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Em resposta a ‘tentativa de golpe’ dos radicais do Hezbollah, sunitas prometem dia de fúria no Líbano nesta terça-feira

Grupo xiita obtém maioria no parlamento para eleger primeiro-ministro e acende a fúria dos opositores - que dizem que acordo garante poder aos sunitas

“Convocamos os habitantes de todo o Líbano a expressar sua cólera e repúdio à tutela persa através de manifestações pacíficas”

Mustafá Alush, político sunita

A semana começou agitada no Líbano depois que o partido extremista Hezbollah assegurou, na segunda-feira, a maioria no Parlamento do país e a capacidade de eleger o primeiro-ministro. O ocupante do cargo deverá ser o magnata das telecomunicações Najib Mikati. Em resposta à nova composição do governo, os aliados do primeiro-ministro em fim de mandato, Saad Hariri, protestaram nas ruas de Beirute e prometeram para esta terça um “dia de fúria”.

A promessa começou a ser cumprida logo pela manhã, quando milhares de pessoas se reuniram em Trípoli para manifestar seu apoio a Saad Hariri. Forças de segurança se concentraram na região, onde escolas e lojas mantêm as portas fechadas. Simpatizantes de Hariri chegavam de todos os lados, a pé, de carro ou de ônibus, à praça central da cidade – onde um grupo incendiou um cartaz com um retrato do indicado do Hezbollah para chefiar o governo.

Hariri foi forçado a reorganizar o governo por causa da demissão de onze ministros do Hezbollah, no início deste mês. As renúncias foram motivadas por uma disputa sobre a investigação do assassinato do pai de Hariri, o ex-premiê Rafik Hariri. Agora, a acusação dos partidários do premiê é de que o Hezbollah, o cada vez mais poderoso movimento político, religioso e militar dos xiitas, tenta colocar o governo do Líbano sob o controle indireto do Irã, seu aliado.

‘Sob tutela’ – Mustafá Alush, membro do conselho político do partido de Hariri, foi um dos políticos que alertaram para o risco de o Hezbollah colocar o Líbano “sob tutela do sistema político iraniano”. Ele e outros partidários de Hariri classificaram ainda as manobras do Hezbollah como tentativa de “golpe de estado” por parte do movimento extremista para impor Mikati como chefe de governo. Para evitar que isso aconteça, os sunitas convocam manifestações para esta terça.

“Convocamos os habitantes de todo o Líbano a expressar sua cólera e repúdio à tutela persa mediante manifestações populares pacíficas”, disse Alush. Os manifestantes queimaram pneus e bloquearam várias estradas na noite de segunda, e os primeiros protestos desta terça já foram registrados. O principal argumento dos manifestantes contra o Hezbollah é o acordo de partilha de poderes no Líbano, que impediria a mudança no poder.

Conforme o acordo, o cargo de primeiro-ministro tem de ficar com os sunitas; o de presidente, com os cristãos; e o de presidente do Parlamento, com os muçulmanos xiitas. “O sangue sunita ferve” e “Hezbollah, partido do diabo” foram algumas das palavras de ordem proferidas pelos cerca de 500 manifestantes que marcharam em Trípoli, principal reduto sunita do Líbano, na segunda-feira. O Exército se mobilizou para tentar controlar a situação na região.

Provável premiê – A maioria parlamentar de 65 assentos foi alcançada depois que o Hezbollah conseguiu o apoio do líder druso Walid Jumblatt. Antes dessas negociações, o partido controlava 57 das 128 cadeiras do Parlamento libanês. Mikati deverá ser eleito para o cargo de primeiro-ministro graças ao apoio do Hezbollah e dos seus aliados. O magnata, de 55 anos, atuou brevemente como primeiro-ministro em 2005 e é próximo à Síria.

Mikati disse que, caso seja indicado para o cargo, agirá como um candidato de consenso, represendo de todos os partidos. “Estendo a mão a todos”, disse ele aos jornalistas. “Se for indicado, meus atos falarão por si.” Saad Hariri, que disputa a reeleição, descartou na segunda-feira participar de um governo presidido por um premiê apontado pelo Hezbollah. Segundo ele, o “candidato de consenso” não existe – portanto, será oposição a Mikati.

(Com agência France-Presse)