Ex-combatentes islâmicos argelinos pedem reconhecimento

Por Por Abdellah CHEBALLAH - 1 jul 2012, 19h19

Cinquenta anos após a independência da Argélia, ex-combatentes islâmicos da guerra de libertação contra a França criticam com veemência seus líderes, acusando-os de não reconhecerem seus esforços e de sufocarem a liberdade pela qual lutaram.

“Nós conquistamos a independência, mas ainda esperamos a liberdade”, declarou Abdelmadjid Azzi, ex-combatente da Wilaya III, em Kabylie, região montanhosa do leste de Argel que abrigou importantes bases do Exército de Libertação Nacional (ELN).

“Acreditávamos que a Argélia seria um país democrático onde os cidadãos poderiam se manifestar livremente. Os homens que pegaram em armas contra a França e a população, que carregavam o peso da guerra, foram afastados” das decisões políticas, lamenta Azzi.

Várias importantes figuras da luta pela independência não ocupam cargos políticos desde 1962, apesar de a maior parte ter participado da luta pelo poder entre o Estado-Maior geral (EMG), o comando do ELN e o governo provisório da República Argelina (GPRA), que conduziu as negociações com a França.

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“Um golpe de Estado comprometeu a legitimidade do GPRA e, depois, foi o mesmo clã (o EMG) que imperou no país depois de ter confiscado a independência da Argélia”, afirmou Azzi.

A ex-combatente Louisette Ighilhariz fez as mesmas considerações: meio século depois da independência, “o país está entregue a um governo ruim e à corrupção”.

Esta septuagenária que relançou em 2000 o debate sobre a tortura durante a guerra da Argélia (1954-1962) considera exagerada a influência que alguns entendem que os mujahedines possuem nos centros de decisão.

“Não acho que os mujahedines têm influência. Eles raramente são solicitados quando se trata de tomar decisões importantes para o futuro do país”, acrescentou.

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Em abril, uma importante figura da luta pela independência, Djamila Bouhired, havia desencadeado uma polêmica ao revelar a sua incapacidade de satisfazer as suas necessidades, assim como muitos ex-combatentes independentistas que sobrevivem com uma “pensão irrisória”.

Bouhired, heroína da Batalha de Argel, se queixou ao jornal El Watan da falta de dinheiro para tratar uma doença no coração em Paris, mesmo que as convenções bilaterais vinculem as previdências sociais argelina e francesa desde 1981.

Com cerca de 45.000 dinares (450 euros) de pensão, eles são beneficiados por vantagens concedidas pelo Estado, principalmente a prioridade para conseguir um emprego e licenças para importações de veículos a taxas baixas.

Segundo a Organização Nacional dos Mujahedines (ONM), cerca de 100.000 ex-combatentes estão vivos.

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Esta poderosa organização, muito ligada ao poder, continua sendo a ponta de lança da “família revolucionária”, expressão usada para designar os partidos políticos e organizações que se dizem herdeiras da revolução de 1º de novembro de 1954.

Benyoucef Mellouk, ex-alto funcionário do Ministério da Justiça, revelou em 1992 a existência de “falsos mujahedines”, que haviam falsificado documentos para obter o status de ex-combatente.

Segundo a imprensa, eles seriam de 10.000 a 20.000.

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