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Estudantes e governo de Hong Kong aceitam dialogar

Reuniões serão abertas à imprensa e serão conduzidas por Carrie Lam, número dois do governo local. Manifestantes entraram em confronto com grupos rivais

Por Da Redação 3 out 2014, 07h29

A Federação dos Estudantes de Hong Kong aceitou na madrugada desta sexta-feira discutir suas reivindicações com o governo da ex-colônia britânica após seis dias de protestos que pedem mais democracia, reporta a rede britânica BBC. Em comunicado, os representantes estudantis indicaram que vão se encontrar publicamente com Carrie Lam, secretária-chefe da Administração da cidade, poucas horas depois de o chefe do executivo, Leung Chun-ying, garantir que não renunciaria ao cargo, como exigem os estudantes, mas apresentaria uma alternativa de diálogo.

Apesar de concordarem com a reunião com Carrie, a federação reiterou que Leung deveria deixar o governo. “Leung perdeu toda sua integridade e traiu a confiança que as pessoas tinham nele. Não só negou ao povo uma autêntica reforma política, mas ordenou uma repressão violenta com gás lacrimogênio contra os manifestantes pacíficos”, disseram os estudantes no comunicado. “Agora, o centro do debate deve ser a reforma política”, ressaltaram os líderes estudantis em resposta à oferta de negociação, além de alertarem que não encerrarão os protestos até verem “um legítimo sufrágio universal”.

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Leung disse em entrevista coletiva na noite de ontem que havia nomeado a número dois do governo local, Carrie, para que dialogar com representantes dos estudantes e discutir uma reforma constitucional. No entanto, afirmou que esse diálogo seria dentro dos parâmetros da reforma eleitoral aprovada pelas autoridades chinesas. Suas declarações foram recebidas com uma mistura de rejeição e desconfiança por parte dos manifestantes. A federação se apressou para pedir que a conversa seja aberta à imprensa, algo aceito pelo governo na madrugada.

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Enquanto isso, nos arredores da sede do governo, centenas de cidadãos recebiam com vaias as declarações de Leung. Alguns o acusavam de ganhar tempo e não tomar decisões. Outros, mais revoltados, mencionaram bloquear vias e estradas, mas foram contidos pela maioria com o argumento de que esse era o objetivo das autoridades. A aparição de Leung, acompanhado de Carrie, ocorreu no final do quinto dia de protestos em Hong Kong. Os estudantes exigem uma eleição realmente democrática do próximo chefe executivo da cidade, em 2017, e ameaçam bloquear o centro administrativo e financeiro da ex-colônia britânica.

O status de Hong Kong

Ex-colônia britânica, Hong Kong passou a ser uma região administrativa especial (RAE) da China em 1997, ano em que a cidade foi devolvida. Pelo acordo entre britânicos e chineses, Hong Kong goza de um elevado grau de autonomia, liberdade de expressão e econômica. Também preserva elementos do sistema judicial ocidental. Essas condições devem ser mantidas pelo menos até 2047.

O discurso da figura política mais importante de Hong Kong aliviou boa parte da tensão acumulada nas últimas horas com o ultimato dos estudantes. As autoridades tinham advertido que possíveis atos violentos resultariam em “sérias consequências”, e seriam respondidos com “medidas firmes e o uso apropriado da força”, se necessário. O movimento ‘Occupy Central’, um dos protagonistas do movimento junto à Federação dos Estudantes, ressaltou que as declarações de Leung permitiram às duas partes “dar um passo para trás” e reduzir a tensão, mesmo que a atual crise siga sem solução.

Confrontos – No entanto, nesta sexta, ativistas pró-democracia enfrentaram grupos opositores em duas áreas comerciais movimentadas de Hong Kong, provocando a intervenção da polícia. Os confrontos aconteceram em Causeway Bay e Mong Kok, depois que vários grupos tentaram derrubar as barricadas em uma aparente reação contra as manifestações, que paralisaram diversos setores da cidade. As principais avenidas da cidade permaneciam bloqueadas nesta sexta-feira e vários bairros da ex-colônia britânica estavam paralisados.

Alguns manifestantes também enfrentaram a polícia diante da sede do governo local, onde se reuniram para exigir a renúncia do chefe do Executivo, que acusam de ser uma marionete de Pequim. Pequim afirmou nesta sexta que as autoridades não farão qualquer concessão aos militantes pró-democracia de Hong Kong, acrescentando que a causa dos manifestantes está “condenada ao fracasso”. As exigências de sufrágio universal “não são legais nem razoáveis”, advertiu o Diário do Povo, órgão do Partido Comunista, em um editorial de tom alarmista.

O movimento foi deflagrado após a decisão de Pequim, anunciada em agosto, de aplicar o sufrágio universal na eleição do chefe do Executivo de Hong Kong em 2017, mas com um controle sobre as candidaturas. O governo do Japão afirmou nesta sexta-feira que deseja a manutenção de um sistema “livre e aberto” em Hong Kong, uma declaração que não deve ser bem recebida por Pequim. Os protestos, pacíficos e ordenados, puseram a reforma política de Hong Kong no centro das atenções mundiais, o que visivelmente incomodou o governo chinês.

(Com agências Reuters e France-Presse)

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