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Governo argentino distorce indicador de cesta básica

Pela conta da Casa Rosada, é possível fazer 4 refeições por menos de 3 reais

Por Da Redação 16 ago 2012, 21h53

O anúncio da Casa Rosada de que o cidadão argentino precisa de míseros seis pesos (2,65 reais) por dia para se alimentar fez com que a imprensa argentina repercutisse durante toda a semana a informação e revelou, mais uma vez, a conduta do governo argentino de distorcer indicadores econômicos

O Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec), ligado ao Ministério da Economia e Finanças Públicas, afirma que a quantia suficiente para uma família (composta pelo casal e duas crianças) deixar de ser indigente é de 688,37 pesos por mês.

Os números da equipe de Cristina Kirchner não revelam a realidade do país, avaliam institutos e a oposição – assim como ocorre com outros dados econômicos oficiais, que são contestados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela revista britânica The Economist.

O indicador diverge amplamente de institutos independentes, aponta o jornal Clarín, inclusive por desconsiderar as diferenças regionais. De acordo com o Instituto Provincial de Estatística de Santa Fé (Ipec), o valor mínimo para se comprar todos os produtos da cesta básica em Rosário é 85% mais caro, 1.260 pesos por mês. Em Ushuaia, de acordo com a Direção de Estatística e Censo da Terra do Fogo, a cesta básica custava em junho 2.110,87 pesos e em Río Grande 2.226,22 pesos. Até mesmo com a província de Buenos Aires há conflito de informações. Um estudo realizado por professores das Universidades de Buenos Aires (UBA) e de La Plata (UNLP) afirma que uma pessoa necessita de 23 pesos diários para realizar quatro refeições diárias – quatro vezes mais do que indicado pela Casa Rosada.

Outro estudo, realizado pelo Instituto Pensamento e Políticas Públicas (IPyPP), que é ligado à oposição, concluiu que uma família argentina necessita de 2.251 pesos mensais para atender todas as necessidades alimentares. O relatório do IPyPP também apresentou que o custo médio da cesta básica total (que inclui, além da alimentação, gastos com a casa, transporte e outros serviços) é de 4.151,6 pesos para um lar com quatro pessoas. Para o Indec, o valor que define a linha da pobreza é de 1.528 pesos, menos da metade.

Esses cálculos fazem que o governo informe em seus dados oficiais que apenas 1,7% da população é indigente e 6,5% é pobre. Na conta do Clarín, que utiliza medições de consultorias privadas, a pobreza atinge um quinto dos argentinos. No relatório elaborado pelo IPyPP, a estimativa aponta um índice de pobreza ainda maior: 31,5%.

A desconfiança sobre as estatísticas argentinas vem desde 2007, quando foram designados novos diretores para o Indec. Foi a partir deste momento que a evolução do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) começou a diferir de outros levantamentos realizados nos institutos das províncias. Em seguida, o Indec deixou de divulgar mensalmente a lista de preços dos produtos. O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, que está apresentando conferências no país, ressaltou a importância de contar com números confiáveis na economia. Mesmo cuidadoso advertiu que “cada governo deve ter uma agência de estatísticas independente que forneça estatísticas confiáveis”.

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