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Guaidó se diz mais forte do que nunca: ‘Dias de Maduro estão contados’

Ao não cumprir as ameaças de que iria prender seu principal opositor, Maduro mostrou que teme as consequências de um acirramento da pressão internacional

Por Yan Boechat - Atualizado em 4 mar 2019, 18h38 - Publicado em 4 mar 2019, 18h36

Com o apoio internacional de mais de 50 países, ameaças de “ações rápidas” pelos Estados Unidos caso fosse detido e a recepção de uma dúzia de embaixadores de países latino-americanos e europeus que o aguardavam pessoalmente no aeroporto de Maiquetia, o autodeclarado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, voltou a Caracas nesta segunda-feira, 4. Seu retorno foi um claro desafio ao presidente Nicolás Maduro, que afirmara nos últimos dias que Guaidó precisaria prestar contas à Justiça por ter desobedecido uma ordem judicial de não sair do país e por tê-lo o feito de maneira ilegal, por meio de uma das dezenas de passagens irregulares que ligam a Venezuela à Colômbia. O autodeclarado presidente interino venezuelano não enfrentou qualquer problema ao desembarcar em um voo comercial vindo do Panamá e pôde seguir sem impedimentos para encontrar milhares de apoiadores que o aguardavam no bairro das Mercedes, uma região de classe média alta de Caracas.

O retorno de Guaidó à Venezuela foi uma vitória política importante da oposição venezuelana e, principalmente, da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos que o apoia e força a saída de Nicolás Maduro. Ao não cumprir as ameaças de que iria prender seu principal opositor, Maduro mostrou que teme as consequências de um acirramento da pressão internacional que vem sofrendo desde o início do ano, quando Guaidó se autodeclarou presidente interino do país. Os golpes mais duros dessa pressão vieram dos Estados Unidos, que bloquearam as contas da Citco, subsidiária no país de Donald Trump da estatal petroleira venezuelana, a PDVSA. Sem ter acesso a essas contas, na prática o governo do país fica sem acesso a sua principal fonte de renda, a exportação de petróleo para os Estados Unidos. Estima-se que os envios venezuelanos tenham caído 45% apenas nesse último mês e que as exportações remanescentes sejam apenas para pagamento de dívidas com a China e a Rússia.

Durante seu discurso para milhares de pessoas em uma praça no bairro das Mercedes, um área de classe média alta de Caracas, Guaidó afirmou que está mais forte do que nunca e que os dias de Maduro estão contados. De acordo com ele, a viagem que vez por diversos países sul-americanos, como Brasil, Argentina, Paraguai e Equador reforçou o apoio internacional que vem recebendo. Pelo Twitter, que ficou horas sem funcionar em Caracas, Guaidó informou que havia chegado ao país no início da tarde dessa segunda-feira. “Entramos na Venezuela como cidadãos livres, que ninguém nos diga o contrário.” Ele afirmou que pretende se encontrar com sindicatos de trabalhadores estatais nesta terça-feira, 5, e prometeu fazer um anuncio importante ao país. Guaidó pediu ainda que a mobilização popular se mantenha e convocou novas manifestações no próximo sábado.

Nesta segunda, ao menos, Juan Guaidó, não conseguiu mobilizar o mesmo número de pessoas que atenderam a seus chamados anteriores. Apesar de haver milhares de pessoas na Praça Alfredo Sadel, no bairro das Mercedes, (números oficiais não foram divulgados), havia bem menos gente do que nas marchas convocadas antes da tentativa frustrada de entrar à força na Venezuela com cerca de 600 toneladas de alimentos, remédios e itens de primeira necessidade enviadas pelos Estados Unidos, no dia 23 de fevereiro.  Muitos venezuelanos acreditavam que Guaidó teria força suficiente para convencer os militares a permitir a entrada dos comboios que saíram de Cúcuta, na Colômbia; de Pacaraima, no Brasil, e de Curaçao. O fracasso na empreitada, a qual o presidente interino havia prometido sucesso garantido nos dias que a antecederam decepcionaram muitos venezuelanos. “Já não há o mesmo empenho, as pessoas já não confiam tanto que conseguiremos a vitória, estão vendo um filme que já viram antes”, me contava a ex-bancária Maria Elisa Ramírez Toro, antes de a notícia de que Guaidó havia pousado no Aeroporto de Maiquetía se espalhar. “Mas não se trata só disso, é feriado nacional na Venezuela por causa do Carnaval e muita gente foi para praia, isso explica um pouco porque não há tanta gente”, dizia ela.

