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Governo e oposição sírios se acusam de colocar o cessar-fogo em perigo

O cessar-fogo na Síria foi anunciado, mas se encontra seriamente comprometido pelos atos de violência registrados apenas uma hora depois de sua entrada em vigor, às 00h00 (de Brasília), e a oposição e o regime se acusam de colocá-lo em perigo, apesar de o autor do plano de paz, o emissário Kofi Annan, considerar que o fim das hostilidades parece estar sendo respeitado.

O Conselho Nacional Sírio (CNS) anunciou em Genebra que, segundo as informações recebidas do principal grupo de oposição no terreno, cinco pessoas, sendo quatro civis, foram mortas e dezenas de pessoas presas, após o início do cessar-fogo.

Segundo o CNS, os mortos foram contabilizados na região de Hama e dezenas de prisões foram efetuadas em Aleppo, Homs e Dera. “Constatamos, com provas, que armas pesadas ainda estão sendo utilizadas em áreas povoadas. Algumas simplesmente foram reposicionadas”, acrescentou a porta-voz rebelde Basma Kodmani. Ela também relatou o aparecimento de muitos pontos de controle adicionais fortemente armados.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), por sua vez, informou sobre um civil morto em Hama (centro).

Já a televisão pública síria anunciou que o militar morto – citado pelo CNS – é um oficial do Exército. Além dele, 24 outras pessoas ficaram feridas em Aleppo, norte da Síria, em um ataque comandado, segundo as autoridades, por um “grupo terrorista armado”.

De acordo com a tv oficial síria, um ônibus transportava oficiais para seu local de trabalho e foi alvo de uma carga explosiva colocada por um grupo de terroristas armados perto da ponte do aeroporto de Al Nairab em Aleppo, segunda cidade do país.

O ministério sírio do Interior, por sua vez, fez um pedido aos refugiados que fugiram da violência para que retornem ao país e também anunciou uma anistia para todos os homens armados que ‘não tenham sangue nas mãos’, anunciou a tv pública.

“O ministério do Interior apela aos homens armados que não têm sangue nas mãos que se apresentem à delegacia mais próxima para entregar suas armas. Eles serão liberados e não serão processados”, afirma o anúncio.

O regime sírio, que reprime de forma sangrenta a oposição, anunciou mais cedo a suspensão das operações militares, mas advertiu que suas forças responderiam a qualquer ataque “terrorista”, em referência aos rebeldes, que também prometeram respeitar 100% a trégua.

“O regime anda com rodeios, enquanto que nós nos comprometemos 100% com o cessar-fogo. O regime não nos provocará, não aceitaremos que nos provoque e não responderemos a suas provocações”, indicou o coronel Kassem Saadeddin, porta-voz do Exército Sírio Livre.

“O fim das hostilidade na Síria parece estar sendo respeitado”, afirmou, por outro lado, o emissário da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, acrescentando, no entanto, que o presidente Bashar Al-Assad deve “implementar completamente” seu plano de paz de seis pontos.

“Estou animado com os informes segundo os quais a situação na Síria está relativamente calma e que o cessar das hostilidades parece respeitado”, declarou Annan.

“Todas as partes envolvidas têm a obrigação de aplicar integralmente o plano de seis pontos para resolver a crise no país”, enfatizou.

Annan também pediu que o Conselho de Segurança exija a volta do exército de Al-Assad para os quarteis que os militares deixem as cidades em conflito.

Segundo Annan, o Conselho igualmente deve enviar uma missão de observadores para vigiar a aplicação do cessar-fogo.

O plano de Kofi Annan ainda é considerado pelo CNS como “a última chance para uma solução pacífica”, reiterou sua porta-voz, Basma Kodmani. A organização de oposição afirma que existe disposição em trabalhar com Annan “para certificar de que os observadores internacionais serão enviados o mais rápido possível”.

O CNS pede que especialistas em direitos humanos façam parte desses observadores para medir corretamente a especificidade da situação no terreno.

“O teste real será se haverá ou não disparos enquanto a população se manifestar”, disse a porta-voz.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou, por sua vez, que espera pelo envio de observadores à Síria “o mais rápido possível”.

Por fim, o CNS convocou para esta quinta-feira novas manifestações pacíficas contra o regime.

“Convocamos o povo a manifestar-se e a expressar-se porque é um direito absoluto. As manifestações são um ponto essencial do plano do emissário internacional Kofi Annan”, afirmou À AFP Burhan Ghalioun.

Todas as manifestações dos opositores foram reprimidas pelo regime de Bashar al-Assad.

“O cessar-fogo não tem nenhum valor se não permite ao povo manifestar-se, e o plano de Annan não tem nenhum valor se não permite a transição do país para um governo democrático e pluralista”, completou Ghalioun.