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Futuro da Coreia do Norte é tão obscuro quanto o novo líder

Do filho caçula, escolhido como sucessor de Kim Jong-Il, não sabe nem a idade

“Se nem sua idade sabemos ao certo, quanto mais o grau de preparação que ele tem para governar. Ele pode ou não estar intimamente envolvido nas questões políticas do país, tanto ao lado dos apoiadores do pai, quanto dos países amigos. É tudo pura especulação.”

Gilberto Masiero, membro do Grupo de Estudos de Ásia-Pacífico da PUC

A ascensão ao poder do ditador norte-coreano Kim Jong-Il, que morreu de ataque cardíaco na noite da última sexta-feira, foi precedida de um longo período de preparação – que teve início em 1961, quando ingressou no Partido Trabalhista da Coreia do Norte. Ele tinha apenas 19 anos. Progressivamente, ao longo de 30 anos, ocupou diversos cargos no departamento do Comitê Central até que foi nomeado comandante supremo do Exército Popular da Coreia. E só com a morte do pai, Kim Il-sung, também por problemas no coração em 1994, ele pode assumir o poder com o apoio da população. Já a trajetória de Kim Jong-un, seu filho caçula, é bem mais curta: seu nome começou a ser cogitado para ser o sucessor do pai há pouco mais de um ano apenas, quando em um prazo de dois dias ele foi promovido a general do exército e eleito para dois cargos estratégicos na direção do partido único.

“Isso explica por que Kim Jong-un não tem o mesmo carisma do pai. E a sociedade norte-coreana não se unirá em torno dele”, diz ao site de VEJA Henrique Altemani, professor de Relações Internacionais da PUC e coordenador do Grupo de Estudos Ásia Pacífico. Segundo ele, é provável que, com a morte de Kim Jong-Il, acentue-se o embate de poderes entre a família dele, o Partido Trabalhista e o Exército norte-coreano. “Essa disputa teve início em 2008, logo que Kim Jong-Il começou a ter problemas de saúde. O reflexo dela é instabilidade, principalmente regional”, destaca. Há quem aposte que Kim Jong-un deve seguir a lógica de mão de ferro do pai, e que sua inexperiência possa tornar o regime ainda mais fechado. Mas o professor Gilberto Masiero, da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) e membro do Grupo de Estudos de Ásia-Pacífico da PUC-SP, discorda: “Com a crise internacional americana e a desordem europeia, a Ásia está muito mais integrada, econômica e politicamente. Com isso, há uma pressão para que a Coreia do Norte passe por transições de governança, a exemplo do Vietnã e da China”.

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A dificuldade de consenso em torno de Kim Jong-un se deve, principalmente, à falta de informações mais básicas a seu respeito. “Se nem sua idade sabemos ao certo, quanto mais o grau de preparação que ele tem para governar. Ele pode ou não estar intimamente envolvido nas questões políticas do país, tanto ao lado dos apoiadores do pai, quanto dos países amigos. É tudo pura especulação”, afirma Masieiro. “Não temos qualquer conhecimento sobre os pensamentos de Kim Jong-un. Mas, aparentemente, ele não está preparado para assumir o poder: além de não ter carisma, parece não ter liderança política”, completa Altemani. Por isso, o mais provável é que o jovem – que, até onde se sabe, tem menos de 30 anos – precise do respaldo de algum político para conseguir governar. Um dos mais cotados para ser seu “conselheiro” é Jang Song-Thaek, cunhado de Kim Jong-Il e vice-presidente da poderosa Comissão de Defesa Nacional. “Ele já vem coordenando a política norte-coreana através dos laços de amizade que mantinha com Kim Jong-Il. No entanto, o Exército também deve ter grande influência no mandato do sucessor”, ressalva Masieiro.

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Instabilidade – Com experiência ou não, a tarefa que Kim Jong-un tem pela frente não é nada fácil. A Coreia do Norte enfrenta problemas de fome contínua e crise econômica desde o início na década de 1990, quando a China e a União Soviética estabeleceram relações com a Coreia do Sul e assumiram o compromisso de cessar o apoio a Pyongyang. “O regime norte-coreano não respondeu com transformações, mas isolamento. E usou o seu secreto programa nuclear como moeda de chantagem e negociação”, lembra Henrique Altemani. E depois da Guerra Fria, o quadro só piorou, com a perda de todo o mercado. “Até a década de 1970, a economia do país era mais desenvolvida do que a da Coreia do Sul”, salienta o professor.

Desde aquela época, dois fatores atrapalham o avanço da Coreia do Norte. Um deles é a falta de vontade do próprio regime em flexibilizar o sistema politico interno. Em 2002, um passo foi dado para a abertura econômica: a Coreia do Norte se mostrou disposta a adaptar seu sistema nos moldes das reformas chinesas de modernização. Porém, o sistema político continuou intacto. Com a morte de Kim Jong-Il, esse quadro pode mudar, mas vai depender das disputas políticas pelo poder. “A família do ditador, o Partido Trabalhista ou as Forças Armadas não deram qualquer sinalização de que pretendem mudar algo”, aponta Altemani. Outro entrave é a ausência de vontade política internacional em cooperar com o país. “Com a crise financeira internacional, essa atitude dos países estrangeiros deve permanecer. O alto custo que envolve essa ajuda não lhes interessa”, avalia o especialista.

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Programa nuclear – A cooperação econômica internacional com a Coreia do Norte está quase sempre condicionada à promessa de abandono das relações nucleares, em troca da importação de grãos, por exemplo. Mas, desde que Lee Myung-Bak assumiu a Presidência do Sul, em 2008, as relações entre as Coreias estão cada vez mais tensas. Neste ano, Pyongyang se mostrou disposta a retomar o diálogo em troca de ajuda externa, mas agora, com a troca de poder no país, abriram-se novas incertezas sobre a “desnuclearização” do regime. “O único trunfo politico da Coreia do Norte é sua possível ‘ameaça nuclear’. Se o programa for descontinuado, a Coreia do Norte perde uma grande ferramenta de negociação. O interesse continuará em transformar ameaças em cooperação”, explica Altemani.

“É uma poderosa ferramenta de barganha, garantida pelo sigilo do programa nuclear do país e usada para acertos de contas históricos”, acrescenta Gilberto Masiero, destacando que, mesmo que o novo líder tente chegar a uma solução, as negociações de paz das quais participam seis países – Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, China, Estados Unidos e Rússia – dificilmente chegarão a um acordo rapidamente. “Esta é uma questão que deve ser resolvida internacionalmente e depende de interesses muito diversos. Por mais que a Coreia do Norte dê sinais de que quer dialogar, qualquer decisão que beneficie EUA e Coreia do Sul complicaria suas relações com China e Rússia. Quase 60 anos de tentativa de acordo não serão resolvidos em 5”, enfatiza.