Irã bombardeia petroleiros em Ormuz; 3ª dia seguido de ataques dos EUA deixa mortos
Mísseis iranianos matam membro de tripulação de navio dos Emirados Árabes, enquanto disparos americanos já ceifaram 25 vidas desde a retomada das hostilidades
Os Estados Unidos lançaram na madrugada desta terça-feira, 14, uma série de ataques contra o Irã, em uma nova escalada após a recente retomada das hostilidades. Quatro novas explosões foram ouvidas perto de Bandar Abbas, cidade portuária do sul iraniano situada no Estreito de Ormuz, segundo a agência de notícias estatal Irna; em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica disparou contra ao menos dois petroleiros, de acordo com a agência de monitoramento marítimo UKMTO — que os Emirados Árabes Unidos afirmaram ser seus.
A UKMTO informou os ataques iranianos ocorreram na rota sul, que margeia a costa de Omã — o caminho que os Estados Unidos recomendaram, em vez da rota norte que Teerã quer que seja usada. “Recomenda-se que as embarcações naveguem com cautela”, disse o órgão em comunicado.
Nesta madrugada, os Emirados Árabes informaram que mísseis de cruzeiro iranianos atingiram dois petroleiros do país — o Mombasa e o Al Bahiyah —, matando um tripulante e ferindo outros oito. O governo emirati condenou o “ataque flagrante”, que qualificou como uma “violação grave e uma clara infração ao direito internacional, e afirmou reservar “o pleno direito de responder à escalada e adotar todas as medidas necessárias para proteger seu território, seus cidadãos e moradores”.
Do total de 46 tripulantes nas duas embarcações, 30 eram indianos, e a vítima fatal tinha cidadania indiana. Em reposta, o Ministério das Relações Exteriores da Índia convocou o vice-chefe da embaixada do Irã em Nova Délhi para registrar um “protesto veemente” contra os ataques aos navios.
Além disso, a Guarda Revolucionária Islâmica reivindicou uma operação no Bahrein, incluindo um ataque contra um edifício residencial das forças americanas na base de Juffair.
Terceira noite de ataques
Nesta madrugada, o comando militar americano para o Oriente Médio (Centcom) anunciou em um comunicado o início de “uma terceira noite consecutiva de ataques contra o Irã”, pouco depois da meia-noite, hora de Teerã.
“Vamos atingi-los com força esta noite, e vamos atingi-los com força amanhã”, havia declarado antes o presidente Donald Trump ao radialista Hugh Hewitt.
A mídia estatal iraniana informou sobre mortos nos últimos ataques americanos, que, segundo disseram, tiveram como alvo amplas zonas do sul e do oeste do país. Ao menos 25 pessoas perderan a vida no Irã desde que as hostilidades foram retomadas na quarta-feira passada.
Em meio ao fogo cruzado, porém, o ocupante do Salão Oval afirmou na segunda-feira à noite à imprensa na Casa Branca que um acordo com o Irã ainda era “possível”.
Antes disso, havia anunciado em sua plataforma, a Truth Social, que os Estados Unidos tomariam o controle de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo e gás natural, e que o bloqueio dos portos iranianos seria restabelecido. Essa medida de pressão entrará em vigor nesta terça-feira às 17h no horário de Brasília, segundo o Exército americano.
Assim como Teerã, o presidente dos Estados Unidos disse que queria cobrar “uma remuneração equivalente a 20% do valor das cargas” em Ormuz, apesar de a via estar sujeita ao direito internacional, o que supostamente deve garantir a liberdade de navegação.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ironizou sobre a ameaça de pedágio de Trump. “O Irã sempre foi o guardião do estreito e continuará sendo para sempre”, escreveu ele no X (ex-Twitter). “O presidente dos Estados Unidos está absolutamente certo. Quem garantir a passagem segura deve receber uma compensação”, disse, acrescentando: “Os 20% são, é claro, já são demais. Seremos justos”.
Diante dessas trocas de ataques e ameaças, os preços do petróleo dispararam na segunda-feira: o barril de Brent, referência internacional, subiu 9,59% e foi cotado a US$ 83,30.
Cessar-fogo quebrado
Após quase 40 dias de bombardeios no conflito desencadeado pelos ataques israelenses e americanos de 28 de fevereiro, um cessar-fogo entrou em vigor no início de abril e foi ratificado em 17 de junho por meio de um protocolo de acordo.
Mas, desde as novas agressões dos últimos dias contra navios que tentavam atravessar Ormuz, os confrontos foram retomados com uma intensidade sem precedentes, o que levou Trump a afirmar que o cessar-fogo “acabou”.
Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos enviou ainda uma notificação oficial ao Congresso indicando que o conflito com o Irã havia sido retomado, segundo a agência de notícias AFP.
Já o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, afirmou na segunda-feira que o memorando de entendimento de junho, que serviu de base para as negociações e suspendeu o bloqueio americano em Ormuz, estava “em crise”. Baqaei avisou que o Irã ignoraria suas obrigações no âmbito do pacto se os Estados Unidos fizessem o mesmo, mas acrescentou que Teerã continuava mantendo conversas com mediadores do Catar, do Paquistão e de Omã para evitar uma escalada maior.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou na segunda-feira sua “profunda preocupação” com a escalada regional.







