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História das castas inferiores explica diferenças de desenvolvimento regional na Índia

Vantagem do sul em relação ao norte tem a ver com prioridade que foi dada pelos integrantes de castas oprimidas à educação e ao empreendedorismo

Por The New York Times - 18 set 2010, 19h00

Vestido com o uniforme do Vale do Silício – camisa de jeans e calça cáqui, um fino smartphone na mão -, Chezi Ganesan é a imagem perfeita de um empresário do setor de tecnologia. Ele divide seu tempo entre San José, na Califórnia, e a florescente metrópole costeira de Chennai, na Índia, gerindo uma empresa de fabricação de chips de computadores, com 6 milhões de dólares de faturamento anual . Sua família percorreu um longo caminho. Seu avô não podia entrar nos templos hindus, ou mesmo ficar perto de pessoas de castas superiores. Ele pertencia à casta nadar, apenas um degrau acima dos “intocáveis” na antiga hierarquia da sociedade indiana. “Mas a casta já não tem impacto na vida de hoje”, diz Ganesan, entrevistado em um exclusivo clube social de Chennai, o tipo de lugar onde há uma geração alguém como ele não seria bem-vindo. “Já não é mais uma barreira.” A espetacular ascensão de um nadar, a quem antes só estavam reservados trabalhos braçais, oferece pistas importantes para o enigma das castas e como ele tem afetado o progresso econômico em muitas partes da Índia. A Índia está experimentando um surto de crescimento econômico, com taxas de desenvolvimento próximas dos dois dígitos. Mas os benefícios não foram compartilhados igualmente, e o sul do país disparou à frente das demais regiões, seja qual for o termo de comparação: as pessoas ganham mais dinheiro, são mais educadas, vivem mais e têm menos filhos. Um fator crucial é o colapso do sistema de castas nas últimas décadas, um fator que supera as muitas outras razões da prosperidade do sul – governos mais estáveis, melhor infraestrutura e uma posição geográfica que a deixa mais próxima das conexões da economia mundial. “A ruptura da hierarquia de castas quebrou vínculos tradicionais entre castas e profissões, e desencadeou enormes energias empresariais no sul”, disse Ashutosh Varshney, professor da Universidade Brown que estudou o papel das castas no desenvolvimento do sul da Índia. Essa ruptura, diz ele, traz subsídios indispensáveis para explicar por que o sul tomou a liderança do norte nas últimas três décadas. A Constituição da Índia aboliu as castas, a hierarquia social que ordenou a vida dos indianos por milênios, e instituiu um sistema de cotas em universidades e empresas para ajudar quem estava nos extratos inferiores da sociedade. Mas as divisões persistem, com as castas superiores dominando muitas esferas da vida, apesar de seu número relativamente pequeno. Enquanto no sul integrantes das castas inferiores buscaram na educação e no empreendedorismo um caminho para a prosperidade, no norte seu principal objetivo foi alcançar o poder político. Como resultado, no norte da Índia as castas mais baixas tendem a ser menos escolarizadas e menos prósperas que seus homólogos do sul. Líderes carismáticos de castas baixas do norte usaram a identidade social como forma de mobilizar seus eleitores, ganhando o controle sobre vários grandes estados indianos. A casta impregnou de tal modo a política na metade norte da maior democracia do mundo que se costuma dizer que as pessoas não votam, as castas votam. A questão é tão importante para a política do norte do país que os partidos exigiram a inclusão da casta no censo indiano. O governo, cedendo à pressão, concordou em recolher dados sobre a casta pela primeira vez desde a independência. Os partidos de casta esperam, mostrando seu grande número, obrigar o governo a criar mais empregos para suas comunidades. Ao contrário do norte, onde movimentos políticos baseados em castas são um fenômeno relativamente recente, as castas mais baixas do sul da Índia começaram a se revoltar contra a dominação das castas superiores no início do século 20. Como esses movimentos começaram antes da independência, eles passaram a se concentrar em temas como dignidade, educação e auto-confiança, diz Varshney. Os nadar criaram associações empresariais para oferecer crédito a empreendedores que não podiam receber dinheiro dos bancos. Com donativos, pagaram a educação de crianças pobres. Construíram seus próprios templos e salões para casamento para contornar a discriminação das castas superiores. “Nossa comunidade é focada na educação, não na política”, diz R. Chandramogan, um empreendedor nadar que construiu a maior empresa de produtos lácteos da Índia a partir do zero. “Sabíamos que com educação poderíamos realizar qualquer coisa.” O resultado? Quando a economia da Índia foi liberalizada em 1990, o sul estava mais preparado para tirar proveito da globalização, diz Samuel Paul, do Public Affairs Center, uma instituição de pesquisa que analisou de perto a crescente divisão entre o norte e o sul da Índia. “O sul estava pronto”, disse Paul.

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