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Incêndio de Notre-Dame provavelmente foi acidental, dizem procuradores

Investigação será “longa” e “complexa”; vigário de Paris descreveu "sensação de um bombardeio" ao ver catedral em chamas

O procurador de Paris, Remy Heitz, afirmou nesta terça-feira, 16, acreditar que o incêndio na catedral de Notre-Dame foi um acidente. Uma investigação sobre as causas do fogo foi aberta na segunda.

“Nós estamos priorizando a teoria de um acidente”, afirmou Heitz em uma coletiva de imprensa. Segundo o procurador, cinquenta pessoas trabalham atualmente na investigação que será “longa” e “complexa”.

A Procuradoria coletará os depoimentos dos funcionários das cinco empresas que foram contratadas para os serviços de renovação do teto da catedral. A igreja passava por renovações quando foi atingida pelo incêndio na noite de segunda-feira 15.

O fogo se espalhou rapidamente pelas escoras de madeira do teto da catedral, onde operários realizavam as reformas amplas em corrimões caídos e gárgulas aos pedaços, além da estrutura de madeira do pináculo.

Foram necessários mais de 400 bombeiros para conter o fogo, que consumiu o teto e provocou o desmoronamento do pináculo da catedral de oito séculos. Eles passaram a noite trabalhando para controlar o incêndio, que só foi totalmente extinto cerca de doze horas após seu início.

Um bombeiro se machucou, mas não há relatos de mais nenhum ferido no incêndio, que começou depois do horário de fechamento do edifício ao público.

Um vídeo divulgado pelo próprio Corpo de Bombeiros de Paris mostra algumas imagens da complexa operação organizada pelos socorristas para apagar as chamas durante a noite.

Do lado de fora, os campanários imponentes e as paredes externas, com seus vastos contrafortes, permaneciam firmes, mas o interior e a estrutura superior foram devastados pelo fogo.

Os investigadores não conseguirão entrar na nave da catedral até que especialistas estejam convencidos de que suas paredes de pedra suportaram o calor e que o edifício está estruturalmente intacto. Imagens de televisão mostraram bombeiros no topo das torres.

Centenas de observadores chocados ocuparam as margens do rio Sena noite adentro, vendo o fogo arder, orando e entoando canções litúrgicas em harmonia.

“É um símbolo do nosso país que corre o risco de ser destruído”, disse o ministro da Cultura, Franck Riester.

O presidente Emmanuel Macron prometeu que a França reconstruirá Notre-Dame, considerada um dos exemplos mais refinados de arquitetura gótica francesa e europeia e visitada por mais de 13 milhões de pessoas todos os anos.

‘Sensação de bombardeio’

Quando Philippe Marsset, vigário geral da arquidiocese de Paris, entrou em Notre-Dame após o incêndio teve a “sensação de um bombardeio”. Ele observou os vitrais quebrados e um buraco acima do coro, provocado pela queda do pináculo (a flecha), e símbolo da catedral.

“Há 850 anos esta igreja foi construída, resistiu às guerras, aos bombardeios, a tudo”, afirmou o religioso, ordenado padre nesta catedral há 31 anos.

Ao entrar no local durante a noite, com o incêndio apenas sob controle e focos de chamas ainda ardendo, “tive a sensação de estar diante de um bombardeio”, repete.

“Tudo estava escuro e ao fundo estava a grande cruz amarela iluminada pelas chamas. Era impressionante!”, descreve o vigário. “À direita da cruz há uma estátua de Maria. Está de pé, está a cruz e Nossa Senhora, ali, no coração de Notre-Dame”, conta.

E no meio de tudo isto, um “robô lançava água”. E havia “faíscas provocadas pelo chumbo derretido caindo do teto”.

“Durante toda a noite eu vi homens passando com lágrimas nos olhos. Pensei nesta imagem: é um caos, mas não pode nos levar ao nocaute”.

Mas a primeira palavra que vem a sua cabeça quando recorda do momento do incêndio é “inferno”. O fogo começou pouco depois do final da missa.

“Não é Notre-Dame dos católicos, é Notre-Dame da França, é Notre-Dame do mundo: a igreja queima e o mundo inteiro começa a chorar”.

‘Profunda tristeza’

A rainha Elizabeth enviou uma mensagem ao presidente Emmanuel Macron para manifestar sua profunda tristeza pelo incêndio e disse que suas preces estão com toda a França, informou o Palácio de Buckingham.

O filho mais velho de Elizabeth, o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico, disse que também ficou “com o coração profundamente partido” ao saber do incêndio.

“O príncipe Charles e eu estamos profundamente tristes ao ver as imagens do fogo que engoliu a Catedral de Notre-Dame”, disse a rainha na mensagem.

“Estendo minha sincera admiração aos serviços de emergência que arriscaram suas vidas para tentar salvar esse importante monumento nacional. Meus pensamentos e minhas preces estão com aqueles que louvam na catedral e com toda a França nesse momento difícil”.

Charles disse em uma mensagem para Macron: “Compreendo muito bem o significado verdadeiramente especial que a catedral tem no coração de sua nação, mas também, para todos nós fora da França, ela representa uma das maiores conquistas arquitetônicas da civilização ocidental”.

Ele acrescentou: “É um tesouro para a humanidade e, como tal, testemunhar sua destruição neste terrível incêndio é uma tragédia devastadora, uma dor insuportável que todos compartilhamos.”

O papa Francisco também afirmou estar rezando por todos os afetados pelo incêndio em Notre Dame, que continuará sendo um símbolo da união nacional francesa.

“O papa está rezando por todos aqueles que estão lutando, em particular os bombeiros, para enfrentar esta situação dramática”, disse Alessandro Gisotti, porta-voz do Vaticano.

“Notre Dame sempre permanecerá –e já vimos isso nessas horas– um lugar onde fiéis e não fiéis podem se unir nos momentos mais dramáticos da história francesa.”

(Com Reuters e AFP)