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Greve de fome contra o fantasma do antigo regime no Egito

Belén Delgado.

Cairo, 13 jun (EFE).- Por abominar o candidato presidencial Ahmed Shafiq, considerado o homem do ex-ditador Hosni Mubarak nas atuais eleições presidenciais do Egito, um grupo de manifestantes completou uma semana em greve de fome, apesar do sufocante calor no Cairo e da indiferença de muitos compatriotas.

Junto à entrada interditada da sede do Parlamento, no Cairo, uma dezena de ativistas entoa cânticos revolucionários à sombra de uma árvore, enquanto outros descansam em barracas.

Alguns deles permanecem há dias em greve de fome como medida de pressão contra a candidatura de Shafiq, embora bebam líquidos para suportar na rua as altas temperaturas.

A manifestante Iman el Sayed, dona de casa de 48 anos, refresca a cabeça com água e não resiste a fumar um charuto enquanto conversa com os transeuntes para explicar-lhes sua postura.

‘É ilógico fazer uma revolução para que alguém do antigo regime seja depois presidente do país’, ressalta Iman à Agência Efe. Ela exige a rápida aplicação da polêmica lei que proíbe os ex-altos funcionários de Mubarak participar da política, um assunto pendente por resolver no Tribunal Constitucional.

Segundo ela, cerca de 60 pessoas se somaram à greve de fome, embora a maioria mantenha a rotina de atividades normais e só vá às manifestações em frente ao Parlamento durante o pôr do sol.

‘Vou para casa a cada dois dias para me lavar. Pelas noites meu filho de 23 anos vem me fazer companhia’, diz Sayed, que confessa que em breve abandonará a greve para evitar complicações de saúde.

Na ambulância localizada em frente ao protesto, a enfermeira Suad Kamel lamenta que a ação dos manifestantes quase não tenha repercutido na opinião pública egípcia.

Em declarações à Efe, Suad destaca que, em apenas duas horas, teve de atender mais de 30 pessoas que apresentavam problemas cardíacos e de pressão baixa, enquanto três grevistas tiveram de ser hospitalizados. Ela afirma que não pôde conter as lágrimas quando viu os manifestantes rejeitarem tratamento à custa da próproa saúde.

Esse tipo de sacrifício não é entendido por muitos dos egípcios que se aproximam por curiosidade da área, isolada para evitar problemas de passagem.

É o caso do contador Rami Farouk, cristão copta. Em declarações à Efe, ele admite que votará em Shafiq, último primeiro-ministro de Mubarak, temendo que a vitória do outro candidato na disputa, o dirigente da Irmandade Muçulmana, Mohammed Mursi, permita monopolizar o poder ao agrupamento islamita, majoritário no Parlamento.

‘A economia do Egito precisa se recuperar e as manifestações o estão impedindo. Por que não entraram em greve de fome antes que Shafiq passasse ao segundo turno?’, questiona Farouk, favorável a respeitar o resultado do pleito, previsto para os próximos dias 16 e 17.

Apesar das críticas, os ativistas persistem em suas reivindicações nesse ponto da rua Kasr al-Aini, que desemboca na praça Tahrir, símbolo dos protestos revolucionários do ano passado. Para isso, expuseram grandes caricaturas nas quais aparecem as faces de Mubarak e Shafiq.

Os lemas em memória aos mortos da revolução de 25 de Janeiro de 2011 se mesclam com outros que defendem a pressão: ‘Estamos em greve até que se aplique a lei’ e ‘Sim a passar fome, não a se ajoelhar’.

‘Foram 30 anos de escuridão que fizeram com que a maioria não compreenda o que fazemos’, exclama o jovem universitário Alaa el-Kasas, que decidiu não se unir à greve de fome em época de exames acadêmicos, mas que contribui para o protesto oferecendo café e chá aos que precisam. EFE