecidos, por seus próprios meios”, disse.

O ministro Guéant afirmou na quarta-feira que a investigação também apontaria as possíveis conexões Merah com outras pessoas.

“É alguém vinculado a pessoas que afirmam ser próximas do salafismo e da jihad” (guerra santa), disse o ministro.

Também revelou que Merah havia participado na “jihad” na região de fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

“Diz ser um ‘mujahedine’ (combatente de Deus), pertencer à Al-Qaeda e que desejava vingar as crianças palestinas e castigar as Forças Armadas da França por suas intervenções no exterior”, completou.

A morte de Mohamed Merah frustra as esperanças das autoridades francesas de capturá-lo vivo e levá-lo à justiça, mas suas conexões continuarão a ser investigadas, em um momento de grande polêmica na França em torno da vigilância das redes islamitas por parte dos serviços de inteligência, já que estes sabiam que Merah havia passado por Afeganistão e Paquistão.

Um grupo vinculado à rede Al-Qaeda reivindicou a matança na cidade francesa de Toulouse, em um comunicado divulgado nesta quinta-feira na internet, no qual convocou a França a revisar sua política hostil em relação aos muçulmanos.

O texto, assinado pela organização “Jund al-Khilafah” (os soldados do Califado), que no passado reivindicou ataques no Afeganistão e no Cazaquistão, publicou a mensagem no site Shamikh, que divulga geralmente comunicados da Al-Qaeda.

Segundo o comunicado, a matança de Toulouse (França) foi praticada por “Yusef, o francês”, classificado como “um dos cavaleiros do Islã”.

O grupo exigiu que o governo francês “revise sua política em relação aos muçulmanos no mundo” e “abandone suas tendências hostis ao Islã (…)”, ao considerar que esta política só vai gerar “desgraça e destruição”.

Pouco depois da morte de Merah, o presidente Nicolas Sarkozy anunciou medidas para reprimir a “apologia do terrorismo” ou o “estímulo do ódio e da violência” na internet, em viagens ao exterior ou nas prisões.

“Estes delitos serão punidos penalmente. A partir de agora, qualquer pessoa que consultar páginas na internet que convocam a violência será castiga penalmente”, disse o presidente em discurso na televisão.

“Com o primeiro-ministro (François Fillon), pedi ao ministro da Justiça que realize uma reflexão profunda sobre a propagação destas ideologias no âmbito carcerário”, acrescentou.

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