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Erdogan derruba veto a lenço islâmico em órgãos públicos

Críticos veem medida como mais um passo rumo a islamização do país promovida pelo governo

Por Da Redação 8 out 2013, 19h43

O governo da Turquia derrubou a proibição de mulheres usarem lenços na cabeça em prédios públicos, medida anunciada como parte de um pacote destinado a aumentar a democracia no país. No entanto, secularistas veem o fim do veto como mais uma prova de que o governo age para impor uma agenda islâmica na sociedade.

De fato, o processo de islamização da Turquia começou há dez anos, quando o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), do premiê Recep Tayyip Erdogan, chegou ao poder. Os sinais estão evidentes hoje. O país aprovou recentemente uma lei que restringe o comércio de bebidas alcoólicas, as mulheres evitam usar short nas ruas para não ser admoestadas e casais que se beijam em público são frequentemente incomodados por patrulheiros religiosos informais, mas que agem sob a vista grossa da polícia.

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O debate sobre o uso de lenços na cabeça simboliza a tensão entre as elites religiosa e secular do país. Os críticos de Erdogan afirmam que o partido do premiê tenta acabar com os fundamentos seculares da república erguidos sobre as ruínas da teocracia otomana por Mustafa Kemal Atatürk, em 1923. Os apoiadores do primeiro-ministro acreditam que ele está restaurando a liberdade de expressão religiosa para a maioria muçulmana.

“Uma regulamentação que prejudicou muitos jovens e causou grande sofrimento a seus pais, um período escuro, está chegando ao fim”, disse Erdogan sobre a decisão publicada nesta terça-feira no diário oficial do país, e que tem efeito imediato. Erdogan deu a declaração em um encontro com membros do AKP.

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O fim do veto introduz uma série de reformas nas regras vendidas por Erdogan como um “pacote de democratização”, que inclui mudanças no sistema eleitoral, como a redução da exigência de um percentual mínimo para um partido entrar para o parlamento, permissão para educar crianças em outros idiomas que não o turco, e permissão para cidades usarem seus nomes originais curdos.

Os opositores usam um exemplo recente para indicar que as intenções do governo são outras. Uma apresentadora de TV foi demitida depois de ser criticada por um dos chefes do AKP por usar um vestido que ele considerou indecente. “Essas políticas mostram não apenas as ações do governo em relação às mulheres, mas também seu entendimento do que são liberdades. Há países que interferem na vestimenta de apresentadores de televisão, mas nesses países não podemos falar em democracia”, disse Sezgin Tanrikulu, vice-chefe do principal partido de oposição, o Partido do Povo Republicano, que foi fundado por Atatürk.

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O uso do lenço continuará proibido nas áreas militar e policial e no judiciário. Mas o governo esperar derrubar a proibição em breve também nesses setores. Ao criar a Turquia moderna, o general Atatürk (1881-1938) submeteu a religião ao estado e limpou todos os vestígios islâmicos dentro das Forças Armadas. Entre 1960 e 1997, os militares deram quatro golpes de estado, sendo que um dos governos foi deposto por suas tendências islâmicas. O serviço público também era vistos como um bastião do secularismo sustentado pelos militares. O fim da proibição aos lenços é visto como analistas como mais um passo no esforço de Erdogan para enfraquecer as Forças Armadas, processo colocado em prática com a perseguição aos militares seculares bem-sucedidos na corporação.

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(Com agência Reuters)

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