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Heterogênea e divida oposição síria parece avançar em direção à unidade

Por Da Redação 15 jan 2012, 08h36

Javier Martín.

Damasco, 15 jan (EFE).- Eclética e ainda dividida, a ampla e variada oposição síria começou a dar passos em busca da unidade necessária para abalar as estruturas do ainda firme regime de Bashar al Assad.

Islamitas, laicos, opositores no exílio e resistentes no interior do país compartilham objetivos comuns, mas diferem em questões fundamentais como os métodos para alcançá-los, quem deve liderar a luta e se deve haver intervenção estrangeira.

As diferenças levaram a que, quase dez meses após o início dos protestos, o regime pereça sólido e os avanços tenham sido mínimos, fruto da inércia e do entusiasmo do que de uma planejada estratégia.

Ao contrário do ocorrido em movimentos similares, como na Líbia, onde os rebeldes adquiriram reconhecimento internacional em apenas um mês e com mais um pouco conseguiram controlar Benghazi, segunda cidade do país, os revolucionários sírios precisam de apoio concreto e não foram capazes de assumir grandes cidades.

Durante meses, a diplomacia mundial não soube com toda clareza a quem se dirigir, antes de decidir os prós e os contras de uma custosa ação militar como a que conduziu à derrocada de Muammar Kadafi.

‘Acho que não é momento de discussões. O essencial é expulsar o ditador e devemos nos estabilizar para isso primeiro. Depois haverá tempo para solucionar outros problemas’, explica à Agência Efe Ahmad Sahrar, que se apresenta como membro da oposição ‘à espreita’ nos subúrbios de Damasco.

Até o momento, o principal grupo opositor é o denominado Conselho Nacional Sírio (CNS), assentado na Turquia, dirigido por Burhan Ghalioun, um tecnocrata residente em Paris com fama de conciliador. Compõe o CNS críticos laicos no exílio, a Irmandade Muçulmana e líderes curdos.

Embora sua liderança seja discutida, o certo é que desde que acedeu à liderança foi recebido pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton, conseguiu que Londres nomeasse um enviado especial e abriu negociações com a criticada Liga Árabe.

Parece ter fracassado, entretanto, na hora de estreitar a brecha entre islamitas e laicos, e de atrair o denominado Comitê de Coordenação Nacional (CCN), segundo grupo da oposição.

O CCN, formado em sua maioria por opositores e resistentes que ainda vivem na Síria, critica a excessiva influência dos islamitas, e em particular da Irmandade Muçulmana, no CNS.

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Além disso, dialogou com o regime e se opõe a uma eventual intervenção estrangeira no conflito, uma opção que o CNS rejeita de forma oficial, mas que tem o apoio pessoal de um número cada vez mais crescente de membros.

As divergências ficaram patentes em dezembro quando o conselho do CNS – e em particular a Irmandade Muçulmana – rejeitou um documento que o próprio Ghalioun havia pactuado com o CCN, no qual esboçava uma transição democrática e devia ser entregue à Liga Árabe neste mês.

Nesta atmosfera de confusão, as notícias do acordo de colaboração entre o CNS e o denominado ‘Exército Livre Sírio’, braço armado opositor que luta no território, e a deserção do general Mustafa Ahmed al-Sheikh foram recebidas neste fim de semana com entusiasmo.

Aparentemente, Sheikh – o oficial de maior categoria que até o momento abandonou as fileiras do regime – será o encarregado de coordenar a ação entre a oposição civil e os grupos armados, além de criar uma estrutura para absorver e integrar o crescente número de desertores.

Responsável pela segurança no norte do país, zona onde a repressão é mais dura, o general, de 54 anos, garantiu que se atreveu a dar esse passo por causa da ‘excessiva brutalidade do regime’.

Sheikh é considerado peça fundamental, não só por conhecer o território, mas porque pode atrair outros oficiais para as fileiras comandadas pelo coronel Riad al-Assad.

Embora a política de Bashar al Assad nos últimos anos tem sido debilitar e dividir o Exército em favor dos serviços secretos para evitar um golpe de Estado, o certo é que as Forças Armadas são um dos pilares do regime.

Dados do próprio ‘Exército Livre Sírio’ contabilizam 40 mil homens, dos quais metade seriam desertores. Um número que põem em quarentena analistas internacionais, que estimam seja bem menor.

Desertar na Síria é sinônimo de um enorme risco: primeiro para as famílias dos que fogem – que sofrem punições – e depois para os próprios desertores.

‘Os que são capturados, são torturados, e depois seus nomes e seus corpos são usados para acusar à oposição’, argumenta Sahrar. EFE

jm/dm

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