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Estudo revela que 23 países podem perder metade da população até 2100

Pesquisadores da Universidade de Washington observam queda preocupante na taxa de fertilidade, o que pode complicar o futuro da espécie humana

Por Ricardo Ferraz - Atualizado em 15 jul 2020, 16h16 - Publicado em 15 jul 2020, 13h36

Um estudo do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington traz uma revelação surpreendente e preocupante para o futuro da humanidade: o mundo está prestes a viver uma mudança profunda nas taxas de fertilidade, o que pode fazer a população de quase todos os países cair até o final do século. 

O estudo publicado nesta quarta-feira, 15, no prestigiado jornal científico The Lancet mostra que a taxa de fertilidade global, que já vinha em ritmo de queda, atingiu o índice de 2,4, em 2017. O número era de 4,7, em 1950. A taxa de fertilidade calcula o número médio de filhos aos quais uma mulher dá à luz.

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Segundo a pesquisa, se a taxa cair abaixo de 2,1, a população no mundo começa a diminuir. Matematicamente, a quantidade de habitantes no planeta permaneceria estável, já que cada casal teria dois filhos. Na prática, porém, o que se observa é um declínio porque a quantidade de mortes – em decorrência de doenças ou causas externas – costuma superar a quantidade de nascimentos.

O colapso global do nascimento de crianças pode fazer com que 23 países tenham suas populações reduzidas pela metade até 2100. Entre eles, estão algumas das nações mais desenvolvidas do mundo. 

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“Isso é uma coisa muito grande; a maior parte do mundo está em transição para o declínio natural da população”, disse o pesquisador Christopher Murray à BBC, “Teremos que reorganizar as sociedades”, completa.

Prevê-se que a população do Japão caia de um pico de 128 milhões em 2017 para menos de 53 milhões no final do século. Espera-se que a Itália veja um declínio populacional igualmente dramático, de 61 a 28 milhões no mesmo período. País mais populoso do mundo, a China deve atingir 1,4 bilhão de pessoas dentro de quatro anos, antes de cair pela metade para 732 milhões em 2100. Espanha, Coréia do Sul e Portugal devem viver fenômenos semelhantes.

Já o Brasil, segundo o estudo, atingirá um pico populacional de 235 milhões de habitantes em 2043 e terminar o século com 165 milhões de pessoas. No total, 183 dos 195 países do mundo terão uma taxa de fertilidade abaixo do nível de reposição.

Motivos para a queda

A taxa de fertilidade está caindo por uma série de fatores. Em resumo, a vida moderna trouxe mais educação, incluiu a mulher no mercado de trabalho e permitiu um maior acesso aos métodos contraceptivos. Durante as últimas décadas, a queda nas taxas de natalidade contribuiu positivamente para o desenvolvimento dos países.

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A inversão da pirâmide etária, em que a quantidade de pessoas jovens vai, aos poucos, se tornando semelhantes à população idosa, promove janelas de oportunidades, reduzindo a pressão sobre o estado por políticas sociais. O sistema de previdência é um exemplo clássico: durante algumas décadas a quantidade de trabalhadores da ativa se torna maior que o de pessoas que recebem os benefícios, o que ajuda a abastecer os cofres. Com o tempo, porém, a equação se inverte.  Sem gente para produzir e com muitos idosos para sustentar, os impactos econômicos são significativos.

Nesse sentido, alguns dados do estudo que apontam para o envelhecimento da população tornam o quadro ainda mais dramático: o número de menores de cinco anos cairá de 681 milhões em 2017 para 401 milhões em 2100 e a quantidade de pessoas com mais de 80 anos passará de 141 milhões para 866 milhões no mesmo período.

Enquanto o Brasil ainda atravessa a janela de oportunidade, o envelhecimento da população e a baixa taxa de fertilidade já são problemas reais nos países desenvolvidos. Até o momento, a imigração foi a maneira encontrada para garantir a reposição de mão de obra no mercado de trabalho. Alguns países também lançaram mão de políticas como ampliação de licença maternidade e paternidade, assistência infantil gratuita e incentivos financeiros para casais engravidarem, mas elas ainda não trouxeram resultados à altura do problema. A Suécia elevou sua taxa de fertilidade de 1,7 para 1,9. Cingapura ainda tem uma taxa de fertilidade em torno de 1,3.

Se nada for feito sobre o tema, os pesquisadores projetam uma situação catastrófica em um futuro distante: “Se você não consegue [encontrar uma solução], eventualmente a espécie desaparece, mas isso é daqui a alguns séculos”, diz Murray.

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A reposição de seres humano no mundo, se tornará cada vez mais dependente do continente africano. A população da África Subsaariana deverá triplicar de tamanho para mais de 3 bilhões de pessoas até 2100. o estudo projeta que a Nigéria será o segundo maior país do mundo, com uma população de 791 milhões, atrás da Índia que terá 1,09 bilhão de pessoas.

Como os movimentos de crescimento e o declínio de habitantes é desigual entre os países, não há como atacar o problema sem considerar a possibilidade de uma redistribuição de pessoas em idade ativa ao redor do globo, dizem os especialistas. “Mesmo se essas previsões forem nem metade exatas, a migração se tornará uma necessidade para todas as nações e não uma opção”, disse o professor Ibrahim Abubakar, da University College London (UCL), à BBC.

Um desafio a mais, já que a humanidade terá de enfrentar questões sempre presentes ao longo de sua história, mas nunca verdadeiramente apaziguadas: racismo, xenofobia e intolerância religiosa.

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