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Exclusivo: Barack Obama fala a VEJA

Obama e sua circunstância: um presidente tranquilo de um país nem tanto em meio a um mundo que passa por ferozes transformações e constantes crises

Por André Petry - 19 mar 2011, 07h42

Uma semana antes de embarcar para o Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, concordou em dar uma entrevista exclusiva a VEJA. Obama pediu que ela fosse feita por escrito. A revista enviou-lhe catorze perguntas e ele escolheu nove para responder. Entre as questões excluídas estavam algumas de cunho pessoal, como a que pedia as impressões do Brasil que lhe ficaram gravadas na memória quando, na juventude, assistiu, ao lado de sua mãe, à fita Orfeu Negro, de 1959, filmada durante o Carnaval do Rio de Janeiro. Obama também preferiu evitar uma pergunta bem-humorada: “De que adianta ser o homem mais poderoso do planeta se não pode fumar um cigarrinho no Jardim das Rosas, na Casa Branca?”. Ele, no entanto, não se furtou a comentar o que espera do julgamento que os historiadores farão de seu governo daqui a 100 anos. Confira a seguir trechos da entrevista, cujas respostas foram enviadas a VEJA na tarde desta sexta-feira, horas antes do embarque para Brasília na base aérea de Andrews, em Washington.

Primeiro, a pergunta que não quer calar: os Estados Unidos estão mesmo em declínio ou é sua posição relativa que parece menos importante pela ascensão de outros países? Não estamos em declínio. Ao contrário. Nossos melhores dias ainda estão por vir. Os fundamentos dos Estados Unidos permanecem sólidos – a produtividade do trabalhador americano, o espírito inovador dos nossos empreendedores e empresas, a excelência das nossas universidades, que atrai estudantes de todas as partes do mundo, e a missão dos nossos homens e mulheres de farda, que garantem a segurança e a estabilidade internacionais. Além disso, em um momento em que enfrentamos desafios comuns, como crescimento econômico, mudança climática e a não proliferação de armas nucleares, as relações entre as nações não precisam ser um jogo de soma zero. É do interesse americano que mais países venham a contribuir para a segurança e a prosperidade globais. Essa é a razão pela qual não apenas aceitamos a ascensão de países como o Brasil, mas achamos que é bem-vinda.

Ouve-se com certa frequência que a ascensão do Brasil está mudando os cálculos da política externa no mundo. O senhor concorda com isso? Os Estados Unidos mantêm uma relação próxima e dinâmica com o Brasil. Nosso trabalho conjunto com o país, sempre ancorado em valores comuns, tem sido crucial para a segurança nacional dos EUA e para a construção de um futuro melhor, seja na promoção de direitos humanos, fortalecimento do desenvolvimento econômico, combate à mudança climática, seja na ajuda às nações necessitadas. E, indo mais longe, gostaríamos de cooperar ainda mais com o Brasil tanto na região como no mundo. A experiência brasileira oferece lições importantes aos países que estão enfrentando transformações de caráter político e econômico. Uma das razões pelas quais vemos com bons olhos a ascensão do Brasil é o fato de que temos valores comuns, como democracia e inclusão social. Num mundo dinâmico como o nosso, é uma satisfação ter a oportunidade de trabalhar com a presidente Rousseff e seu governo para ajudar a construir um planeta mais estável, próspero e democrático, no qual as necessidades básicas dos povos sejam atendidas.

Nas últimas semanas, o arcabouço que sustentava os interesses dos Estados Unidos numa região vital como o Oriente Médio simplesmente se desmanchou. O governo americano acompanhou tudo com estridente silêncio. Foi estupor, prudência ou receio de piorar mais as coisas caso se pronunciasse? Os acontecimentos no Oriente Médio trazem desafios e oportunidades históricas para os Estados Unidos e, mais significativamente, para os povos da região. Desde o início, nosso comportamento se baseou num conjunto de valores fundamentais. Somos contra a violência e a repressão. Buscamos promover um conjunto de valores universais, que incluem liberdade de expressão, de reunião e de voto. Apoiamos mudanças políticas que promovam sociedades mais arejadas e governos mais permeáveis às aspirações dos seus povos. Desde o começo dos movimentos por mudança no Oriente Médio e no norte da África, temos defendido esses valores sem cessar e vamos continuar a fazê-lo. Mas é importante considerar que são movimentos nacionais, que surgiram de dentro. Não cabe aos Estados Unidos impor mudanças. Os povos da região é que estão lutando por seus direitos universais, e isso é positivo.

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Leia a entrevista completa em VEJA desta semana.

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