Escudo das Américas de Trump abre cada vez mais portas para a hegemonia dos EUA no continente
O assunto terá certamente destaque na campanha eleitoral brasileira que se inicia
Lançado em março com a pompa habitual desta era trumpista, o Escudo das Américas chegou para “obliterar o narcoterrorismo”, um termo forjado na mesma era, através de um esforço conjunto dos Estados Unidos com seus parceiros na América Latina. Na teoria, um esforço louvável. Na prática, uma manobra da Casa Branca para selar o domínio sobre uma região que considera “sua” por direito. Seja como for, a iniciativa é um sucesso, ancorado na sucessiva eleição de governos de direita nesta parte do globo. Em cinco meses, o número de adesões subiu de doze para dezenove, sendo a Colômbia a mais recente — e também a mais radical: o recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella ofereceu o país para ser a central de comando do projeto e receber tropas e equipamentos bélicos americanos em seu território, um tipo de operação militar que não era visto nessas paragens desde o século passado.
Às voltas com um terremoto que ceifou mais de 300 vidas e deixou milhares de desabrigados, De la Espriella, advogado de discurso inflamado e zero experiência política, declarou estado de emergência nos primeiros dias de mandato e viajou às áreas mais afetadas pelo tremor — onde, em uma cena insólita viralizada em vídeo e amplamente criticada, distribuiu bolas de futebol (com o nome de seu partido gravado) a crianças sem casa ou comida. Nem por isso desviou o foco da promessa de acabar a toque de caixa com a violência que grassa no país há décadas, dando início às primeiras ações militares nos rincões e florestas que já foram reduto de guerrilhas de esquerda e hoje estão mais para corredor de contrabando de drogas.
O Escudo das Américas prevê o compartilhamento de inteligência e missões coordenadas entre os membros, de bombardeios a campanhas terrestres. Trump, que vem interferindo abertamente a favor dos conservadores nas eleições do continente — a começar pelo pioneiro, o argentino Javier Milei, em 2023 — para concretizar o sonho de ver toda a região pensando e agindo à sua maneira, designou duas águias para administrar a operação: o secretário de Estado Marco Rubio, descendente de cubanos e ferrenho anticastrista, e o secretário de Defesa Pete Hegseth, ávido intervencionista. Ou melhor, três: Kristi Noem, a “Barbie do ICE” defenestrada do Departamento de Segurança Interna, ganhou como consolação o título de “enviada especial” da Casa Branca para a nova entidade. Em bloco, os governos (veja no mapa) capitaneados por aliados de Trump se propuseram a abrir as portas às Forças Armadas dos Estados Unidos, o que desperta fantasmas de intervenções passadas que levaram a ciclos de violência extrema na região. “Dado o poderio americano, isso não é cooperação, mas uma relação assimétrica que permite que Washington imponha sua agenda”, diz Christopher Sabatini, diretor do programa para as Américas no think tank Chatham House.
Esse projeto de Trump vem pondo as engrenagens para girar. O alto-comando militar americano na América do Sul acaba de anunciar a instalação de uma força-tarefa para unificar as ações da aliança. “Quem quer que trafique drogas e ameace o povo americano ou nossos parceiros, onde quer que seja, é um alvo igual ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda”, bradou Hegseth, reforçando o conceito do narcoterrorismo durante visita ao Panamá. Integrante de primeira hora do escudo encabeçado por Trump, o país sediou, entre os dias 3 e 13 de agosto, um fórum e um exercício militar com quase 2 000 soldados dos dezenove aliados.
No mesmo evento, o secretário de Defesa anunciou um primeiro envio de soldados, helicópteros Chinook e cargueiros Boeing C-17 à Colômbia. Antes disso, no Equador, o presidente Daniel Noboa abriu a temporada de caça aos chefões do tráfico com uma operação conjunta que envolve quase 80 000 integrantes do exército local e um punhado de “assessores” americanos — desde então, houve vários bombardeios contra o Comandos de la Frontera, grupo armado que atua por toda a Amazônia. No ano passado, o conservador Santiago Peña já havia assinado um acordo que permite, de forma inédita, a permanência de forças dos Estados Unidos no Paraguai para ações contra o narcotráfico. Honduras e Guatemala estão em vias de finalizar um pacto semelhante.
