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Exército egípcio é impotente ante a instabilidade no Sinai

Região dominada por beduínos armados é local estratégico para vários crimes

A multiplicação de sequestros de turistas na península do Sinai, como o das duas turistas brasileiras neste domingo, é um exemplo da incapacidade do poder militar egípcio de estabelecer sua autoridade nessa região, um ano após a queda de Hosni Mubarak. Os beduínos estão tomando cada vez mais espaço no Sinai, a exemplo também do cerco que o grupo impôs recentemente a um campo de uma força internacional de paz.

Neste domingo, duas turistas brasileiras e seu guia egípcio foram sequestrados por beduínos no caminho do mosteiro de Santa Catarina, o que constitui o terceiro incidente desse tipo na região desde o início de fevereiro.

Os beduínos sitiaram durante oito dias o campo da Força Multinacional de Observadores no Sinai (FMO) e levantaram o cerco na sexta-feira, dando um mês às autoridades para libertar membros de suas tribos, alguns acusados de terrorismo. O exército prometeu examinar os pedidos.

Os terroristas também tentaram recentemente atacar a polícia, assim como trabalhadores estrangeiros, retidos por longas horas, ao mesmo tempo em que foi sabotado por 13 vezes, em um ano, o gasoduto que alimenta Israel.

Local – O Sinai, onde estão concentrados os pontos turísticos mais lucrativos do Egito, é povoado em grande parte por beduínos, que durante muito tempo foram negligenciados pelo regime de Hosni Mubarak. Após participarem com suas armas da revolta que derrubou o ditador, eles acreditam que não foram beneficiados com a saída de Mubarak.

A península representa, além disso, uma rota de passagem para o tráfico de drogas e de pessoas, além da imigração clandestina para Israel e do contrabando de armas para a Faixa de Gaza. É utilizada ainda como base para atentados contra Israel.

O Exército, no poder desde a queda de Mubarak, encontra dificuldades para tirar os grupos radicais dessa região desértica e montanhosa, onde a população beduína possui armas pesadas. Outro problema é a escassez de soldados devido à desmilitarização do setor, prevista pelo acordo de paz egípcio-israelense. Após uma tentativa no ano passado, o exército tenta, hoje, a negociação com essa parte da população local e os islamitas radicais.

Violência – Durante décadas, a solução militar agravou o problema. Entre 2004 e 2006, dezenas de turistas foram mortos em atentados e as forças de Mubarak detiveram milhares de beduínos, sendo que alguns foram torturados, segundo ONGs. “A raiz dos atritos no Sinai remonta há muitos anos, e a autoridade do governo sempre foi fraca lá”, afirma Michael Wahid Hanna, um especialista egípcio do centro de estudos americano The Century Foundation. “Há um certo grau de discriminação, uma relação de diversidade com os beduínos”.

O Egito conta com o turismo nessa península para ter dinheiro em caixa. Mas os beduínos, que são menos da metade dos cerca de 500.000 moradores da região, aproveitam pouco. Em geral, são pobres e analfabetos. “As autoridades dizem que o Sinai é egípcio, mas não acho que elas acreditem nisto realmente”, afirma o militante beduíno dos direitos humanos Yahya Abou Nasira, que ficou preso durante 30 meses durante a era Mubarak. “Elas duvidam sempre de nossa lealdade”. “Nada aconteceu desde a revolução. A situação até se deteriorou. O Sinai é um navio sem capitão”, lamenta Abu Nasira.

(Com agência France-Presse)