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Gregos vão às urnas frustrados e sem esperança em dias melhores

Ramón Santaularia.

Atenas, 5 mai (EFE).- Os gregos entraram neste sábado em uma jornada de reflexão com poucos motivos de alegria, já que a frustração e as poucas esperanças de melhorar as condições de vida de seus 10,7 milhões de habitantes são evidentes para as eleições de amanhã.

O fechamento da campanha esteve limitado por chamadas e slogans que revelam a gravidade da crise financeira, que empobreceu a população até níveis inesperados desde o último pleito em outubro de 2009.

O país está encalhado no quinto ano de uma duríssima recessão, sem perspectiva alguma de alívio para muitos gregos, que perderam o emprego e que tentam alimentar suas famílias às duras penas.

Os números mais recentes são ainda mais impactantes: uma taxa de desemprego de 21,8%, um retrocesso da economia de quase 15% nos últimos cinco anos e uma dívida soberana equivalente a 170% do PIB no início de 2012, antes do perdão aplicado pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para evitar uma quebra iminente.

As cargas tributárias introduzidas para cumprir os requisitos destes organismos internacionais asfixiaram não só o crescimento, mas empobreceram a classe média e fizeram sair às ruas muitos cidadãos que protestam contra o ditado de Bruxelas.

Perante este panorama e uma potencial saída da Grécia da zona do euro, que não pôde ser ainda descartada, os discursos dos políticos no fechamento da campanha estiveram carregados de uma dramaticidade própria das adversidades que caracterizam estes tempos críticos.

‘O grande dilema é: Euro e estabilidade ou Estado ingovernável’ era o slogan no fechamento de campanha pronunciado ontem por Evangelos Venizelos, ex-ministro das Finanças e líder do partido social-democrata Pasok e possível membro minoritário de um futuro governo de coalizão com os conservadores da Nova Democracia (ND).

‘No domingo está em jogo o destino de nosso povo’, disse Venizelos em um comício de Atenas perante cinco mil pessoas. ‘Decidiremos se permanecemos na Europa e no euro ou se mandamos o país pelo caminho da quebra e seu povo à pobreza extrema’.

O líder da ND, Antonis Samaras, e atual parceiro do Pasok, prometia na cidade setentrional de Alexándropolis que ‘amanhã a Grécia vira a página’ e que ‘a vitória da ND será a garantia que haja governo’.

Porém, as pesquisas contradizem esta declaração, já que, segundo as enquetes de duas semanas atrás, nenhum partido obterá uma maioria suficientemente cômoda para governar sozinho.

A ND alcançaria um apoio popular de entre 22% e 25%, enquanto o Pasok ficaria com entre 15% e 18% dos votos.

Estes dois partidos, que se alternaram no poder durante quase quatro décadas, terão que negociar uma coalizão, uma prática sem tradição na Grécia, salvo nos últimos meses sob a batuta do governo do tecnocrata Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Seguem em intenções de voto a esquerdista Syriza, com um apoio de 10% a 13% e os comunistas ortodoxos do KKE, com 10% a 11%, e outros seis ou sete grupos, desde neonazistas até a extrema esquerda, com intenções de voto acima de 3%, o mínimo necessário para entrar no Parlamento.

No entanto, os institutos de pesquisa navegam por águas desconhecidas devido à grande incógnita que representa a conduta de cidadãos que viram como se deteriorava com rapidez sua qualidade de vida desde as eleições de 2009, quando os socialistas do Pasok, liderados por Giorgos Papandreou, varreram a Nova Democracia.

O novo governo herdou então uma série de dados macroeconômicos falsificados, como o déficit fiscal de mais de 15%, contra os 6% divulgados pela ND, o que disparou os alarmes em Bruxelas.

As medidas impostas em seguida pelos organismos internacionais para corrigir esta situação provocaram uma profunda crise social e econômica, que constitui a pior tragédia que atingiu a Grécia desde a Segunda Guerra Mundial. EFE