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EUA precisam fazer dever de casa antes de cobrar o Brasil, diz negociador

Após exigência pelo fim do desmatamento ilegal, secretário do Itamaraty diz que deveres ambientais devem ser compartilhados igualmente por todos os países

Por Julia Braun Atualizado em 30 mar 2021, 16h45 - Publicado em 31 mar 2021, 08h00

Diante das cobranças do novo governo dos Estados Unidos por um maior comprometimento brasileiro com o fim do desmatamento, o Itamaraty alerta que os americanos também têm suas próprias metas e desafios a serem cumpridos quando o tema é proteção ambiental. “Vários dos países que estão fazendo cobranças ao Brasil têm um enorme dever de casa a fazer em termos de redução do consumo de combustíveis fósseis e emissões”, diz o secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas do Ministério de Relações Exteriores, Pedro Miguel da Costa e Silva.

Em entrevista a VEJA, o diplomata que é um dos principais atores na relação bilateral com Washington afirmou que as conversas travadas até o momento com os americanos foram muito construtivas e baseadas no diálogo. “Não se trata de ameaçar ou cobrar, mas sim de conversar”, diz o embaixador. “Sobretudo porque o próprio [enviado especial dos EUA para mudanças climáticas] John Kerry reconheceu que os americanos partem de um lugar que não é dos mais confortáveis”.

Para Costa e Silva, é preciso que as responsabilidades pelo combate à mudança climática sejam compartilhadas igualmente por todos. “Não basta  cobrar do Brasil o fim do desmatamento ou das queimadas”, diz. “Os próprios americanos estavam fora do Acordo de Paris até o ano passado e têm muito dever de casa a fazer para poder adotar metas ambiciosas”.

Nesta segunda-feira 29, Washington fez sua cobrança pública mais enérgica por proteção ambiental no Brasil desde que o novo presidente Joe Biden assumiu o cargo em janeiro. Em conversa com jornalistas, um integrante do Departamento de Estado americano disse que a Casa Branca espera demonstrações fortes e rápidas de que pode construir uma relação de confiança com o governo de Jair Bolsonaro neste tema.

Os americanos pedem ações concretas imediatas, com resultados palpáveis ainda neste ano. A longo prazo, o objetivo é garantir que a administração brasileira acabe totalmente com o desmatamento ilegal no país até 2030.

“Esperamos que os americanos não se esqueçam da parte deles em termos de financiamento para ajudar que outros países como o Brasil cumpram com as suas metas”, diz o diplomata brasileiro. “Buscamos cooperação, colaboração e trabalho conjunto, não só cobranças”.

Em sua conversa com jornalistas, Washington confirmou que o Brasil poderá ser recompensado financeiramente pelos avanços conquistados. A ideia é realizar os pagamentos a partir dos resultados, e não fazer investimentos adiantados.

Dados de monitoramento por satélite divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a taxa de desmatamento na Amazônia aumentou 34% em 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Essa foi a segunda alta consecutiva nos primeiros dois anos de gestão do presidente Jair Bolsonaro.

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Já os Estados Unidos são o segundo maior emissor de dióxido de carbono do mundo, atrás apenas da China. Em 2017, o ex-presidente Donald Trumo retirou o país do Acordo de Paris para o clima. Porém, em sua primeira medida após assumir a Casa Branca, Biden reverteu a decisão e se comprometerem com metas de zero emissão líquida (de carbono) em suas atividades até 2050.

“O Brasil tem uma matriz energética limpa, uma cobertura em termos de floresta que nenhum outro país do mundo tem e uma série de vantagens na área ambiental que precisam ser reconhecidas”, afirma Pedro Miguel da Costa e Silva. “Esperamos que os americanos também façam a parte deles”.

Comércio e democracia

Jair Bolsonaro e Joe Biden
Jair Bolsonaro e Joe Biden Alan Santos/ PR e Jim Watson/AFP

Desde que Biden chegou a Casa Branca, o Itamaraty já realizou encontros virtuais com representantes americanos. Nestas reuniões foram discutidas, além das questões ambientais, temas como comércio, democracia e estabilidade na América do Sul e novos acordos de cooperação.

A manutenção do apoio à entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), efetivada pela primeira vez pelo governo Trump, foi um dos tópicos abordados, mas de forma apenas preliminar. “Esperamos continuar contando com o apoio americano”, afirma Pedro Miguel da Costa e Silva.

“Já começamos a conversar também sobre a situação na Venezuela e continuamos com um amplo espaço para diálogo”, diz. “A visão de que temos que trabalhar para uma transição democrática e eleições justas permanece a mesma”.

A relação entre o Brasil e os Estados Unidos se tornou mais complexa desde que Biden assumiu o cargo. O governo de Bolsonaro mantinha uma relação próxima com seu antecessor, Donald Trump, e chegou inclusive a apoiar as contestações falsas do republicano sobre o resultado das eleições. O presidente brasileiro ainda é considerado no exterior um líder sem compromisso com a proteção do ambiente, posição que entra em conflito direto com as metas do governo Biden.

Para o secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas do Itamaraty, a mudança do comando em Washington não afetará em nada a continuidade das boas relações, assim como a recente troca na chefia do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. “A relação é entre os países, não entre os governos. As linhas de força e a continuidade das relações não dependem da mudança de governo”, diz.

O diplomata alerta, porém, que é preciso olhar para a relação com realismo. A América Latina e o Caribe nunca foram a prioridade número um dos Estados Unidos, e isso não mudará com a chegada de Biden. “Não podemos criar expectativas que não são razoáveis”, diz.

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