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Enchentes na Tailândia puseram governo em xeque

Miguel F Rovira.

Bangcoc, 6 dez (EFE).- Dois meses depois de assumir a chefia do governo da Tailândia, a primeira-ministra Yingluck Shinawatra se deparou com um país politicamente dividido, em uma grave crise causada pelas piores enchentes registradas em meio século.

Com uma oposição à espreita e preparada para tirar proveito político de qualquer erro cometido pelo governo na gestão das inundações, Yingluck não teve outra alternativa além de admitir publicamente que os esforços para evitar o desastre tinham fracassado.

No final de outubro, a enorme corrente de água que há mais de dois meses alagava grandes extensões de quase 30 províncias do planalto central chegou ao perímetro de Bangcoc, a capital, e em algumas semanas inundou os distritos do norte e do oeste.

O governo havia tentado conter as cheias com diques reforçados e o uso da rede de canais para proteger a cidade, o coração político e econômico do país que apresenta uma profunda crise social desde o golpe de estado perpetrado em 2006 pelos militares contra o então primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, irmão de Yingluck.

O anúncio no qual admitiu a incapacidade do governo para enfrentar com seus recursos a inundação parcial da capital causou pânico entre os habitantes, que em algumas horas esvaziaram as prateleiras dos supermercados.

Além disso, a mensagem de Yingluck, estreante na política e chefe de um gabinete composto por ministros que conheceu durante ou após a campanha eleitoral, deu sinais de desorganização e serviu para que a oposição aumentasse as críticas.

As aparentes dificuldades da chefe do governo para controlar seus ministros gerou controvérsias e enquanto um declarava que o perigo havia passado, outro alertava que o pior estava por vir.

Em meio a essas declarações contraditórias, o Executivo e o governador de Bangcoc, Sukhumband Paribatra, destacado político do opositor Partido Democrata, disputavam o comando das operações para defender a capital das inundações.

‘Isto é muito confuso’, diziam frequentemente os habitantes de Bangcoc.

Nessa situação de desacerto e divisão política, o Exército enviou tropas e caminhões às ruas, desta vez não para calar os manifestantes, como ocorreu no ano passado, mas com o propósito de ‘ajudar o povo’, diziam os cartazes dispostos nos veículos militares.

As inundações alagaram sete indústrias situadas nos arredores de Bangcoc e deixaram fora de serviço cerca de 10 mil, a maioria de propriedade de grandes companhias estrangeiras, dedicadas desde à produção de componentes eletrônicos até à montagem de veículos japoneses destinados à exportação.

Por volta de 1,6 milhão de hectares voltados ao cultivo de arroz, do qual a Tailândia é o maior exportador em nível mundial, ficaram submersos pela água que começou a transbordar de rios e pântanos do norte e da região central em julho, por conta das chuvas da monção, e de três tempestades tropicais seguidas.

Cerca de 700 pessoas morreram, dezenas delas eletrocutadas, e quase cinco milhões de habitantes foram afetados pelas persistentes inundações, de acordo com dados divulgados pelo departamento responsável pela prevenção de desastres.

Desde que se iniciou na política em meados deste ano com uma bagagem profissional adquirida como diretora de empresas de propriedade do clã Shinawatra, a preparação e a autonomia de Yingluck para governar foram questionadas por seus detratores.

Seu irmão Thaksin, declarado foragido pela Justiça tailandesa e exilado em Dubai para escapar da pena de dois anos de prisão que um tribunal lhe sentenciou por um crime de corrupção, elegeu Yingluck para liderar o Partido Puea Thai, com o qual venceu as eleições realizadas em julho. EFE