Greve geral e protestos levam 200.000 às ruas na França contra cortes de gastos públicos
Mais de 170 manifestações ocorreram em todo o país; algumas tiveram confrontos entre estudantes e policiais, com total de 440 detenções
A França foi tomada nesta terça-feira, 29, por manifestações de servidores públicos e estudantes, em um dia de mobilização nacional marcado por paralisações, bloqueios de escolas e confrontos com a polícia. Os protestos ocorreram dois dias antes da apresentação do projeto de orçamento do governo, que prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (R$ 318,73 bilhões, na cotação atual), e em meio às discussões sobre os gastos públicos no país.
Segundo o Ministério do Interior, cerca de 200 mil pessoas participaram de mais de 170 manifestações em todo o país, sendo quase 30 mil em Paris. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), uma das principais centrais sindicais francesas, estimou o público em mais de 300 mil pessoas, incluindo 70 mil na capital. Os servidores reivindicam reajustes salariais, contratação de funcionários e melhores condições de trabalho, diante da perda de poder de compra provocada pela inflação.
Por volta do meio-dia, quase 10% dos funcionários da administração pública haviam aderido à greve, segundo o governo. Entre os professores, a adesão chegou a 13,71%. Em Paris, professores e funcionários da educação participaram das manifestações ao lado de pais de alunos, enquanto trabalhadores de setores como saúde e serviços de emergência também levaram reivindicações às ruas.
A paralisação ocorre enquanto o governo de Sébastien Lecornu tenta equilibrar as contas públicas. O primeiro-ministro anunciou neste mês um plano de economia de 54 bilhões de euros para o próximo orçamento, em um momento em que a dívida pública francesa está em níveis elevados. Sindicatos afirmam que o esforço fiscal não pode ser feito às custas dos salários e dos serviços públicos.
Confrontos em escolas
A mobilização também atingiu o ensino médio. Estudantes vêm realizando protestos e bloqueios desde a semana passada para reivindicar melhores condições nas escolas, incluindo redução do número de alunos por turma, contratação de professores, mudanças na organização dos horários e medidas contra o calor excessivo nas salas de aula.
Em algumas cidades, as manifestações terminaram em confrontos. Grupos de adolescentes incendiaram contêineres de lixo e lançaram objetos contra policiais, que utilizaram cassetetes e gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.
O Ministério do Interior informou que 440 pessoas foram detidas durante os protestos. Também houve feridos, incluindo dez funcionários públicos e estudantes.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou que serão tomadas medidas judiciais contra os responsáveis pelos episódios de violência. Em uma publicação na rede X, ele condenou os confrontos e afirmou que ampliar os bloqueios, diante daquele cenário, colocaria estudantes e servidores em risco.
Salários e inflação
A insatisfação dos servidores também está relacionada ao congelamento do índice utilizado para calcular seus salários. Desde 2017, o indicador foi reajustado apenas duas vezes: 3,5% em 2022 e 1,5% em 2023. No mesmo período, a inflação acumulada deverá chegar a 24,17% até o fim de 2026, segundo projeção do instituto oficial de estatísticas Insee.
Para a CGT, a diferença entre a evolução dos salários e dos preços representa uma perda significativa de poder de compra para os funcionários públicos. A líder da central, Sophie Binet, classificou o congelamento do índice como uma redução salarial para milhões de servidores.
O movimento acontece a poucos meses da eleição presidencial francesa, marcada para abril e maio de 2027. O cenário eleitoral ainda está em formação, e pesquisas recentes apontam diferentes configurações possíveis para o primeiro e o segundo turnos. A votação ocorrerá após quase dez anos de presidência de Emmanuel Macron, que não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo.