O Escudo das Américas retoma o espírito da doutrina, estabelecida no século XIX pelo então presidente James Monroe, de que as nações do continente estavam na zona de influência americana — Inglaterra e França, as potências da época, não tinham nada que fazer por lá. O próprio Trump avaliza a comparação, ressaltando que sua “Doutrina Donroe” (apelido que colou) vai mais longe. “Defenderemos nosso hemisfério de ameaças externas”, garantiu Marco Rubio dias atrás, em referência nada sutil ao avanço da potência dos dias de hoje, a China, que amplia seu raio de atuação e fatura com atividades econômicas variadas na América Latina.
A doutrina começou a ganhar crescentes contornos militaristas há quase um ano, com a Operação Lança do Sul, que, sob a acusação de transporte de drogas, explode barcos nas principais rotas marítimas do tráfico no Caribe e no Pacífico Ocidental, resultando já em mais de 200 mortes. “São execuções extrajudiciais. Repetir a mesma conduta em operações terrestres pode dar lugar a todo tipo de violação”, analisa Alberto Maresca, pesquisador da FGV-SP. Essa espécie de licença para matar foi fabricada quando Trump declarou, em seu retorno à Casa Branca, que os Estados Unidos estão em “conflito armado” com a miríade de facções que classificou como “organizações terroristas estrangeiras”, medida que também justificou o envio de forças à Venezuela para capturar Nicolás Maduro.
Aqui, até agora, a única iniciativa concreta do Pentágono nesse sentido foi classificar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas”. Nem México nem Brasil, os dois pesos-pesados da região e, não por acaso, os baluartes da esquerda no continente, aderiram ao Escudo das Américas. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, tem cooperado com Washington na área de segurança, mas resiste à pressão para que militares atuem diretamente no país. Segundo ela, seria uma “afronta à soberania nacional” — mesmo discurso do presidente Lula para resistir às ofensivas dos Estados Unidos.
O assunto terá certamente destaque na campanha eleitoral que se inicia, com o PT tentando mostrar os adversários como sabujos de Trump e a direita insistindo no discurso linha-dura em prol da segurança — que pega bem entre o eleitorado, como mostram as recentes votações nos países vizinhos. Candidatos como Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) elogiaram a classificação de PCC e Comando Vermelho como terroristas. “O PT não diz, mas quem ameaça a nossa soberania são exatamente as facções”, bradou Zema. O tema segue polarizando os brasileiros: a maioria até apoia a classificação americana (59%), mas um percentual ainda maior (74%) rejeita uma intervenção direta.
O histórico desse tipo de ação não é, de fato, animador. Operações militares dos Estados Unidos no hemisfério, como o Plano Colômbia, dos anos 1990, e a Iniciativa Mérida, implementada no México na década de 2000, deixaram dezenas de milhares de baixas entre a população civil. A tática de assassinar lideranças para desmantelar facções se provou, no mínimo, ineficaz: ou há mera substituição de comando, ou guerras civis são deflagradas pela sucessão, gerando ainda mais violência, como o que se vê no cartel mexicano Jalisco Nova Geração desde a morte do chefão El Mencho, em fevereiro.
Em paralelo, o crime organizado evoluiu, com uma estrutura menos hierárquica e mais capilarizada, avanços no setor tecnológico, com o uso de drones a criptomoedas, e uma rede intrincada de conexões internacionais — a quadrilha venezuelana Tren de Aragua compra armas na Colômbia e é um dos principais fornecedores para o Comando Vermelho. “Essas mudanças tornaram as facções menos suscetíveis ainda à visão meramente militarista que ganha popularidade na região”, ressalta Gabriel Funari, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional.
Para Trump, contudo, o método interessa por reforçar sua narrativa de “lei e ordem” no cenário doméstico e o projeto para restaurar o controle na fronteira sul dos Estados Unidos. Também tira o foco da desastrosa guerra no Irã e do fato de que é visto com crescente antipatia até pelos conservadores na Europa e no Oriente. Nesse contexto, ganha ainda mais valor o aplauso incondicional de los trumpitos, como são chamados os mandatários latino-americanos engajados na cruzada. “O problema do narcotráfico é genuíno e deve ser abordado com cooperação internacional, mas o Escudo das Américas é uma iniciativa performativa e, pior, perigosa”, disse a VEJA Richard Kilroy, cientista político da Universidade Rice e ex-militar que atuou no governo Bill Clinton para desmilitarizar o combate ao tráfico. Com olhos voltados para o passado, a América Latina corre o risco de ver uma reprise de um filme para lá de violento.
Com reportagem de Caio Saad
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







