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Irã tem urânio para duas armas atômicas, alerta AIEA

No último relatório antes que o Conselho de Segurança da ONU vote as sanções contra o Irã, inspetores nucleares afirmaram na segunda-feira que o país produziu um estoque de combustível nuclear que os especialistas dizem ser suficiente, com algum enriquecimento adicional, para construir duas armas atômicas. O relatório, da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas, parece adequado para reforçar os argumentos do governo de Barack Obama sobre a quarta rodada de sanções econômicas contra o Irã e diminuir ainda mais o interesse sobre o acordo recentemente acertado por Turquia e Brasil, pelo qual o Irã enviaria parte de seu estoque nuclear para ser enriquecido fora do país.

Quando se tentou um acordo com o Irã, oito meses atrás, para que enviasse material nuclear para fora do país, a Casa Branca afirmou que a decisão privaria o país de combustível nuclear para fabricar uma única bomba. Mas o Irã adiou a decisão durante meses, e as cifras que aparecem no relatório dos inspetores indicam que mesmo que o país envie parte do combustível nuclear para outro país, seguiria mantendo a capacidade de fabricar uma arma atômica. O relatório, redigido de forma rigorosa, diz que o Irã expandiu o trabalho em uma de suas instalações nucleares. Também descreve, passo a passo, como foi negado o acesso aos inspetores a uma série de instalações e como o Irã tem se recusado a responder perguntas dos inspetores sobre uma ampla gama de atividades, incluindo o que a agência chamou de “possível existência” de “atividades relacionadas com o desenvolvimento de carga nuclear para um míssil.”

O porta-voz da Casa Branca Michael Hammer afirmou numa declaração na segunda-feira que o relatório “mostra claramente que o Irã continua se negando a cumprir suas obrigações internacionais e a cooperar com a AIEA”. Ele afirmou que o relatório “sublinha que o Irã se recusou a seguir os passos definidos” pelo Conselho de Segurança ou pela direção da AIEA, “necessários para dar início a negociações construtivas sobre o futuro de seu programa nuclear”.

O Irã insiste que seu programa nuclear tem fins pacíficos e afirmou que não trabalha na construção de armas atômicas. O país argumenta que as evidências sobre a construção de ogivas são forjadas. O progresso nuclear do Irã deveria ser o principal tema do encontro agendado para terça-feira na Casa Branca entre Obama e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O encontro foi cancelado depois do ataque de Israel a uma flotilha de ajuda humanitária a caminho da Faixa de Gaza.

O relatório da AIEA deixou em aberto a questão se Israel poderia aumentar a pressão sobre Washington e seus aliados para a resolução pela via diplomática da ameaça nuclear iraniana. Autoridades israelenses sugerem, mas nunca de forma explícita, que poderiam partir para uma ação militar caso a diplomacia falhe ao impedir o desenvolvimento de armas nucleares no Irã.

Autoridades do governo argumentam que a combinação das sanções que esperam aprovar no Conselho de Segurança, com outras sanções impostas pelos Estados Unidos e aliados europeus possa mudar as ambições iranianas. Mas muita gente, dentro e fora do governo, é cética quanto aos resultados.

Já se passaram quatro anos desde a primeira vez que o Conselho de Segurança exigiu do Irã que parasse com o enriquecimento de urânio, citando seus esforços para esconder as atividades e enganar os inspetores. O país claramente desafiou as resoluções, afirmando aos inspetores que as exigências, incluindo a visita a uma série de locais que poderiam ser usados para a produção de energia ou armas, não tinham base legal.

Os inspetores afirmaram na segunda-feira que o Irã já produziu mais de 2,5 toneladas de urânio levemente enriquecido. Todo esse material teria de ser enriquecido antes que pudesse ser transformado em combustível para uma bomba. Os inspetores também relataram que o Irã ampliou o trabalho na planta de Natanz, no deserto, onde o enriquecimento de urânio chega a 20%, o nível necessário para o Reator de Pesquisas de Teerã, que produz isótopos para uso médico em pacientes com câncer. Mas não está claro por que o Irã faz investimentos nessa planta se pretende obter combustível para o reator no exterior, tal como afirma no novo acordo com Brasil e Turquia.

Até recentemente, todo o urânio que o Irã tinha era enriquecido apenas a 4%, o nível necessário para gerar energia em usinas nucleares. Ampliar o enriquecimento para 20% não garante que o Irã construirá uma arma atômica, mas mostra que está perto do objetivo. Os inspetores afirmaram no relatório que o Irã instalou um segundo grupo de centrífugas – máquinas que aumentam muito o enriquecimento, ou purificação, do urânio para uso em bombas ou reatores – para melhorar a produção de combustível com teor de 20%.

Os inspetores observaram que a agência finalmente conseguiu criar um bom sistema de monitoramento para o trabalho de enriquecimento a 20%. “Uma nova abordagem de salvaguardas foi implementada”, disse o relatório. Mas a equipe afirmou que a melhora dos equipamentos e o enriquecimento contínuo “contraria as resoluções da IAEA e do Conselho de Segurança”. Ambos pediram ao Irã que pare o enriquecimento de urânio até que se conheçam as intenções do país. As sanções, se aprovadas, pretendem compelir o Irã a cumprir as exigências do Conselho de Segurança.

O governo Obama, junto com líderes da Grã-Bretanha e França, denunciou o Irã por construir secretamente uma segunda fábrica de enriquecimento próxima da cidade sagrada de Qom, sem alertar os inspetores até que os três países anunciassem a descoberta da área. Curiosamente, o relatório sugere que agora, com a existência revelada, o Irã perdeu o interesse na fábrica. O país não instalou centrífugas na planta industrial, localizada dentro de uma montanha, ao lado de uma base militar. O Irã tentou construir plantas nucleares em áreas subterrâneas para que sejam menos vulneráveis a ataques aéreos. No novo relatório, os inspetores afirmam que os iranianos revelaram um novo laboratório de análise, programado para funcionar num labirinto de túneis em Isfahan “que pode ter as mesmas funções dos laboratórios não protegidos existentes”. Segundo um documento iraniano, afirma o relatório, o laboratório subterrâneo é necessário por “razões de segurança”.