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Guerra do Afeganistão não interessa aos eleitores

Segundo pesquisa da rede de comunicação CBS, apenas 7% dos americanos consideram as guerras no Iraque e Afeganistão os maiores problemas do país

Uma análise das notícias mais importantes entre janeiro de 2007 e julho de 2010, conduzida pelo Centro de Pesquisas Pew, revela que o Afeganistão está em sexto lugar na cobertura

Pergunte a Claude Nicolas, 24 anos, quais são os grandes temas para as eleições ao Congresso americano este ano. A resposta: emprego, economia e imigração. A guerra no Afeganistão? “Uau, não tinha pensado nisso”, responde, um pouco tímido. “Isso definitivamente não está no radar do público. As pessoas estão cansadas desse assunto.”

Praticamente desde a invasão do Iraque, em 2003, a guerra de nove anos no Afeganistão tem sido, em grande medida, uma reflexão tardia na política americana. Ainda que o interesse público tenha aumentado nos últimos meses, em meio ao debate nacional sobre a estratégia, a demissão do general Stanley McChrystal e o aumento da quantidade de baixas, o Afeganistão continua pouco lembrado na lista de preocupação dos eleitores, segundo as pesquisas.

Entrevistas com eleitores, candidatos e estrategistas políticos sugerem que a publicação, esta semana, de milhares de relatórios confidenciais sobre a guerra não mudou substancialmente esse status. Os documentos confidenciais, que traçam uma pintura sombria da guerra, claramente reforçaram o ativismo antiguerra que continua tentando, sem muito sucesso, pressionar o Congresso a reduzir os custos do conflito e a antecipar a retirada das tropas.

Os documentos também parecem alimentar o mal-estar generalizado entre os eleitores já preocupados com o rumo da guerra, um grupo que cresceu substancialmente no último ano, segundo muitas pesquisas.

Mas a percepção, dividida por muitos estrategistas em ambos os partidos, é que os documentos não levarão o Afeganistão ao centro das preocupações dos eleitores, a menos que a economia melhore drasticamente ou a própria guerra se torne pior.

O deputado Joe Sestak, do Partido Democrata, numa dura disputa pelo Senado na Pensilvânia, afirmou que o conflito não está na cabeça dos eleitores que encontrou. Mas Sestak, um almirante reformado, afirma que espera que o vazamento dos documentos leve o governo Obama a explicar melhor seus objetivos no Afeganistão e criar pontos de referência para o progresso do conflito. “O público tem dúvidas sobre a estratégia”, disse ele. “Vamos responder essas perguntas.”

Normal Stellander, da Filadélfia, que normalmente vota nos republicanos, exemplifica o desinteresse geral na guerra. Stellander perdeu o emprego em junho e o único assunto que realmente interessa a ele é a economia. O vazamento dos documentos militares, ainda que com revelações preocupantes sobre vítimas civis, apenas sublinha a confusão da guerra, diz ele. “Para mim, não é uma grande questão.”

Os dois partidos têm razões políticas e ideológicas para não ampliar questões sobre a guerra, acreditam os estrategistas. Ainda que a ala liberal do Partido Democrata aumente a oposição verbal à guerra, muitos candidatos do partido continuam hesitando em criticar a estratégia do presidente Obama.

Além disso, muitos democratas venceram as eleições em 2006 com o argumento de que os Estados Unidos deveriam deixar o Iraque e focar no Afeganistão. Esses candidatos não podem agora pedir uma retirada rápida do Afeganistão, disse Jon Soltz, presidente da Vote Vets, um grupo liberal que apóia candidaturas de veteranos ao Congresso. “Há sempre a crença de que nossa intervenção no Afeganistão foi justificada e temos de dar tempo ao tempo”, disse ele.

Os republicanos, por seu lado, apoiaram a guerra durante anos e agora se encontram num alinhamento desconfortável com o presidente democrata a quem se opõem na maioria dos outros temas. Embora tenham criticado Obama quando ele definiu o início da retirada das tropas para 2011, apoiaram amplamente o envio de 30 mil soldados adicionais ao Afeganistão. E muitos candidatos republicanos expressaram fé na decisão de Obama de substituir McChrystal pelo general David Petraeus como comandante no Afeganistão. “As pessoas estão muito, muito confortáveis com o general Petraeus”, disse a deputada republicana Jô Ann Emerson. “E por causa dessa confiança, a guerra não é o grande tema dessas eleições.”

Por qualquer medida, o interesse público na guerra do Afeganistão é relativamente baixo. Uma pesquisa da CBS, em julho, mostrou que 7% dos americanos consideram as guerras no Iraque e Afeganistão os maiores problemas do país, comparado com 38% que responderam empregos e economia.

Uma análise das notícias mais importantes entre janeiro de 2007 e julho de 2010, conduzida pelo Projeto para a Excelência do Jornalismo do Centro de Pesquisas Pew, revelou que o Afeganistão está em sexto lugar na cobertura da imprensa, internet, televisão e rádio, bem abaixo da campanha presidencial, da crise econômica, do debate sobre o financiamento da saúde e do Iraque. “Infelizmente, a maioria dos americanos não está prestando atenção”, disse o deputado democrata Patrick Murphy.

Murphy, um veterano da guerra do Iraque, venceu a eleição de 2006 com o argumento de que os Estados Unidos deveriam deixar o Iraque e usar os recursos no Afeganistão. Ainda que se diga “frustrado” como o governo do Afeganistão, apóia a política do governo Obama.