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Fogo de palha ou surto de hashtag?

Três filtros para momentos em que não dá para acreditar em ninguém

Num mundo em que nem os números, ou nem sequer os satélites, são confiáveis, muitíssimo menos os governos, ai de nós que queremos formar uma ideia sobre acontecimentos importantes, ainda que apenas modestamente parecida com a realidade. A Amazônia está pegando fogo inteirinha, como aparece naqueles mapas em que os focos são colocados em tamanho perceptível aos olhos, mas evidentemente não compatível com o da vida real? Os incêndios aumentaram 1 quatrilhão por cento? A culpa é de Jair Bolsonaro? Para facilitar um pouco a vida dos obcecados que têm mania de fazer perguntas e não esperar respostas fáceis, alguns filtros podem ser aplicados, em várias situações, na tentativa de distinguir fatos e suas infinitas interpretações.

1. Fator hashtag. Está bombando nas redes sociais e não é um gatinho adorável? Desconfie, desconfie muito. É bom ter um canal para expressar sentimentos e opiniões. #metoo, #timesup, #EleNão, #EleSim ou #prayforamazonia são exatamente isso. Servem, dessa forma, para avaliar humores emocionais, não como um prognóstico infalível. Outra pequena dica: gente que nunca rezou por nada e de repente se prostra diante do divino por causa da floresta é como certos candidatos que vão à missa e até comungam em véspera de eleição. Comunista na igreja, só na Itália.

“Está bombando nas redes sociais e não é um gatinho adorável? Desconfie, desconfie muito”

2. Fator fofura. Apresentadores ou influenciadores se emocionam e ficam com a voz embargada? Estão tratando de Greta Thunberg, a adolescente sueca em que tantos adultos querem acreditar, ou de macaquinhos indianos chamuscados e transportados por pensamento mágico para a floresta brasileira. Os ultrassensíveis, programados, como todos os humanos, para se comover com filhotes de mamíferos, moram bem longe dela. De perto, independentemente de sua importância e de seus prodígios, as florestas sempre foram fonte de temor. Nelas reinavam, de acordo com a geolocalização, ursos, tigres, serpentes, sátiros, a bruxa de Joãozinho e Maria, a Bruxa de Blair e outras metáforas para os terrores do inconsciente. Os versos de abertura de Dante em A Divina Comédia ainda comandam, 700 anos depois, o poderoso arquétipo: “No meio do caminho de nossa vida / Encontrei-­me numa selva obscura / Que a estrada reta fora perdida”. Ah, sim, se aparecer alguém usando cocar, a coisa está perdida. Índios não usam cocar no dia a dia, exceto para efeitos midiáticos.

3. Fator uma semana. Passaram-se sete dias e o acontecimento, sem ter mudado em sua essência, sumiu do mapa? O efeito manada pode ter tido alguma influência, seja para “a semana em que Donald Trump se enterrou” (praticamente todas), seja para a derrocada final do Brexit. O teste tem outras utilidades. Depois do pico do fogo de palha, existe uma tendência a falar mais francamente. O presidente Bolsonaro, por exemplo, resumiu sua opinião: o maior problema é a extensão das demarcações de territórios indígenas. Paranoia de militares? Registrem-se as manifestações a favor do “intervencionismo ambiental”. Escreveu um valente professor americano, Lawrence Douglas, comparando-o ao intervencionismo humanitário: “A comunidade internacional precisa assumir a responsabilidade — não, em primeira instância, aplicando a força militar, mas através de sanções comerciais e boicotes econômicos”. Por incrível coincidência, 46 deputados e dezessete ONGs da França propuseram sanções contra a soja e a carne importadas do Brasil. Não é só aqui que tem bancada ruralista.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651