ICE planeja distribuir luvas capazes de aplicar choques para policiais de imigração, diz agência
Organizações de direitos civis denunciam plano, afirmando que agentes já fazem uso excessivo da força para deter estrangeiros nos EUA
O ICE, a polícia de imigração americana, planeja equipar os seus agentes com luvas capazes de aplicar choques elétricos dolorosos, informou a agência de notícias The Associated Press nesta quarta-feira, 12. Segundo um documento vazado do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), há previsão de um orçamento de US$ 20 milhões (mais de R$ 100 milhões) para a compra de “tasers táteis” para subjugar indivíduos que resistam à prisão.
Os dispositivos são conhecidos como G. L. O. V. E. (sigla em inglês para Emissor de Voltagem de Baixa Intensidade, que também soletra a palavra “luva”) e são fabricados pela Compliant Technologies LLC, sediada no Kentucky. Algumas prisões e departamentos de polícia já os adotaram nos últimos anos. O documento interno do DHS, obtido pela Associated Press, indica que a solicitação para um contrato sem licitação com a empresa poderia ser publicada já nesta sexta-feira, 14.
“Picada de abelha”
De acordo com a Compliant Technologies, os dispositivos funcionam como luvas comuns até que os agentes acionem um botão para ativar o modo elétrico. A descarga acontece quando a luva entra em contato direto com a pele. O estímulo doloroso, segundo a empresa, ajuda o agente a obter a obediência do indivíduo em questão de segundos.
“É algo imediato e agudo, que causa distração, como uma picada de abelha”, afirmou à Associated Press John Peters, presidente do Instituto para a Prevenção de Mortes sob Custódia, que estuda a utilização do dispositivo. “Se o agente encontrar qualquer tipo de resistência por parte da pessoa, essa é certamente uma ferramenta eficaz. ”
O especialista acredita que as luvas serão usadas para ajudar a retirar indivíduos resistentes de seus carros e casas, bem como para transferências em centros de detenção. A Compliant Technologies alerta, porém, que o dispositivo não deve ser usado como punição, contra pessoas que apenas demonstrem “desafios verbais ou beligerância”, nem em populações de alto risco, como crianças, gestantes, idosos ou pessoas com deficiência.
Denúncias
Organizações de direitos civis manifestaram preocupação com o plano, afirmando que os agentes do ICE já enfrentam críticas pelo excesso de uso da força ao aplicar a política linha-dura contra a imigração do presidente Donald Trump.
Jenn Rolnick Borchetta, vice-diretora do projeto de policiamento da ONG União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), afirmou não confiar nos policiais para usar os dispositivos da forma adequada. Ela questionou a necessidade de tais equipamentos para ações civis de fiscalização migratória e observou que as pessoas atingidas pelos choques podem não receber qualquer aviso prévio.
“O ICE passou o último ano mostrando a este país que recorre à força com muita rapidez. Agora, eles poderão aplicar choques elétricos com o simples toque de um botão, talvez sem que ninguém mais perceba”, disse ela. “Introduzir luvas que podem ser usadas tão facilmente para causar dor intensa durante abordagens é uma receita para danos à população. ”
Segundo a empresa Compliant Technologies, as luvas devem se restringir à contenção de suspeitos violentos que se recusam a entrar em viaturas e detentos que representem uma ameaça para os agentes ou a si mesmos. Para utilizar o dispositivo, a empresa demanda que agentes concluam um curso e passem por reavaliação a cada dois anos.