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Com uma inflação que superou os incríveis 1 milhão por cento em 2018 e um salário médio que mal ultrapassa os US$ 5, apenas venezuelanos ricos e de classe alta conseguem viajar, mesmo que seja para passar alguns dias nas praias que estão distantes poucas dezenas de quilômetros de Caracas. O retorno de Guaidó nessa segunda mostrou que a base da oposição venezuelana segue sendo exatamente o que restou dos extratos sociais mais altos do país. Nas Mercedes, um bairro tipicamente rico de Caracas, via-se poucos manifestantes que fazem parte das classes mais baixas que dominam a população desse país profundamente empobrecido e que mais sofrem com a crise profunda que explodiu aqui após a queda dos preços das commodities, em 2014. Entre os que estiveram na segunda de Carnaval nas Mercedes, um sem número de homens a bordo de Harley Davidsons e carros de luxo. Os centros comerciais e restaurantes em que um almoço pode custar o mesmo que três a quatro salários mínimos estavam abarrotados.

Após ter sido derrotado no dia 23 ao ver Maduro mostrar força, coesão e lealdades das Forças Armadas, Guaidó de fato conquistou uma batalha importante nessa nova guerra política que se estende há quase dois meses na Venezuela. Seu retorno desafiador tende a ampliar os ânimos de seus apoiadores, mas não lhe garante, no entanto força suficiente para conseguir derrubar Maduro. Para isso, ele precisa do apoio das Forças Armadas. Em seu discurso de retorno, Guaidó relembrou que ao menos 700 militares já desertaram, quase todos eles na Colômbia, e mais uma vez convocou uma rebelião contra Maduro nos quartéis. “Faço outro chamado às Forças Armadas. Não basta estar de braços cruzados, a omissão também é um crime de lesa humanidade”, disse ele.

As deserções, no entanto, estão longe do motim generalizado que Guaidó e a oposição esperavam no dia 23 de fevereiro, quando não conseguiram fazer que nem ao menos um dos caminhões com a carga americana entrassem no país. Os 700 desertores são quase todos soldados de baixa patente e moradores de cidades fronteiriças que fogem da fome e das más condições de trabalho nos quartéis. Boa parte deles conseguiu fugir com as famílias atravessando as passagens irregulares entre a Venezuela e a Colômbia. Deserções de oficiais de alta patente, como coronéis e generais têm ocorrido, mas de forma muito esporádica e em números pouco relevantes. Com o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a tendência é de que a situação do país fique ainda pior e, com isso, é possível que parte da cúpula militar abandone o apoio a Maduro.

Mas isso, como mostrou a tentativa frustrada de entrar com as cargas enviadas pelos Estados Unidos, trata-se apenas de especulação. Mas é exatamente com essa possibilidade que Guaidó segue apostando para se tornar presidente interino de forma concreta. Nas próximas semanas, o autoproclamado presidente interino seguirá tentando ampliar a pressão política sobre Maduro fazendo novas promessas e buscando ampliar apoio tanto internamente quanto externamente. Mas entre discursos, bravatas e operações midiáticas, tanto Maduro quanto Guaidó sabem que essa crise só terá seu final quando os militares venezuelanos tomarem uma decisão concreta sobre o futuro do país. Por enquanto, os integrantes da elite militar da Venezuela parecem acreditar que Maduro é a melhor opção. Ao menos, para eles.

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