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Entenda a diplomacia informal entre EUA e Taiwan que irrita China

Visita oficial do secretário de Saúde americano, Alex Azar, à ilha ‘é quase um reconhecimento de independência’, afirma cientista político

Por Caio Mattos - Atualizado em 14 ago 2020, 19h09 - Publicado em 15 ago 2020, 08h00

Para além de Hong Kong, atravessando o Estreito de Taiwan, uma outra região que é centro de disputa e provocações entre os Estados Unidos e a China roubou os holofotes nesta semana — uma ilha do tamanho do estado do Rio de Janeiro que desafia as ordens de Pequim há mais de meio século. 

A ilha de Taiwan, governada de facto democraticamente pela autointitulada República da China, com capital em Taipei, recebeu na segunda-feira 10 a maior autoridade sanitária do governo americano, o secretário de Saúde, Alex Azar.

O propósito oficial da visita, de acordo com o Departamento de Saúde americano, foi fortalecer a cooperação entre os americanos e os taiwaneses na área sanitária, tendo em vista o sucesso da ilha no combate à pandemia de Covid-19.

Com seus mais de 25 milhões de habitantes, equivalente à população da Austrália, Taiwan registrou somente 481 casos da doença desde o início da pandemia ou seja, dois a cada 100.000 habitantes —, segundo o New York Times. Na última semana, foram apenas 4 novas contaminações.

Taiwan, assim como Pequim, também se destacou na “diplomacia da máscara”, tendo doado 51 milhões de máscaras a mais de 80 países ao redor do mundo até o final de junho.

“A abordagem de Taiwan para combater o vírus por meio de abertura, transparência e cooperação contrasta fortemente com o país onde o vírus começou”, disse Azar durante sua visita, alfinetando a China.

Com mais de 25 milhões de habitantes, Taiwan registrou somente 481 casos da doença desde o início da pandemia

“Se um novo vírus como este tivesse surgido em Taiwan ou em outra sociedade aberta… [ele] teria sido relatado de modo pontual e preciso”, acrescentou em alusão ao atraso de Pequim em divulgar os primeiros casos.

Soberania de Taiwan

O secretário de Saúde americano também provocou a Organização Mundial da Saúde (OMS) por excluir Taiwan das atividades da entidade em uma decisão “nociva e contra-produtiva” tomada em 2016 sob a pressão do governo do presidente chinês, Xi Jinping.

Desde o final da guerra civil chinesa, em 1949, que levou os comunistas ao poder, Pequim defende que Taiwan não é um país soberano, e sim uma província da República Popular da China. 

Essa visão é apoiada formalmente pelas Nações Unidas, da qual a OMS faz parte. Apenas 14 dos 193 países das Nações Unidas ainda reconhecem a soberania taiwanesa. Os Estados Unidos não fazem parte desse grupo.

Ministro da saúde de Taiwan, Chen Shih-chung, ao centro, participa de manifestação pelo reingresso de Taiwan na OMS em meio a assembleia de 2018 da organização na sua sede, em Genebra, Suíça – 21/05/2018 Fabrice Coffrini/AFP

Azar foi a primeira autoridade do alto escalão do governo americano a oficialmente visitar a ilha desde 1979, quando os Estados Unidos romperam suas relações formais com Taiwan.

“A visita é quase um reconhecimento da independência de Taiwan. É uma atitude bem calculada por Washington para provocar uma reação de Pequim”, disse a VEJA o cientista político Chih-yu Shih, da Universidade Nacional de Taiwan.

Na mesma segunda-feira da visita de Azar, dois caças chineses cruzaram a metade do Estreito de Taiwan até serem expulsos pela defesa aérea taiwanesa, informou o Ministério da Defesa da ilha.

“A China se opõe firmemente a encontros oficiais entre os Estados Unidos e Taiwan sob qualquer pretexto. Quem está brincando com fogo vai acabar se queimando muito”, disse o ministro das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, dois dias depois, na quarta-feira 12.

Trump e Taiwan

A visita, analisou Shih, “prende Taiwan ainda mais à estratégia de Washington”. Afinal, o episódio desta semana sucedeu uma série de aproximações do governo Trump à ilha, que datam desde antes da posse do republicano, em janeiro de 2017.

