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Ex-premiê espanhol questiona intenções dos governos da Espanha e de Cuba em relação aos dissidentes

Vinte presos políticos cubanos foram levados a Madri depois de serem libertados pelo regime de Raúl Castro

“Há coisas que não se negocia”, disse o ex-primeiro-ministro espanhol, José María Aznar

O ex-primeiro-ministro da Espanha José María Aznar acusou Cuba de “oportunismo” e criticou a atitude do atual governo espanhol, de tentar aliviar a posição da União Europeia em relação à ilha, após a libertação de presos políticos que a ditadura cubana vem empreendendo. As declarações foram feitas depois de um encontro, na última quarta-feira, entre o conservador e 15 dos 20 dissidentes que estão na Espanha devido a um acordo entre Cuba e a Igreja Católica, com mediação espanhola. Aznar, obviamente, tem interesse em criticar as ações do governo socialista de seu país, ao qual faz oposição. Mas isso não invalida suas críticas que, na verdade, foram certeiras. “Há coisas que não se negocia”, disse Aznar, em referência aos direitos humanos e à tentativa das duas administrações, a espanhola e a cubana, de relativizá-los.

Para Aznar, a libertação dos cubanos não representa nem um gesto de abertura nem a intenção de democratização. Por isso, ele também criticou a atitude do governo espanhol, de propor o relaxamento da Posição Comum Europeia, que, desde 1996, condiciona as relações dos europeus com Cuba ao respeito dos direitos humanos na ilha.

Na semana passada, o chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos, disse que a decisão de Raúl Castro de libertar presos políticos autorizava uma revisão da Posição Comum. Aznar insistiu, no entanto, que o gesto de Cuba não significa mais respeito aos direitos humanos. Ao contrário, o regime castrista estaria usando seus presos políticos como “moeda de troca” para conquistar a simpatia internacional.

Os motivos de Cuba – Segundo analistas ouvidos por VEJA.com, a crescente pressão externa sobre a questão dos direitos humanos é justamente uma das principais razões para o governo Raúl Castro ter permitido a soltura dos presos políticos. “O principal interesse do governo cubano é evitar que as críticas da comunidade internacional aumentassem com a morte do dissidente Orlando Zapata [em fevereiro deste ano, após 85 dias em greve de fome] e com a greve de fome de Guillermo Fariñas” [ que encerrou o protesto após a notícia da libertação dos presos políticos], disse Alberto Pfeifer, integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (Gacint – USP).

O especialista classifica o fato como uma vitória de dois cidadãos, que conseguiram dar visibilidade à causa dos direitos humanos. Para o regime, no entanto, a situação era insustentável. “No limite, condenações adicionais pela comunidade internacional poderiam gerar novas sanções econômicas e políticas ao país”, completou Pfeifer.

O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia ressalta que, apesar de ter vivido anos no isolamento, a economia de Cuba experimenta hoje um dos momentos mais difíceis, com altos índices de desemprego. “Aparentemente, Cuba vive a pior situação econômica nos 50 anos regime. O país precisa romper o isolamento”, disse. “Mas, trata-se de um governo muito misterioso, não é possível saber exatamente o que vem pela frente. Eu creio que o Raúl Castro percebeu que é preciso dar espaço, mas Fidel, que é um ditador de pedra, não quer a abertura”.

Os motivos da Espanha – O fundador e vice presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI ), Roberto Teixeira da Costa, acredita que a intenção da Espanha no caso era se beneficiar politicamente. Para ele, a participação foi inócua e tardia. “Houve um certo oportunismo por parte da Espanha, não há dúvida nenhuma. Quando a bola aparece na marca do pênalti, a pessoa vem e chuta no gol”, afirmou o analista, que também integra o Gacint.

Lampreia atribuiu o sucesso da negociação à Igreja Católica. “O governo Espanhol entrou em fase conclusiva. Teve um peso, mas acredito que o mérito é da Igreja”, concluiu.