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Golpistas restabelecem ordem constitucional enquanto tuaregues avançam

Idrissa Diakite.

Kati (Mali), 1 abr (EFE).- A Junta Militar que há dez dias depôs o presidente do Mali, Amadou Toumani Touré, anunciou neste domingo o retorno à ordem constitucional em meio ao rápido avanço dos rebeldes independentistas tuaregues, que já controlam grande parte do norte do país.

Em entrevista coletiva na cidade de Kati, bastião dos golpistas, seu principal líder, o capitão Amadou Haye Sanogo, surpreendeu os presentes ao anunciar o restabelecimento da Carta Magna e das instituições.

‘Nos comprometemos solenemente a restabelecer a partir deste dia a Constituição de 25 de fevereiro de 1992, assim como todas as instituições da República’, afirmou perante os jornalistas.

A decisão é vista como uma resposta ao ultimato de 72 horas dado na sexta-feira passada pela Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental (Cedeao), que suspendeu Mali como membro e ameaçou impor-lhe um embargo econômico e político se a normalidade não fosse restabelecida.

A Cedeao advertiu ainda que estava disposta a mobilizar uma força de dois mil homens para obrigar Sanogo e o Comitê Nacional para o Restabelecimento da Democracia e Restauração do Estado (CNRDRE), como se denomina oficialmente a Junta Militar, a reconsiderarem sua postura.

No entanto, a resposta do chefe dos golpistas é parcial, já que por enquanto o CNRDRE conserva o poder e se mantém como ‘órgão supremo’ de governo.

Sanogo ressaltou hoje que o citado comitê será o encarregado de empreender e coordenar as consultas com ‘todas as forças vivas do país’ para iniciar um período de transição, cuja duração não precisou, durante o qual se preparará a realização de eleições ‘tranquilas, livres, abertas e democráticas’.

Também não se pronunciou sobre o destino do presidente deposto nem dos ministros que foram detidos durante o levante do último dia 22 de março.

Simplesmente assinalou que os membros do CNRDRE, ‘fiéis aos valores da paz, da democracia, do estado de direito e da boa governança’, não participarão do processo eleitoral.

Em declarações à Agência Efe, Nouhoum Keita, um dos membros do Movimento Popular de 22 de março, que apoia os golpistas, qualificou de ‘grande decepção’ a decisão tomada neste domingo pela Junta Militar.

Esta nova sacudida na cena política malinesa acontece em meio aos renovados combates no norte do país, onde os rebeldes tuaregues do Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA) aceleraram seu avanço.

Após mais de dois meses e meio de violentos choques, nos quais morreram centenas de soldados, os independentistas tuaregues tomaram o controle de praticamente toda a região, que tem 850 mil quilômetros quadrados de superfície.

Na sexta-feira se apoderam da estratégica localidade de Kiddal e neste domingo entraram triunfantes, e quase sem resistência, na cidade de Gao, a segunda mais importante do país e situada cerca de mil quilômetros ao leste de Bamaco.

Em comunicado divulgado através de seu site, os rebeldes anunciaram que ‘o Movimento Nacional de Libertação do Azawad içou sua bandeira sobre a cidade e a região de Gao está sob seu controle e administração’.

Habitantes da cidade confirmaram à Efe que Gao está em poder dos independentistas, que as forças regulares abandonaram a localidade e que não foram registrados saques.

Além disso, grupos de tuaregues armados tomaram a cidade de Tombuctu, a última do norte de Mali que permanecia sob o controle do governo de Bamaco.

Em outro comunicado em seu site, o MNLA informou que assumiu ‘o controle da administração’ da cidade e que sua bandeira ‘está em toda a região de Tombuctu’, inclusive na cidade homônima.

A desconcertante facilidade destes últimos avanços rebeldes afetou a Junta Militar, da qual membros do Exército se retiraram e inclusive alguns se somaram à rebelião.

O coronel Al Hadj Ag Gamou ‘libertou para os rebeldes a localidade de Kidal, lhes abriu o caminho em direção a Gao e, o mais grave de tudo, se uniu aos rebeldes’, confirmou à Efe um oficial malinês que pediu para não ser identificado.

Ag Gamou, homem de confiança de deposto presidente Touré e chefe da região militar de Kidal, havia anunciado horas antes em uma rádio local seu alinhamento com as forças tuaregues.

Nesta atmosfera bélica, o chefe do CNRDRE se mostrou ‘preocupado’ e expressou a determinação da Junta de ‘defender a qualquer preço a integridade territorial da nação’. EFE