No início de dezembro de 2016, o então presidente-eleito aceitou um telefonema da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, parabenizando-o pela sua eleição. A conversa de 10 minutos foi a primeira de que se tem registro entre um presidente ou presidente-eleito americano e um chefe de Estado de Taiwan desde a década de 1970.

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A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, acena para seus eleitores em Taipei durante sua campanha de reeleição vitoriosa no início de 2020 – 11/01/2020 Sam Yeh/AFP

Trump, ainda em dezembro, questionou em uma entrevista a necessidade dos americanos “terem que se vincular à política de uma única China”. 

Dois meses depois, em um dos primeiros recuos de sua Presidência, Trump reafirmou seu apoio ao reconhecimento de uma única China após conversar com Xi.

O presidente americano, em si, talvez não se interesse tanto em Taiwan. Ele é acusado por John Bolton, seu ex-conselheiro de segurança nacional, de constantemente menosprezar a ilha, a qual ele teria comparado à “ponta de uma de minhas canetinhas”.

De fato, os principais impactos do governo Trump nas relações com Taiwan refletem a rivalidade geopolítica entre os Estados Unidos e a China continental.

No plano econômico, por exemplo, a ilha foi o maior beneficiado da disputa comercial sino-americana no primeiro semestre de 2019, segundo um estudo de novembro da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento.

Dos 35 bilhões de dólares (187 bilhões de reais) de perdas em exportações da China continental para os Estados Unidos naquele período, quase 15% foram absorvidos pelo mercado taiwanês.

Além disso, como disse a economista Song Seng Wun em entrevista à Forbes, as sanções estimularam as empresas taiwanesas de tecnologia a dependerem menos da mão-de-obra barata e do mercado consumidor na China continental, realocando-se de volta na ilha.

No plano militar, de acordo com o Relatório do Departamento de Defesa para o Indo-Pacífico, de 2019, a relação dos Estados Unidos com Taiwan e os outros países da região é “definido pela rivalidade geopolítica entre visões de ordem mundial livres e repressivas”.

“A República Popular da China, sob a liderança do Partido Comunista Chinês, busca reordenar a região a seu favor”, acrescenta o relatório. 

No mesmo ano, Trump autorizou a venda de 10 bilhões de dólares (53 bilhões de reais) em tanques, em mísseis anti-aéreos e nos polêmicos 66 caças F-16 ao governo de Taiwan.

A US-made F-16 fighter acquired by the Taiwanese army takes off during a drill at the Hualien Air Force Base in eastern Taiwan – 24/03/2020 Taiwan’s Military News Agency (MNA)/Reuters

Como destacou o portal de notícias Bloomberg, a venda de F-16 destoa do principal documento da diplomacia americana em Taiwan: o Ato de Relações com Taiwan, uma lei de 1979, que orienta, dentre outras coisas, os americanos a fornecer à ilha apenas “armamentos de caráter defensivo”.

Diplomacia Informal

O Comunicado Conjunto de 1979 entre os Estados Unidos e a República Popular da China, no qual o governo americano reconheceu a soberania de Pequim sobre a China continental e Taiwan, determina que o “povo americano manterá relações culturais, comerciais, e outras não oficiais” com os taiwaneses.

Como os Estados Unidos não têm embaixada na ilha, é o Instituto Americano em Taiwan (IAT), uma instituição privada e sem fins lucrativos, que presta os serviços consulares. O IAT é fiscalizado pelo Congresso americano.

Perguntado por VEJA sobre as características dessas relações não oficiais, Shih destacou o investimento do governo americano no intercâmbio acadêmico com a ilha. Na década de 1990, o foco era no acolhimento de estudantes taiwaneses em universidades americanas. Já nas décadas seguintes, passou a ser a criação de think tanks.

Quanto às relações comerciais, o Departamento de Estado americano reafirmou em um comunicado de 2018 que “os Estados Unidos mantém laços comerciais com Taiwan desde 1979”.

Segundo dados mais recentes do Departamento de Comércio americano, os taiwaneses exportaram 76 bilhões de dólares (409 bilhões de reais) em bens para os Estados Unidos.

Assim, Taiwan foi o 11º maior exportador de bens ao mercado americano, acima mesmo do Brasil.

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