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Eufóricos, egípcios celebram “vitória do povo”, “presente de Deus” e até casamentos

Após 18 dias de protestos, otimismo toma conta da praça Tharir

Por Nana Queiroz 11 fev 2011, 18h14

“É nosso dia de vitória, muçulmanos ou cristãos”

Nouran Salah, ativista muçulmana

O advogado Ibrahim El Said, 33 anos, deparou-se com uma cena inusitada ao sair às ruas para se juntar à multidão que celebrava a renúncia do ditador Hosni Mubarak nesta sexta-feira. Um casal de noivos, seguido pelos convidados do casamento, desfilava pelas ruas do Cairo, misturando-se à multidão extasiada. “Tem até duas pessoas se casando!”, El Said conta à reportagem, por celular. “Quer um gostinho do Egito hoje? Ouça”, diz, fazendo o aparelho captar as buzinas, os gritos de viva e o barulho de fogos de artifício.

El Said participou de duas manifestações nesses 18 dias de revolta no Egito. “A violência era tremenda, principalmente contra os jornalistas estrangeiros”, conta. Agora, o medo desapareceu. “Até crianças estão na rua comemorando, todos a caminho da praça Tahrir (Libertação).”

O advogado, como grande parte dos egípcios, assistiu à notícia da renúncia de Mubarak pela televisão. Diz estar feliz com a solução encontrada e ter certeza de que as Forças Armadas são a instituição “mais adequada para preparar o Egito para as eleições”. Mas adverte: “que eles não tentem ficar por mais de seis meses”.

Em uma comemoração muito diferente da El Said, o gestor de investimentos Bakr Abdel-Wahad, 33 anos, se reúne em casa, longe do centro do Cairo, com cinco amigos. Compartilha do otimismo de El Said. “Agora nada de mal pode acontecer, é a voz do povo que comandará”, diz. “Acreditamos que o Exército não tenha a intenção de ficar, e que vá fazer uma transição inteligente”, completa. De sua televisão, Abdel-Wahad vê “todas as classes e religiões reunidas” em uma única celebração. “É como se tivéssemos ganhado a Copa do Mundo”.

Camelos e cavalos – Depois de protestar todos os 18 dias, a universitária Nouran Salah, 21 anos, soube da renúncia durante mais um ato contra regime de Mubarak. “Recebemos a notícia como um presente de Deus, e todos gritavam sem parar ‘Deus é grande, Deus é grande'”, conta.

Nouran lembra momentos em que duvidou da vitória do movimento. “A coisa mais assustadora pela qual passei foi correr de camelos e cavalos pelas ruas”, diz. “Ficamos todos horrorizados. A polícia atirou contra nós. Tenho amigos que foram machucados seriamente por balas de borracha. Mas nada disso importa agora.” Diferente de El Said, Nouran não se espanta mais com noivas perambulando pelo Cairo. “Dezenas de pessoas escolheram essa ocasião para celebrar sua união”, conta.

Nouran é muçulmana, mas não acredita que a população queira ver no poder a Irmandade Muçulmana, organização fundamentalista que estava banida. “Não desejamos que os cristãos tenham sua voz sufocada. Queremos uma sociedade em que cada cidadão egípcio tenha seu papel. É nosso dia de vitória, muçulmanos ou cristãos”.

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