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Em NY, uma velha arma do terror

Por The New York Times 3 Maio 2010, 12h21

Há anos eles têm sido a arma predileta em regiões de conflito ao redor do planeta, do Iraque ao Sri Lanka e à Colômbia: caminhonetes ou carros carregados de explosivos, detonados em mercados movimentados, praças públicas e prédios do governo. Depois de 11 de setembro, tanto as autoridades da área de segurança quanto os nova-iorquinos comuns preocupam-se e se perguntam: por que não aqui? As ações seriam mais simples do que o sequestro de aviões e poderiam ter um efeito ainda mais desestabilizador sobre a cidade e seus moradores.

Na noite de sábado, a ameaça de um carro-bomba atingiu Nova York, mesmo que o ataque – planejado de maneira amadora – tenha sido frustrado. Uma Nissan Pathfinder fumegante, carregada com propano, gasolina, fogos de artifício e sacolas, foi deixada em uma movimentada rua ao lado da Times Square.

O artefato grosseiro – preso a relógios e planejado para, nas palavras da polícia, “provocar o caos” – foi desativado antes que pudesse causar danos. Mas, para os nova-iorquinos, foi um lembrete nada sutil e inquietante de que ameaças podem estar escondidas nos porta-malas ou nos assentos traseiros de qualquer um dos milhares de veículos que entram na cidade diariamente. “Você sabe o que vai acontecer”, disse Konstantine Pinteris, de 42 anos, psicoterapeuta de Greenwich Village, que vive na região de Lower East Side. “Está no fundo de sua mente. O tempo todo”, completa.

Agentes de contra terrorismo estão sempre alertas às ameaças em veículos. As barreiras na calçada, bloqueando o acesso a prédios estratégicos, e a determinação do Departamento de Polícia em colocar centenas de câmeras de vigilância no distrito financeiro da cidade são provas disso. E, claro, o país não ignora ameaças com bombas em automóveis grandes. O atentado de 1995 no prédio Alfred P. Murrah, em Oklahoma City, matou 168 pessoas. O primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993, matou seis. Em ambos os casos, centenas de pessoas ficaram feridas.

No entanto, desde 11 de setembro, enquanto os carros-bomba têm causado graus variados de destruição em Bagdá (Iraque), em Cabul (Afeganistão), em Peshawar (Paquistão), e em Glasgow (Escócia), Nova York se viu livre dessa ameaça em particular. Para muitos, de maneira misteriosa. “Uma das coisas impressionantes é que os ataques são incrivelmente eficazes”, disse Gary LaFree, diretor do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e das Respostas ao Terrorismo da Universidade de Maryland. “Eles são muito letais. Então por que não nos Estados Unidos? Essa é uma grande questão”, diz.

As bombas são letais porque são armadas em carros, que estão presentes no cotidiano da cidade e têm mobilidade, de acordo com Jim Cavanaugh, especialista em bombas e diretor aposentado da divisão de campo do Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos de Nashville. “Nós os chamamos de artefatos explosivos improvisados transportados em veículos”, afirmou ele. “Isso é mais ou menos um jargão, mas basicamente é um carro-bomba e, claro, a razão pela qual o carro é usado é a disponibilidade. Ele pode transportar o peso”.

De 1970 até 2007, terroristas usaram carros-bomba ao menos 1.495 vezes, de acordo com pesquisa do Centro de Resposta ao Terrorismo de Maryland. O centro rastreou 876 no Oriente Médio e no norte da África, 212 na Europa Ocidental e 163 no sul da Ásia. Entre os principais acusados estavam o Exército Republicano Irlandês, o Pátria Basca e Liberdade (ETA), na Espanha, o Taliban e a Al-Qaeda na ergião da antiga Mesopotâmia.

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No domingo, os nova-iorquinos tiveram reações contraditórias ao ataque frustrado. Muitos disseram ter se acostumado ao medo de atentados terroristas e não se diziam completamente surpresos. Outros, acomodados pelo fato de que nenhum ataque terrorista aconteceu na cidade desde 11 de setembro de 2001, de repente se viram diante de um lembrete de que algo assim poderia ocorrer subitamente.

Roy Otwell, de 53 anos, que vende acessórios para móveis contemporâneos e vive a algumas quadras da Times Square, disse sempre ter sentido apreensão ao passar por uma ponte ou pelos túneis a caminho de Manhattan. O medo também surgia quando andava pela Times Square. “Sempre pensei que ela seria um lugar óbvio”, disse Otwell, que vive em Nova York há cinco anos. “Ela representaria o centro do mundo para os estrangeiros, mesmo que, para os moradores locais, não seja isso de forma alguma”.

O neurocientista Peter Nash, de 65 anos, que vive na região do Upper West Side, disse esperar outro ataque terrorista em Nova York desde 11 de setembro. Ele afirmou ter tomado precauções, como o aluguel de um cofre fora da cidade para documentos pessoais e comerciais importantes, a manutenção de um kit de emergência (lanterna, fita adesiva, sacos plásticos e comida enlatada) em seu apartamento e o estabelecimento de pontos de encontro com amigos. “É só uma questão de tempo”, disse ele. “É da natureza das organizações terroristas não fazerem coisas criativas. A única coisa que me surpreende é elas não serem mais bem-sucedidas”, afirmou Nash.

Robert W. Gottlieb, 68, advogado que fumava um charuto perto do lago do Conservatory Water, no Central Park, disse que o risco de um ataque terrorista era “apenas algo com que se convive”. Segundo o advogado, “no dia 11 de setembro eles se concentraram em Nova York, mas, na realidade, os terroristas poderiam entrar nas lojas de departamento de todo este país e explodi-las”.

Quem quer que tenha deixado a bomba na Times Square, escolheu um ponto já considerado um alvo e onde seria provável que alguém suspeitasse, disse Gottlieb. Ele afirmou que o motorista do Nissan poderia apenas ter estacionado num parquímetro da Madison Avenue e não sobraria ninguém.

Michael Sheehan, a principal autoridade em contra terrorismo do Departamento de Polícia da Cidade de Nova York no período entre 2003 e 2006, disse que um motivo pelo qual os carros-bomba têm sido raros nos Estados Unidos é que eles são mais difíceis de produzir e detonar do que as pessoas podem imaginar. “Os terroristas não têm sido capazes de fazer nada e a razão é muito simples: nos Estados Unidos eles não tiveram acesso ao treinamento para montar uma bomba sofisticada”, disse Sheehan.

A designer de interiores Sara Duffy, de 40 anos, que vive na região de West Village, soube da bomba na Times Square na manhã de domingo, quando estava no Washington Square Park com suas duas filhas pequenas. Duffy, que viveu a vida inteira em Nova York, disse que ela ainda era capaz de se lembrar do cheiro da fumaça depois do 11 de setembro. Ela falou também que se preocupou com a possibilidade de outro ataque terrorista em Nova York durante meses, mas que se esforçou para deixar a preocupação e a ansiedade de lado. Ela contou que depois, por vezes, chegou até a pensar que a segurança no aeroporto era excessiva. “Acredito que, uma vez que entrei nessa, nunca sairei disso”, afirmou. “Penso que tenho de proteger minhas filhas para que elas não se sintam amedrontadas o tempo todo”. Ao saber sobre a bomba na Times Square, foi taxativa: “Passo ali todo o tempo, mas mesmo assim me recuso a me curvar diante do terrorismo”.

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