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Impasse indigesto

Trump faz brincadeira, a oposição faz teatro e o 'shutdown' bate recorde de duração, com servidores sem salário, ameaça à economia e nenhuma solução à vista

Por Thais Navarro - 18 jan 2019, 07h00

Tirando os 800 000 servidores públicos e empregados de empresas terceirizadas afetados pelo shutdown, o congelamento das verbas do governo, hoje o centro nevrálgico da política nos Estados Unidos, pouca gente no país está sentindo na carne os efeitos reais da falta de dinheiro público para honrar seus compromissos. O calote é resultado de uma queda de braço entre o Congresso, ao qual cabe aprovar um orçamento e enviá-lo para a sanção presidencial, e Donald Trump, que não abre mão de embutir no pacote 5,7 bilhões de dólares para a construção de seu famoso e controverso muro na fronteira com o México. Mas, visto de perto, o funcionamento parcial de algumas repartições não é tão inócuo assim. Na quarta 16, quando o shutdown entrava no 26º dia (um recorde histórico), o Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca divulgou um relatório que mostrava que ele puxa para baixo o crescimento trimestral em 0,13 ponto porcentual a cada semana que está em vigor.

Kevin Hassett, presidente do conselho, tentou pôr o ônus das complicações na conta dos parlamentares, que resistem a atender à exigência de Trump: “O Congresso precisa olhar para os danos que estamos apresentando”. O cálculo leva em consideração os atrasos em serviços contratados e parados e a queda no consumo e nos investimentos provocada pelo não pagamento do funcionalismo público. Cálculos independentes estimam que cada servidor afetado tem a receber do governo cerca de 5 000 dólares, em média, neste momento. A grande maioria entrou em licença não remunerada no início do shut­down, o que afetou principalmente o processamento das restituições de imposto de renda (o que é altamente impopular), a segurança em alguns aeroportos (que também incomoda pelas filas que provoca) e a inspeção de alimentos e remédios. Sob pressão da opinião pública, que culpa a Casa Branca pelo shutdown, o governo decidiu suspender as licenças. Piorou a situação dos servidores: terão de trabalhar sem receber.

Enquanto isso, Trump e a Câmara dos Deputados, que agora possui maioria democrata, tentam rachar a armadura um do outro, sem resultado. Trump busca atrair deputados democratas. A Câmara, por sua vez, liberou verba para rea­brir pagamentos pontuais até 8 de fevereiro, mas o Senado republicano nem pôs em votação. Grupos de parlamentares mais ao centro confabulam sem sair do impasse. Na coreografia dos gestos para chamar atenção, Trump aproveitou para fazer piada. Na segunda 14, dando a entender que a cozinha da Casa Branca havia sido desfalcada pelo shutdown, o presidente resolveu receber os jogadores do time de futebol americano universitário Clemson Tigers, campeão nacional, com um banquete de hambúrguer, batata frita e pizza, tudo servido em baixela de prata. Fez questão de dizer que o pagou do próprio bolso. E, como Trump é Trump, distorceu um pouquinho a realidade. Segundo ele, foram “mais de 1 000 hambúrgueres” consumidos em uma hora — o que daria sete sanduíches e meio para cada um dos 130 integrantes da equipe dos Tigers. Sem falar na pizza e na batata frita.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

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