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Erdogan anula resultado de eleição municipal em Istambul

Presidente turco argumenta que escolha do prefeito foi afetada pelo 'crime organizado'; prefeito da oposição ficou no cargo por 20 dias

Por Da Redação - Atualizado em 7 maio 2019, 18h14 - Publicado em 7 maio 2019, 14h52

O presidente da Turquia, Recep Erdogan, defendeu nesta terça-feira, 7, a anulação das eleições municipais em Istambul, que havia dado vitória à oposição. Segundo o líder, a escolha do prefeito da maior cidade do país foi afetada pelo “crime organizado e por graves organizações de corrupção.”

“Nós vemos esta decisão como o melhor caminho para fortalecer a vontade de resolver nossos problemas dentro do esperado pela democracia e pela lei”, declarou Erdogan, em uma reunião parlamentar com membros de seu partido, o Justiça e Desenvolvimento (AKP).

O presidente insistiu que “ladrões” roubaram o “poder popular” nas urnas e pediu a punição dos responsáveis pelas supostas fraudes. No último mês, os aliados do governo denunciaram a contabilização de 300.000 votos inválidos no pleito de Istambul, onde a disputa e a contagem dos votos foram das mais acirradas da história do país.

A recontagem de votos consolidou a derrota do AKP no dia 17 de abril, um golpe duro para o presidente, que enfrenta a primeira recessão econômica em dezesseis anos no poder. Istambul é um dos redutos mais tradicionais de apoio a Erdogan, com sua prefeitura comandada há cerca de 25 anos por seus aliados.

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Com a vitória em Istambul, a oposição chegou a dominar as três maiores cidades da Turquia, incluindo a capital Ancara, vitória vista como um sinal de reprovação popular da gestão de crise de Erdogan, que vem investindo em novas medidas autoritárias.

O candidato oposicionista, Ekrem Imamoglu, membro do Partido Republicano do Povo (CHP), ocupava o cargo de prefeito havia vinte dias e foi surpreendido pela notícia da revogação de sua vitória. Já despido de seus poderes, ele descreveu o parecer do comitê eleitoral turco como “traiçoeiro”.

“Aqueles que tomam as decisões neste país podem estar traindo os interesses do nosso povo, mas nunca nos renderemos, manteremos a esperança”, protestou Imamoglu.

O Parlamento Europeu, com a eleição de seus novos membros marcada para este mês, também condenou a sentença, afirmando que ela compromete a credibilidade das votações democráticas na Turquia. As decisões autoritárias do governo turco continuam emperrando suas negociações para entrada na União Europeia, em avaliação desde 2005.

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Protestos

O anúncio do novo pleito, marcado para o próximo dia 23 de junho, gerou protestos por toda Istambul na segunda-feira 6. Centenas de pessoas se reuniram em vários distritos, batendo em panelas e entoando hinos antigovernistas. Neste período transitório, o chefe da Câmara Legislativa da cidade, Ali Yerlikaya, desempenhará as funções de prefeito.

O CHP teve uma vitória estreita e contestada na votação da prefeitura local, no dia 23 de março. Mais de 57 milhões de pessoas estavam registradas para votar nas eleições de prefeitos e conselheiros pelo país e a participação foi de cerca de 85%.

A comissão eleitoral turca afirmou que Ekrem Imamoglu chegou a liderar a apuração por menos de 0,5%. Após uma recontagem dos votos, essa vantagem ficou ainda menor: 0,25%, o equivalente a cerca de 13 mil votos.

Os partidos opositores convocaram uma reunião de emergência e decidiram boicotar a nova eleição. Um deputado da coalizão, Mahmut Tanal, descreveu a decisão em um post no Twitter como um “assassinato da lei” e uma “mancha” na história do país.

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Analistas políticos próximos do governo, falando em condição de anonimato, descreveram um Erdogan furioso após a derrota em Istambul. Uma das fontes disse que o chefe de Estado teve um ataque de cólera na noite da eleição.

Outra fonte assegurou que o candidato do governo à prefeitura, Binali Yildirim, ex-primeiro-ministro e um aliado próximo do presidente, estava pronto para reconhecer a derrota quando foi impedido e convencido a proclamar vitória.

“Essa é a maior distorção das eleições democráticas na Turquia desde que o país teve uma votação livre e justa pela primeira vez, em 1950”, declarou Soner Cagaptay, diretor do Programa de Pesquisa Turca do Washington Institute for Near East Policy.

“Esse é um dia triste para a Turquia. Nunca antes um derrotado se recusou a reconhecer os resultados de uma eleição. Esta decisão coloca em dúvida o consenso obtido com dificuldade no país, construído ao longo de décadas, de que o poder e o governo mudam de mãos por eleições democráticas”, completou.

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(Com Estadão Conteúdo)

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