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‘Estão se matando’, diz primeiro brasileiro a escalar o Everest

Além da lotação na temporada de 2019, a falta de experiência de muitos alpinistas contribui para o aumento das mortes na maior montanha do mundo

Por Julia Braun Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 30 Maio 2019, 07h47 - Publicado em 30 Maio 2019, 06h30

Na atual temporada, onze pessoas morreram na escalada do Monte Everest. A missão de chegar ao topo da montanha mais alta do mundo é conhecida como uma das mais inóspitas e arriscadas. Mas, nos últimos seis anos, não houve maior número de vítimas fatais. As mortes são atribuídas à superlotação na etapa final da subida e à falta de experiência de muitos dos alpinistas.

Para a temporada de abril e maio deste ano, o governo do Nepal concedeu o recorde de 381 permissões de escalada, ao preço de 11.000 dólares por pessoa. Cada titular de um passe é normalmente acompanhado por um guia, o sherpa, o que significa que mais de 750 pessoas estariam na rota do Nepal de escalada.

Além dos montanhistas que sobem pelo flanco sul, contudo, ao menos 140 receberam permissões para escalar o Everest a partir do flanco norte, no Tibete. O total, portanto, foi de 1.042 pessoas somente nesta temporada.

Waldemar Niclevicz, o primeiro brasileiro a escalar o Everest, afirma que, além da lotação, a falta de preparo e experiência de muitos alpinistas também pode ter levado ao aumento das fatalidades.

“Houve um boom da comercialização do Everest desde a década de 90”, afirma o montanhista de 53 anos. “Muitos dos novos interessados são turistas, e não alpinistas”, completa.

“A preparação e o conhecimento, assim como o respeito à montanha e aos seus próprios limites são fundamentais”, completa o paranaense, que chegou ao cume do Everest quando tinha 25 anos e em sua segunda tentativa de escalada da montanha.

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Desde então, Niclevicz realiza diversas expedições pelo mundo, atua como guia e faz palestras motivacionais em empresas.

O alpinista Waldemar Niclevicz, no Acampamento Base do Everest no dia 22 de abril de 2019: pessoas com roupas e calçados inapropirados e bolsas a tiracolo. (Jorge Baggio/Arquivo pessoal)

Durante a atual temporada de escaladas, Niclevicz acompanhou um grupo em uma trilha ao Campo Base Sul do Everest. O alpinista conta que se deparou com o acampamento extremamente lotado em abril.

Durante o percurso até ali, de 65 quilômetros desde a cidade de Lukla, afirma ter cruzado com multidões caminhando, por vezes, em filas indianas longuíssimas. “Muitas pessoas estavam com calçados e roupas inapropriadas e até com bolsas de tiracolo, em vez de mochilas”, diz.

Um dos alpinistas que chegou ao topo do monte nesta temporada, Elia Saikaly, relatou uma “carnificina” no final de sua jornada. Em um post no Instagram, afirmou ter visto cenas de caos e corpos de vítimas da altitude dentro de tendas nos acampamentos.

“Isso não é normal, não é alpinismo”, diz Niclevicz. “A maioria das mortes foi causada por inexperiência, por pessoas que não respeitam seus limites e os limites da montanha.” “Existem fatalidades, mas a montanha não mata ninguém. As próprias pessoas estão se matando”, completou.

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Filas ‘longuíssimas’ até o Campo Base, no Nepal: alpinista brasileiro diz ter cruzado com multidões em abril passado (Waldemar Niclevicz/Arquivo pessoal)

Diante das tragédias dos últimos dias, o governo nepalês já afirmou que está considerando mudar as regras para a escalada do Everest. Autoridades anteciparam que podem vir a exigir que os alpinistas enviem provas concretas de experiência em montanhismo e uma avaliação de saúde mais detalhada para emitir o passe.

Pelas regras atuais adotadas pelo país, os alpinistas precisam enviar apenas uma cópia do passaporte, algumas informações e um certificado comprovando que eles têm boas condições de saúde.

