Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Hollande, a transformação de um ‘brando’ em campeão da esquerda

François Hollande se lançou na disputa pela Presidência em meio a ironias, sendo considerado “brando” demais, provinciano demais; mas, convencido de estar em harmonia com sua época, o candidato socialista traçou tenazmente seu caminho até se tornar o favorito à eleição presidencial que será definida no domingo.

No início, ninguém apostava nele. Não era nem o ex-diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, um brilhante economista, nem sua ex-companheira Ségolène Royal, de relação emotiva com os franceses.

Hollande foi primeiro-secretário do Partido Socialista (PS) durante onze anos. Deputado do departamento rural de Corrèze, não parecia ter o carisma exigido na França em uma eleição presidencial.

Mas pressentiu que os franceses estavam fartos do “hiperpresidente” Nicolas Sarkozy e de seu “exibicionismo permanente”, e prometeu uma presidência normal.

Até o dia 14 de maio de 2011, nada permitia prever que chegaria ao segundo turno da eleição presidencial. Strauss-Kahn era o favorito das pesquisas e da imprensa para ser o candidato socialista.

Hollande havia lançado semanas antes sua campanha, mas os observadores estavam convencidos de que sua corrida em direção às eleições seria interrompida no caminho, sem chegar muito longe.

Os problemas judiciais colocaram um ponto final na carreira política de Strauss-Kahn e deixaram a via livre para Hollande. As primeiras pesquisas deram razão a ele, ao situá-lo na liderança dos candidatos de esquerda preferidos dos franceses. Mais ainda, previam que poderia vencer o presidente Sarkozy.

Aos 57 anos, nasceu em uma família de Ruan (noroeste), filho de um médico e de uma assistente social. Estudou na ENA, prestigiada escola de administração e berço da elite política francesa. Lá conheceu aquela que foi sua companheira por 25 anos e mãe de seus quatro filhos, Ségolène Royal.

Terminados os estudos, trabalhou no Tribunal de Contas. Fascinado pela figura política do presidente François Mitterrand, eleito em 1981, começou depois a colaborar com ele escrevendo “notas”.

Aos 26 anos, assumiu o desafio de se candidatar às eleições legislativas no reduto eleitoral do então futuro presidente Jacques Chirac, que em um ato público perguntou: “Quem é você?”.

“Sou aquele que você compara com o cachorro labrador de Mitterrand”, respondeu o socialista.

O ex-presidente Chirac, que pertence ao mesmo partido de Sarkozy, tem, no entanto, afeto pelo opositor, que persistiu e terminou conquistando seu bastião de Corrèze. Chirac chegou inclusive a dizer que “votará em Hollande”, antes de ressaltar que sua frase era “humor correziano”.

Social-democrata assumido, europeu convencido, Hollande se interessou particularmente pelas questões fiscais.

Sua companheira, Ségolène Royal, avançava na carreira e chegou a formar parte do governo de Mitterrand. Hollande permaneceu na sombra, ganhou espaço no aparelho político do PS e aspirou a um ministério, que nunca obteve.

Os fracassos nas eleições presidenciais de Lionel Jospin em 1995 e em 2002, e de Ségolène Royal em 2007, o levaram a decidir que cabia a ele se candidatar.

Aconselhado por sua nova companheira, a jornalista política Valérie Trierwieler, perdeu mais de dez quilos, mudou de aspecto e abandonou suas piadas inoportunas, que lhe deram a reputação de ter um humor arrasador.

Durante meses percorreu o país e trabalhou duro. O homem afável que evita os conflitos foi impondo uma imagem sólida e tenaz, sua principal qualidade, segundo o ex-ministro Michel Sapin, um velho amigo.

Na quarta-feira, surpreendeu no debate televisionado com Sarkozy, mostrando-se mais ofensivo do que se esperava.

Hollande é “elusivo”, resume seu filho mais velho Thomas Hollande, que considera isto a marca do “homem livre” que é seu pai, um “estrategista” que quer compreender as pessoas. Seu apego ao consenso, que seus opositores chamam de indecisão, é uma vantagem para “unir”, consideram as pessoas próximas.