O governo chinês já exige comprovante de experiências anteriores dos alpinistas que realizam a escalada pelo flanco norte, saindo do Tibete.

Falta de ar e temperaturas congelantes

Ana Elisa Boscarioli no Everest, em 2006, a primeira brasileira a chegar no topo: ‘não sei se repetiria a escalada’. (Ana Elisa Boscarioli/Arquivo pessoal)

O Everest ou Chomolungma, como é chamado no Nepal, tem 8.848,43 metros de altura e é a montanha mais alta do mundo. Ao todo, o percurso de escalada do lado nepalês leva de 7 a 11 semanas desde Lukla, a cidade mais próxima. Os alpinistas, contudo, passam boa parte desse período se acostumando com as altas altitudes e fazendo caminhadas entre os acampamentos.

O frio e o ar rarefeito são os maiores obstáculos dos montanhistas. A temperatura pode chegar a 70 ºC negativos, e a altitude deixa o corpo em pane: os músculos perdem força, o cérebro não é oxigenado normalmente, e o pulmão corre o risco de sofrer um edema. Mesmo com o uso de cilindros de oxigênio, é normal que muitos sintam intenso mal-estar.

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Para facilitar a jornada, os grupos escolhem “janelas” de tempo mais ameno para iniciar a escalada. Os períodos normalmente acontecem entre a metade de abril e o fim de maio.

Neste ano, contudo, foram registradas menos janelas meteorológicas adequadas para chegar ao topo, todas por curtos períodos de tempo. A passagem do ciclone Fani na região, no final de abril, também alterou as condições do clima, obrigando a maioria dos grupos a iniciar sua expedição ao topo nos mesmos dias.

Desta maneira, formou-se o engarrafamento na chamada “zona da morte”, acima dos 8.000 metros de altura. Algumas das fotos que circularam pela imprensa na última semana mostraram uma fila de pessoas esperando a vez para avançar ao cume.

Monte Everest
(Arte/VEJA)

A exposição ao frio e ao ar rarefeito por muito tempo, em tamanha altitude, é apontada por especialistas como a principal causa para pelo menos 9 das 11 mortes registradas na atual temporada.

A cirurgiã plástica Ana Elisa Boscarioli, de 53 anos, completou a escalada em maio de 2006 e tornou-se a primeira mulher brasileira a alcançar esse feito. A paulista se preparou para a aventura por sete anos, com escaladas menores e cursos na Bolívia. Ainda assim, relata ter sentido muita dificuldade no trecho final do Everest.

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“Paramos por 10 minutos em uma plataforma para beber água e comer algo, e comecei a congelar. Meus pés e mãos doíam muito”, conta. “É impossível ficar parado naquela altitude, não imagino como as pessoas têm ficado tanto tempo nas filas”, diz.

No topo do mundo: ‘Comecei a congelar. Meus pés e mãos doíam muito’, relata médica paulista (Ana Elisa Boscarioli/Arquivo pessoal)

A médica fez a escalada com uma equipe de dezesseis pessoas e afirma ter considerado o grupo muito grande para avançar até o cume. Durante as janelas meteorológicas deste ano,porém, há relatos da presença de mais de 250 pessoas enfileiradas no trecho final para chegar ao topo.

“Muita coisa pode dar errado, ficamos por um fio”, diz Boscarioli. “Hoje em dia, tenho mais medo de morrer. Não sei se repetiria a escala.”

Na chamada “zona da morte”, os montanhistas precisam atravessar um caminho estreito, apoiando-se em uma corda fixa e sem conseguirem enxergar bem. “É muito difícil fazer uma ultrapassagem, o que exigiria um esforço enorme”, afirma Ana Elisa.

A paulista enfrentou ainda uma situação trágica durante sua expedição. Seu amigo Vitor Negrete morreu ao tentar escalar o Everest sem o auxílio de cilindros de oxigênio extra apenas um dia antes de ela alcançar o topo da montanha.

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“Só fiquei sabendo da morte na descida”, diz. “Acho que, se descobrisse antes, eu não teria conseguido chegar ao cume.”

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